É justo “descomemorar” os 50 anos da Rede Globo? (por Clóvis Veronez)

50ANOS

Ao completar 50 anos a rede Globo tem sido alvo de severas críticas pelos que defendem a democratização da mídia brasileira. São justas?

Para compreender o movimento de “descomemoração” que propõe os setores comprometidos com o avanço democrático das comunicações no Brasil é importante revisitar sua história, a evolução das organizações globo e, muito especialmente, seu alinhamento a setores da política brasileira ao longo desse meio século.

Uma “ESTÓRIA” que poucos conhecem.

Em 5 de janeiro de 1951, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, a Rádio Globo requereu sua primeira concessão de televisão  O requerimento foi analisado pela Comissão Técnica de Rádio, que emitiu um parecer favorável à concessão, aprovada pelo governo dois meses depois, no dia 13 de março. A essa altura, porém, o país tinha um novo presidente, Getúlio Vargas. Dois anos depois, em janeiro de 1953, contrariando o parecer da Comissão Técnica, Vargas voltou atrás e revogou a concessão.GETULIO Foi somente em julho de 1957, que o então presidente Juscelino Kubitschek aprovou a concessão de TV para a Rádio Globo e, em 30 de dezembro do mesmo ano, o Conselho Nacional de Telecomunicações publicou um decreto concedendo o canal 4 do Rio de Janeiro àTV Globo Ltda

TIME LIFEEm 1962, um acordo assinado entre a Time-Life e o Grupo Globo proporcionou a Roberto Marinho o acesso a um capital de 300 milhões de cruzeiros (6 milhões de dólares, segundo o documentário Beyond Citizen Kane) , o que lhe garantiu recursos para comprar equipamentos e infraestrutura para a Globo. A TV Tupi, à época a maior emissora do país, havia sido montada com um capital de 300 mil dólares. O acordo foi questionado em 1965 por deputados federais na CPI da TV Globo, pois seria ilegal segundo o artigo 160 da Constituição da época, que proibia a participação de capital estrangeiro na gestão ou propriedade de empresas de comunicação. Segundo Marinho, o acordo previa apenas a assessoria técnica da Time-Life. A CPI terminou com parecer desfavorável à emissora, mas em outubro de 1967 o consultor-geral da República Adroaldo Mesquita da Costa emitiu um “parecer” considerando que não havia uma sociedade entre as duas empresas.globo life Com isso, a situação da TV Globo foi oficialmente legalizada. Mesmo assim, Marinho resolveu anunciar o fim do contrato com a Time-Life.

O acordo parecia ir contra a lei brasileira, na medida em que dava a uma empresa estrangeira interesses em uma empresa nacional de comunicações. Mas o acordo deu vantagens decisivas a Roberto Marinho. Vantagens da ordem de seis milhões de dólares, enquanto que a melhor emissora do grupo Tupi tinha sido montada com trezentos mil dólares.

Quando o segundo presidente militar, marechal Costa e Silva assumiu em 1967, o breve “Milagre Econômico Brasileiro” teve início.

Foi nessa época que o governo federal, liderado pelo marechal Costa e Silva, deu prioridade ao desenvolvimento de um moderno sistema de telecomunicações, criando o Ministério das Comunicações e concedendo à população uma linha de crédito para a compra de televisores. Além disso, com o advento do videoteipe, a produção de programais locais foi logo se tornando escassa, sendo a maior parte da programação produzida no Rio de Janeiro e em São Paulo, o que impulsionou as grandes emissoras dessas cidades a formarem redes nacionais. É nesse cenário que se dá o início da TV Globo como uma rede de emissoras afiliadas em 1° de setembro de 1969, quando entrou no ar o Jornal Nacional, primeiro telejornal em rede nacional, ainda hoje transmitido pela emissora e líder de audiência no horário. O primeiro programa foi apresentado por Hilton Gomes e Cid Moreira. Naquele mesmo ano, a Globo realizou sua primeira transmissão via satélite, ao exibir, de Roma, entrevista de Gomes com o Papa Paulo VI. No ano seguinte, durante a Copa do Mundo FIFA de 1970,COPA no México, a emissora recebeu sinais experimentais em cores da Embratel. Dois anos depois, durante a exibição da Festa da Uva de Caxias do Sul, ocorreu a primeira transmissão oficial em cores da televisão brasileira.

Em 28 de abril de 1974, o Jornal Nacional passou a ser transmitido em cores, três dias após ter iniciado suas coberturas internacionais pela Revolução dos Cravos. No mesmo ano, é transmitido o primeiro especial de fim de ano do cantor Roberto Carlos, ainda hoje uma tradição na emissora. Em 1975, a TV Globo passa a exibir boa parte de sua programação simultaneamente para todo o país, consolidando-se como rede de televisão. A partir desse momento, a Globo começa a construir o que seria chamado de Padrão Globo de Qualidade, onde o horário nobre é preenchido com duas telenovelas de temática leve entre dois telejornais curtos e sintéticos (o atual Praça TV e o Jornal Nacional), uma telenovela de produção nobre e com enredo mais forte, que seria chamada a partir de então de “novela das oito” e a partir das 22h uma linha de séries, minisséries, filmes ou o “Globo Repórter” (antes a linha de shows começava às 21h15, posteriormente às 21h30), sempre com bastante regularidade de horário e programação. A grade fixa é utilizada pela Globo fielmente nos dias de hoje e foi um fator decisivo para a conquista da liderança de audiência, pois, no final da década de 1970, as duas grandes redes, a Rede de Emissoras Independentes (liderada pela TV Record) e aTupi, estavam se deteriorando por falta de recursos e estratégia, e a Band ainda não havia crescido o suficiente nessa época, sobrando apenas a Globo como alternativa.

Na iminência da volta de um presidente civil ao comando do país, Roberto Marinho apoiou o candidato Tancredo Neves, um velho e respeitado estadista, membro da oposição à ditadura militar.

Quando Tancredo derrotou o candidato dos militares, por esmagadora maioria no Colégio Eleitoral o Brasil exultou de alegria. Os generais haviam desaparecido, es expectativas eram muito grandes.

Horas depois da sua eleição, Tancredo almoçava com Roberto Marinho. Uma conversa particular apenas noticiada pelo O Globo, jornal do anfitrião.

Antônio Carlos Magalhães também participou do almoço. Ex-Governador da Bahia e aliado importantíssimo da vitória de Tancredo, ACM é um velho amigo de Roberto Marinho. Logo depois Tancredo anunciou que ACM seria seu ministro das Comunicações.

Tancredo morreu antes de assumir a Presidência da República e as imagens da Globo expressaram toda a angústia da nação. Ele foi substituído por José Sarney, um membro fundador do partido pró-governista militar. Um político com pouco carisma.

Sarney confirmou ACM como Ministro das Comunicações.NEC

Um dos principais fornecedores de equipamentos de Telecomunicações para o governo era a NEC Brasil, de propriedade do empresário Mário Garnero, e sua financiadora Brasilinvest, juntamente com a matriz japonesa.

A Globo se prevaleceu das dificuldades da NEC do Brasil, que foram dificuldades criadas pelo ministro das Comunicações, ACM. Ele suspendeu os pagamentos e as encomendas à NEC e ela praticamente vivia do que fazia para o governo. Sem essas encomendas, sem esses pagamentos, a NEC valia muito pouco, e a Globo por isso mesmo pagou menos de um milhão de dólares pela NEC. Mas logo em seguida, ACM restabeleceu os pagamentos e as encomendas – que eram a razão de ser da NEC – ela já passou a valer, segundo uma avaliação dos próprios japoneses, 350 milhões de dólares.

ARATUA TV Aratu, em Salvador, Bahia, era afiliada à TV Globo há 18 anos.Roberto Marinho, em uma atitude unilateral inédita, encerrou o contrato da TV Aratu com a Rede Globo, em 1987, o que ocasionou uma queda de 80% na arrecadação daquela repetidora.

A nova emissora escolhida para repetir os sinais da Globo foi a TV Bahia, controlada por associados e parentes de ACM, àquela época Ministro das Comunicações, e com intenções a voltar a governar a Bahia

Durante o governo Sarney ficou difícil para a Globo mostrar sua independência. A ditadura militar havia acabado e a emissora custava a recuperar uma imagem de jornalismo independente.

A Globo optou por recuperar alguns dos artistas que baniu durante anos.CHICO

Chico Buarque comenta: “Hoje em dia existe um tipo de censura econômica mito importante. Por exemplo: um artista que queira cantar num dos vários programas de variedades – pois não há programas musicais – ele ou a sua gravadora tem que pagar à TV Globo para poder aparecer. Ou seja, os profissionais de música pagam a TV Globo para trabalhar para ela.”

Os telejornais da Globo não podiam mais ignorar os protestos sociais. Algumas manifestações contra o governo foram apresentadas. Mas os jornais da Globo tinham uma maneira toda especial de apresentar os fatos. A Globo sempre abria o jornal com o locutor dizendo assim: “Índice mensal da inflação foi de 40%. Caderneta de Poupança vai render 40%”. Quer dizer, ela tirava o peso negativo do índice da inflação, e transformava em uma coisa positiva.CONSEÇÔES

A nova Constituição Brasileira tirava do presidente o poder de dar novas concessões de rádio e TV. Então, antes que ela entrasse em vigor, Sarney deu noventa concessões. Desde então nenhuma outra concessão foi dada.

Essas concessões foram dadas principalmente para grupos políticos, sem contar com as duas que o próprio Sarney ficou e que acabaram virando afiliadas da Globo.

A vocação golpista das Organizações Globo

O início da história golpista da Globo, ainda com a rádio e o jornal, pode ser localizada na tentativa de golpe contra o governo Vargas. Ali se tentou um golpe que foi adiado por dez anos: de 1954, com a morte de Vargas, para 1964, com a deposição do Jango [como era conhecido o ex-presidente João Goulart]. Houve uma campanha sistemática contra ele – como a que fazem hoje contra a presidente Dilma –, dando todo o apoio ao golpe militar e, depois, fazendo a sustentação política da ditadura, em troca de favores e vantagens.

MANIPULAÇÂOEm 1989 a Globo manipula o debate entre Lula e Collor.

Trecho da entrevista de Laurindo Lalo Leal Filho que é professor aposentado da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Seu principal objeto de estudo tem sido a análise de políticas públicas de comunicação, em especial para a televisão. Publicou, entre outros, os livros “Atrás das Câmeras: relações entre Estado, Cultura e Televisão” e “A melhor TV do mundo: o modelo britânico de televisão”. Hoje, apresenta o programa VerTv, exibido pela TV Brasil e é colunista do site Carta Maior.

A Globo é a responsável pelo não aprofundamento da democracia no Brasil. Ela faz isso através de dois mecanismos. O primeiro é a questão cultural, mantendo a população alienada, afastada do processo político através de uma programação que faz com que as pessoas deixem de prestar atenção a aquilo que é essencial à vida delas enquanto cidadãs, distraindo com a superficialidade da programação. A Globo é responsável pela despolitização do brasileiro.

De outro lado, está a defesa de interesses antipopulares. Nesses 50 anos, do governo Vargas até hoje, [a Globo] esteve comprometida com as classes dominantes do Brasil, todas as bandeiras populares que aprofundariam a democratização do país são demonizadas.

Podemos citar o caso das eleições diretas [processo de mobilização da sociedade civil conhecido como “Diretas Já”, ocorrido entre os anos de 1983 e 1984]. Naquele momento, por exemplo, era muito interessante manter as eleições indiretas, sobre as quais ela mantinha um controle muito maior. As diretas poderiam levar à eleição de um líder popular que não atenderia aos interesses da Globo.

A rede Globo usou todos os recursos para impedir a eleição do Leonel Brizola para o governo do Rio de Janeiro em 1982. Ela se colocou ao lado daqueles que queriam fraudar o pleito. Depois, quando ele ganhou, se tornou persona non grata na emissora.

Outra ação nefasta da Globo é perseguir políticos com posições não conservadoras, com posições mais voltadas para os interesses populares, tratando de maneira negativa. Excluiu Saturnino Braga, ex-prefeito do Rio de Janeiro. Trata de forma pejorativa líderes populares, como o [dirigente do MST, João Pedro] Stedile. Ou nem abre espaço para essas figuras. O próprio [ex-presidente] Lula sempre foi tratado de uma forma menor, subalterna. Há uma política editorial antipopular que é a marca dos 50 anos da rede Globo.

Uma política editorial de manipulação contra os interesses populares, sempre a favor das elites.

AlternativasJUNHO 

trecho do artigo de ( Maria Rita Kehl.)

Ao que tudo indica, uma maior parcela da sociedade parece ter se atentado ao estilo midiático da Globo. Em 2013, durante as Jornadas de Junho, era possível ouvir o povo bradando “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, uma crítica mais acirrada frente à postura da emissora nas coberturas, inicialmente  contra os protestos. A forma de cobrir manifestações também mudou após esses episódios.

Segundo Rafael Villas Bôas, a emissora, que antes cobria nas ruas os protestos, “passou a usar quase que exclusivamente câmeras aéreas, suspendeu as entrevistas ao vivo, concentrou o poder de interpretação e edição nos âncoras. Esse padrão de cobertura foi adotado até nos atos organizados pela direita, porque não dá para saber a reação das pessoas lá embaixo se a Globo estivesse ao vivo, pois muitas pessoas que não são de esquerda consideram que a emissora é manipuladora. Para a Globo, povo na rua organizado é perigo”.

Além da esfera crítica, os movimentos observam que existem medidas a serem tomadas para furar o bloqueio midiático e fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Segundo Kelli, do MST, “os movimentos devem ter suas mídias próprias, para fazer o contraponto ao que sai na imprensa burguesa e lutar pela democratização da comunicação”.

Uma forma de comunicação mais democrática é essencial para se quebrar o poder, tanto da Rede Globo quanto de outras grandes corporações midíaticas, mas ainda uma tarefa extremamente difícil.

“As emissoras agem como se a faixa de transmissão, que é uma concessão pública, fossem propriedades privadas. A TV no Brasil adquiriu tal poder político que se parlamentares tentarem debater a democratização da mídia ou a renovação automática de concessões, caem no ostracismo e não conseguem se reeleger” .

ALÈM

Além do Cidadao Kane (completo) – YouTube

Além do Cidadão Kane é um documentário produzido pela BBC de Londres – proibido no Brasil desde a estréia, em 1993, por decisão judicial – que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro.

Com este texto que é uma colagem de pesquisa histórica, fatos e opiniões o Observatório Pelotas quer contribuir para uma reflexão sobre a necessidade de democratizar-se a mídia brasileira, como condição fundamental ao aperfeiçoamento da democracia. E, somando-se ao amplo movimento social que neste 26 de abril invade as ruas e a rede social, “descomemorar “o cinquentenário da Rede Globo de televisão.

Clóvis Veronez- 26 de abril de 2015.

 

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