POR QUE O GOVERNO EDUARDO LEITE TEM AVALIAÇÃO TÃO RUIM? (Clóvis Veronez)

EDUARDO II

POR QUE O GOVERNO EDUARDO LEITE TEM AVALIAÇÃO TÃO RUIM?

O Observatório Pelotas vem realizando uma série de pesquisas coordenadas pelo sociólogo e cientista político Clóvis Veronez. A série contempla temas diversos entre os quais: cultura política, comunicação em rede, demandas da população, comportamento eleitoral, percepção da conjuntura nacional, estadual e local. A série teve seu inicio em outubro de 2014, com sequência no mês de dezembro de 2014 e, agora, março de 2015. Os três trabalhos, no que se refere a avaliação do governo municipal apontam para “cristalização” da percepção negativa que tem a população de Pelotas sobre gestão tucana e o desempenho do prefeito Eduardo Leite. Avaliação esta, que bate recorde no município desde 2004, quando iniciaram-se os primeiros levantamentos do N.O.S (Núcleo de Observação Social) hoje, Observatório Pelotas.

A tabela abaixo mostra o resultado da pesquisa realizada nos primeiros dias de março de 2015 (N.O.S- Núcleo de Observação Social)

     
Questão : Como você avalia o governo do prefeito Eduardo Leite em Pelotas? Freqüência %
Ótimo 2 0,4 %
Bom 34 6,6 %
Regular 142 27,8 %
Ruim 136 26,6 %
Péssimo 180 35,2 %
Não souberam/Não responderam 16 3,1 %
TOTAL 510 100 %

Esse texto tem como objetivo propor uma reflexão, no campo político, sobre os motivos pelos quais o governo tucano da mostras de fracasso em Pelotas, seu desafio eleitoral e, também, a motivação existente na cidadania local para sua reprovação.

O PSDB EM PELOTAS E A FIGURA DO PREFEITO EDUARDO:

O PSDB tem ao longo dos anos abrigado uma serie de aventuras políticas sem, contudo, firmar-se como legenda forte no cenário político local e estadual. Nas chances que teve, especialmente, no governo do estado com Yeda Crusius fracassou tanto em desempenho quanto em organização. Pelotas, terceiro colégio eleitoral do Rio Grande representa uma segunda grande oportunidade para a sigla repercutir seu modelo de gestão e organização partidária no cenário político gaúcho.

Nesse contexto, o prefeito Eduardo Leite e o PSDB atribuíram a si próprios o desafio de fazer ver, a quem lhes concedeu o crédito eleitoral: – “A cara nova de Pelotas”-. Mensagem de conteúdo quase subliminar associada a imagem física de um candidato jovem e “bem falante” que foi capaz, de forma irresistível, do ponto de vista do marketing eleitoral, canalizar a esperança do eleitorado local. Tal fenômeno, vinha já, a algum tempo, acumulando um tipo particular de capital politico, na conta pessoal do então candidato tucano.

Eduardo Leite é daqueles relâmpagos no campo da política, abreviou sua trajetória, amparado na sua aparência, no bem posar e falar e alguns slogans subliminares (jeito diferente, Pelotas de cara nova, etc.). Sem característica orgânica, raramente participou da vida partidária, nem mesmo dedicou-se a política estudantil, espaço normalmente frequentado por jovens com aspirações políticas e que compartilham o seu status sócio-cultural. 

Aos 19 anos, não fosse o “fenômeno” Cururu, já seria vereador. Com a vitória de Bernardo de Souza ocupou, de relance (3 meses), a secretaria de cidadania e posteriormente, já com Fetter substituindo Bernardo, foi para a chefia de gabinete do novo prefeito. Nos dois postos, pertenceu as cotas pessoais de Bernardo e Fetter e não como indicação do seu partido. Com 23 anos, conquistou seu primeiro mandato como vereador, durante o mandato assumiu a presidência da casa legislativa. Em 2010, concorreu a deputado estadual arrecadando mais de 21.000 votos  e, aos 27 anos, elegeu-se prefeito de Pelotas, quis o destino que tivesse a oportunidade que a poucos é concedida. E, fez a todos crer, que alçaria os mais altos vôos no universo da política.

-A política está no seu DNA, dizem alguns, como se possível fosse-. Mas, lhe fez falta, o exercício sistemático de mediação de interesses, o posicionamento claro e a opção declarada por esse ou aquele segmento social e convicção teórica expressa, frente as situações que o jogo politico impõe. Ao contrário, seu transito, abreviado no tempo, por gabinetes e o vínculo prematuro com as tradicionais “personalidades” da politica local denotavam, isso sim, a composição de um “DNA” de característica conservadora. Eduardo Leite chegou ao Paço municipal representando bem pouco mais do que sua aparência “vistosa” e esta tradição.

Talvez ai, o primeiro item a ser ponderado para o entendimento das dificuldades do atual governo em decolar.

MAS DO QUE TRATA REALMENTE A FUNÇÃO EXECUTIVA? (OU COM QUANTOS PAUS SE FAZ A CANOA?)

Costumo pensar, que o êxito e a aprovação popular, de um mandato executivo, se constrói sobre três eixos: A eficiência da gestão, a qualidade dos serviços e comunicação positiva que, proporcione conhecimento e transparência aos atos da administração. Portanto, meu olhar sobre a atual administração, em sequência, priorizará os eixos citados.

Eduardo Leite, quando assumiu, apresentou documentado, de forma ainda genérica, sua visão de cidade como espaço organizado que eleve a qualidade de vida e oportunize desenvolvimento econômico, com gestão eficiente, participativa e prestadora de bons serviços a sua população. Bom, mas, insuficiente. Com todo respeito, esses versos já se tornaram refrão de samba enredo de várias alegorias políticas. Transformá-los em coisa sensível é outro assunto.

Herdeiro de uma aliança eleitoral ampla e de base, muito mais fisiológica do que programática, logo ele, o prefeito, deparou-se com a dificuldade de transformar em realidade perceptível os princípios e a nomenclatura que orientaram e orientam seu discurso. Dificuldades processaram-se nos campos operacional e político e, ainda, na zona de intersecção entre ambos. Seria preciso acomodar a vasta gama de interesses, que vinha a reboque do processo eleitoral. Impunha-se certa dose de ousadia, para construir o sucesso do empreendimento político em meio a tal cenário. Mas, convenhamos, ao invés disso o quadro de governo mais se assemelhou a um álbum de figurinhas repetidas.

Ao impeto “renovador”, expectativa depositada na figura do jovem político, sucedeu-se um conjunto de praticas e ações que, na minha opinião, reproduziram em gênero, número e grau a tradição conservadora da politica local. Aqui a primeira grande decepção do eleitor. O “jeito diferente” nada tinha de diferente.

A GESTÃO:

Ao choque de gestão (próprio do discurso tucano), faltaram, durante o biênio já encerrado, metas e indicadores de eficiência. No terreno político sobrou, em sentido duplo e por conta de acordos eleitorais, acomodação em postos chave. Embora compreensível, para os “iniciados”, essa postura fez com que o governo obtivesse desempenho medíocre em alguns setores.

Uma gestão, que a bem da verdade esteve ocupada, inicialmente, mais em cobrir o “rombo”, muito maior do aquele anunciado e a ocupar parte de quadros da gestão anterior. Com essa prioridade, relegou ao segundo plano seus objetivos estratégicos. A tal cara nova da cidade foi confiada, especialmente ao “staf” do antigo prefeito e o resultado em dois anos é uma figura medonha sendo que os serviços básicos contentam a poucos privilegiados. Recentemente as alterações na secretaria de obras fizeram com que ensaia-se uma reação. No entanto, o passivo é tal, que na prática os resultados custam a aparecer.

Os projetos, basicamente “emprestados” do governo federal via P.A.C enfrentam dificuldades técnicas ampliando o tempo de sua aprovação e, outros, emperram em questões operacionais.

Do mesmo modo, titubeou, o governo, na articulação política e, a penca de partidos “aliados”, em nenhum momento concedeu ao executivo municipal, uma base de apoio confiável no legislativo. A recente reforma administrativa é tentativa derradeira e onerosa para o projeto eleitoral que se avizinha e o destino dos tais recursos “a mais”obtidos com o aumento do IPTU.

OS SERVIÇOS:

Escolas com instalações precárias, falta de professores, atendimento a saúde ainda deficiente, mas muito especialmente, o abandono dos bairros, o péssimo serviço de limpeza urbana que inclui a coleta de lixo compõe um cenário pouco animador na maior parte da cidade e, impulsionam para baixo, a percepção de sinal negativo da população com relação ao governo municipal.

COMUNICAÇÃO:

No que se refere à comunicação, o resultado é, ainda, mais dramático, poderia até descrever suas “gafes” mas, desnecessário nesse momento.

O ano de 2015 inaugurou, de vez, a corrida eleitoral no municípios Alteram-se as fronteiras da arena política. Importa agora o olhar para além do muro que nos separa da rua, a vizinhança, a escola dos filhos o buraco, a valeta, o ônibus, o vereador, a cidade, o cotidiano da vida real. A cidadania afirma-se no espaço imediato, na proximidade!

Ao candidato da situação não bastara apresentar-se como o jovem bem apessoado que promete uma cidade de “cara nova” com “jeito diferente”. Uma cidade real deverá resultar da sua gestão e, é ela, que está sendo avaliada.

Clóvis Veronez sociólogo e cientista politico.

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