A NECESSIDADE DA ARTE (por Clóvis Veronez)

ARTE

A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. (Ernst Fisher, 1973)

 

Antonio Callado diz que de dia para dia a vida humana torna-se cada vez mais complexa e mecanizada, dividida e subdividida em classes e interesses. Tornando-se independente da vida dos outros homens, esquece-se daquilo que completa e une os seres humanos: o espírito coletivo.  A fé, o amor e a paz são os anseios vitais do homem. Mas enquanto se vê capaz de dominar a ciência e a tecnologia, afasta-se sempre mais do seu semelhante.

Sentindo escassearem as mais simples condições de vida. Desde o início dos tempos, lutando contra a complexidade e a mecanização humanas está a Arte, elemento da vida espiritual de todos os povos, em todas as épocas. Configurando-se como a atividade que exprime cultura, sensibilidade tradição, condicionada pelo seu tempo e representando a humanidade segundo idéias e aspirações, necessidades e esperanças, a Arte permite às comunidades explodirem seu poder criativo em várias manifestações.

Considere-se a arte como uma das formas de consciência social. Segundo Ernst Fischer (” A Necessidade da Arte“)… “a função essencial da arte para uma classe destinada a transformar o mundo  não é a de fazer mágica e sim a de esclarecer e incitar à ação; mas é igualmente verdade que um resíduo mágico na arte não pode ser inteiramente eliminado, de vez que sem este resíduo provindo de sua natureza original a arte deixa de ser arte”. A mesma dualidade (de um lado, a absorção na realidade e, de outro, a excitação de controlá-la)  não se evidencia no próprio modo de trabalhar do artista? Não nos devemos enganar quanto a isso: o trabalho para um artista é um processo altamente consciente e racional, um processo ao fim do qual resulta a obra de arte como realidade dominada, e não – de modo algum – um estado de inspiração embriagante.

A função da arte em Fischer não está apenas no fato de levar o homem a conhecer e mudar o mundo, mas também por seu caráter mágico, pela magia que lhe é inerente. Desprovida desse resíduo de magia provindo de sua natureza original, a arte deixa de ser arte. Infere-se que a arte é tão antiga quanto o homem, e este, por princípio, um mago. Foi utilizando ferramentas que o homem se fez homem, produziu-se a si mesmo. Simultaneamente, o homem e a ferramenta passaram a existir, indissoluvelmente ligados um ao outro. O homem possui razão e mão, e foi a mão que libertou a razão humana e produziu consciência própria do homem. A eficiência é muito mais antiga do que o propósito; a mão é uma descobridora há mais tempo do que o cérebro. (Basta observar uma criança desfazendo um nó: ela não pensa, limita-se a experimentar. Só paulatinamente, a partir da experiência das mãos, é que vem a compreensão de como se fez o nó e do melhor modo de desfazê-lo). O homem primitivo ainda não distinguia claramente entre a sua atividade e o objeto ao qual ela se relacionava; as duas coisas formavam uma unidade indeterminada. Embora a palavra se tivesse tornado signo (não mais uma simples imitação ou expressão), uma pluralidade de conceitos cabia dentro desse signo. Só gradualmente veio a ser atingida a pura abstração. Em todo poeta existe certa nostalgia de uma linguagem mágica, original. A arte, em todas as suas formas, era uma atividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu caráter coletivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegro, total. A arte é uma realidade social. A sociedade precisa do artista, uma vez que ela capacita o homem a compreender a realidade, e mais ainda, a suportá-la e, ainda melhor, a transformá-la, tornando-a mais humana e hospitaleira para a humanidade. É preciso que os homens não falem no vazio, que cada um entenda os problemas do outro, seus ideais, seus anseios. Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo, Prometeu trazendo o fogo do céu para a terra, Orfeu enfeitiçando a natureza com sua música. Enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá.

Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, forma e convenções com que a natureza pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão  que consome o diletante, serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta fera, mas doma-a; (Ernest Fischer)”

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