“LÍTERA TERRA” = poesia e prosa no observatório.

ESCRITA
Na quarta edição de “LÍTERA TERRA” os poemas “ácidos” de Luise Frantz Veronez ou Luise “não sei das quantas” que penso é ótima. Completam a página, a prosa oniricamente devota de Josi Carvalho, precioso achado em postagens no Face e a poética historizada de Eduardo Amaro Radox. Como editor daqui, só tenho a dizer que – voltem sempre!

Saudade do amigoTRISTE

 Luise Frantz Veronez

(2º Lugar Poesia no Concurso Literário Voz das Letras-UFPEL/2013)

 

Estômago sofrido fígado

Sangue mistério alimento da célula

Tudo que há de passar e não passa

 

Vivo cada vez que existo hoje

Para contar amanhã

 

Cada sol ou temporal, um vinho

Tarde vinho

Noite vinho

Tanta roupa vinho virada, vinho pintada

Colorida vinho e todas as cores mais a luz.

 

Primeiros frios vindo

Algumas intervenções cachaça para não causar enjôo,

Entretanto, às vezes, ultimamente cerveja

 

Tão rápida quanto respiro

Esvaziando, enchendo o peito

Esvaziando, enchendo o copo

Ela ali inofensiva, virando transparente na camiseta.

 

E o que falar das intervenções à distância?

Se vais bem, vou bem, sem nos vernos

Se vais mal, vou mal, sem conversarmos

Vidas simultâneas,

Partidas tristes,

Reencontros ao acaso

 

Pra lá, pra cá, e para sempre aqui.

 

E, se ao meu lado estiver, em físico presente, matéria,

Teu braço e teu cheiro e teu peito hão de dividir tudo o que há em mim,

Querendo ou não,

Porque antes que se abra a boca, até mesmo antes que se conclua o pensamento,

A partilha já foi feita

As palavras são sabidas

 

Então assistimos, incrédulos, nossa própria adivinhação.

 

ContagemPRESSA

Luise Não sei das Quantas

(1º Lugar no Concurso Literário Voz das Letras – UFPEL/2012)

 

Sinto-me como se tivesse engolido uma bomba-relógio

Sinto a pressão a cada passo dos segundos

A contagem regressiva retumbando

Pressa

Pressa

Não sei qual fio deve ser puxado

 

Dúvida:

Quero mesmo desligá-la?

 

Nestas circunstâncias uma explosão causaria menos estragos

Eu e Ogum no Bar do NenêBAR DO NENE

JOSI CARVALHO.

Essa noite eu tive um sonho muito louco. Ogum batia na minha janela, e me convidava pra dar uma banda. E eu ia. Subia na garupa do Cavalo dele, e saiamos galopando estrada à fora. ele estava me contando que andava meio estressado, desde que assumiu o ano. Estava indignado com tanta injustiça, com tanta gente maldosa, mas que estava inspirado esta noite. Passávamos pelo Navegantes, pelo Fátima, no Bento Freitas, e subimos a Bento. E eu perguntei: – Pra onde vamos? E ele respondeu: – Pro Nenê. E eu ficava pensando… que Nenê? Dai, dobramos na Andrades e era o Bar do Nenê mesmo, aquele da Andrades quase esquina Argolo, que tem o melhor bolinho de batata do Brasil. Quando entramos me surpreendi. era o Bar do Nenê , com aquelas tradicionais cadeiras e mesas de madeira escura, mas era gigantesco. E estava lotado. Estavam lá diversos Oguns, estava também o Bará e a Oyá, Oxossi, Ogunté e Oxaguiã. OGUNTinha algumas pessoas, mas não conhecia nenhuma. Alguns amigos da antiga foram aparecendo aos poucos, e alguns músicos. Tomamos cerveja, chopp, e comemos diversos picadinhos e bolinhos. Antes dos banheiros, no fundo, tinha um palco, e estavam tocando Jorge Benjor, Seu Jorge, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso e Arlindo Cruz, só músicas em homenagem ao Guerreiro Ogum. Eu ficava num canto, parada, só olhando. Até que eles me convidaram para dançar. Nunca me diverti tanto. Dancei horrores. De longe eu observava tudo. Houveram discussões acaloradas sobre os rumos do mundo. Numa das mesas, na cabeceira, o Oxaguiã levantava e gesticulava muito. Os Oguns, as Oyás e as Oguntés riam, aplaudiam. Brindavam. Enormes canecos de chopp por todos os lados, nas mãos de todos os Orixás e convidados. Me senti muito feliz em ser uma das convidadas de Ogum. eu bebia, bebia e meu caneco não esvaziava. Os Barás estavam espalhados, na frente, na esquina, como se tivessem em todos os lugares. Os Orixás pareciam que se multiplicavam cada vez mais. Eu ficava atônita, meio que incrédula.
A noite estava linda. Quente, a lua nova sorria no céu estrelado. O boteco estava lotado, e fui dançar no lado de fora com a Ogunté e a Oyá. Nesse momento, o Ogum me chama, e me diz: “- Está na hora de irmos embora!” Não relutei. Mesmo querendo ficar, meu coração sabia que não podia. Na volta descemos pela Butuí. Passamos na frente da Igreja do Fátima. Na esquina do antigo Mickey, ali estavam alguns conhecidos, que se perderam pelo caminho, jogavam carta naquela esquina. Estavam à trilhões. E eu o questionava: – Por que temos que dar essas voltas? E ele me dizia: “- Porque mesmo em festa, estou de ronda.” – Beleza! Respondi. De lá, até a minha casa, foi muito rápido, não lembro bem do trajeto, mas paramos na orla da lagoa, para admirar o céu e as estrelas. A brisa era quente, e já estava quase amanhecendo. O Ogum, amarrou o cavalo numa figueira, e caminhamos pela orla, do Valverde ao Barro Duro foram apenas uns três passos. O Cavalo, agora alado, nos encontrava, subimos, Ogum me deixou em casa, e foi voando em direção a lua. Da janela fiquei olhando. Ainda deu tempo d’eu fazer um pedido. E ele sumiu num facho de luz.

Josiane Maciel Carvalho.
Josi Carvalho

GAÚCHO SUBURBANO

RADOX

Eduardo Amaro Radox.

LANCEIRO NEGRO BONIFÁCIO NEGRINHO DO PASTOREIO

UM GAÚCHO SUBURBANO NO RINCÃO BRASILEIRO
DA TERRA DAS CHARQUEADAS NAS BANDAS DO AREAL
DESCENDENTE FARROUPILHA NA BATALHA SOCIAL
VIVENTE REMANESCENTE QUE NÃO FÓJE DA PELEIA
UM GAÚCHO SUBURBANO ENGAJADO NESTA TEIMA
FAÇO PARTE DA HISTÓRIA MAS NÃO DA TRADIÇÃO
MEU POVO FOI ESCUDO NA REVOLUÇÃO
NÃO ME VEJO NO ESPELHO CHAMADO SOCIEDADE
MINHA IMAGEM SE REFLETE NA MARGINALIDADE
VENHO CANTAR MINHA ESSÊNCIA RAIZ NEGRA DE UM EITO
SEMEANDO AMIZADE PRA FINDAR O PRECONCEITO
NA ESTÂNCIA DA DESIGUALDADE E DA DISCRIMINAÇÃO
MEUS SONHOS SE APRISIONAM NO FUNDO DE UM GALPÃO
SOMOS UMA MULTIDÃO MAS AINDA MINORIA
NA ESTRADA DA ESPERANÇA CAVALGAMOS NOITE E DIA

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