Grandes temas das ciências sociais: o “campo do poder” em Pierre Bourdieu.

BORDIEU

 

 

Denise Maria de Oliveira Lima*

 

Bourdieu inicia seu trabalho intitulado Campo de poder, campo intelectual com uma epígrafe em que cita Proust (Sodoma e Gomorra): “As teorias e as escolas, como os micróbios e os glóbulos, se devoram entre si e com sua luta asseguram a continuidade da vida” (BOURDIEU, 1983, p. 8).

O conceito de campo intelectual marca uma ruptura na sociologia da cultura: foi construído por Pierre Bourdieu (1930–2002) a partir de suas investigações sobre o sistema escolar francês, a formação das elites intelectuais, a percepção artística e as formas de consumo estético e, principalmente, sobre o processo de autonomização do campo literário, modelo inicial de seu pensamento sobre a autonomia relativa dos campos.

O campo intelectual, campo de produção de bens simbólicos, dentre outros campos do espaço social, permite compreender um autor ou uma obra, ou ainda, uma formação cultural, em termos que transcendem a visão substancialista, não relacional (a que considera o autor ou a obra em si mesma) bem como a visão estruturalista (a que considera apenas os determinantes sociais da produção).

Bourdieu sustenta que um criador e sua obra são determinados pelo sistema das relações sociais, nas quais a criação se realiza, como um ato de comunicação e pela posição que o criador ocupa na estrutura do campo intelectual – este irredutível a um simples agregado de agentes ou instituições isoladas. O campo intelectual, ao modo do campo magnético, constitui um sistema de linhas de força: os agentes e instituições estão em uma relação de forças que se opõem e se agregam, em sua estrutura específica, em um lugar e momento dados no tempo.

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Cada um deles (agentes e instituições) está determinado por sua pertença a este campo, ou seja, à posição particular que ocupa, em especial a um tipo determinado de participação no campo cultural como sistema de relações entre os temas e os problemas e, por isso, a um tipo determinado de inconsciente cultural. O seu poder no campo não pode definir–se independentemente de sua posição no campo.

Tal enfoque só tem fundamento na medida em que o campo intelectual (:e por isso, o campo cultural): esteja dotado de uma autonomia relativa, ou seja, que tenha se constituído, por um processo de autonomização, em um sistema regido por leis próprias.

A história da vida intelectual se definiu por oposição ao poder econômico, ao poder político e ao poder religioso, ou seja, a todas as instâncias que podiam pretender legislar, em matéria de cultura, em nome do poder de uma autoridade que não fosse intelectual. Dominada durante toda a idade clássica, por uma instância de legitimidade exterior, a vida intelectual se organizou progressivamente em um campo intelectual, à medida que os criadores se libertaram, econômica e socialmente, da tutela da aristocracia e da igreja e de seus valores éticos e estéticos. E também à medida que foram aparecendo instâncias de consagração e reconhecimento propriamente intelectuais, as quais cumprem a função de legitimidade cultural (:mesmo quando os produtores ficam subordinados às restrições econômicas e sociais que pesam sobre a vida intelectual):.

Assim, à medida que se multiplicam e se diferenciam as instâncias de consagração intelectual e artística, tais como as escolas, as academias, os salões, as associações científicas e culturais, e, também, as instâncias de difusão cultural, tais como as editoras, a imprensa, os museus etc., e também à medida que o público se estende e se diversifica, o campo intelectual torna-se um sistema cada vez mais complexo e mais independente das influências externas.

Weber (2004), de cuja obra Bourdieu se apropriou, entre outros tantos pensadores, para formular os seus conceitos, trata desse assunto: seu conceito de secularização diz respeito aos processos de autonomia progressiva do campo da ciência e da arte em relação aos cânones religiosos, dominantes por séculos.

Mas o que vem a ser esse campo do poder que permeia todos os outros campos? Não é o poder político!

Temos que nos remeter ao conceito de “campo” para depois compreender o que é esse poder do qual não há possibilidade de escapar.

Já apresentei um trabalho sobre a teoria dos campos, em Bourdieu, e a psicanálise, intitulado “Uma abordagem sociológica para a constituição, legitimação e autonomização da psicanálise como um campo”, que foi publicado num livro organizado por Angélia Teixeira, Especificidades da ética da psicanálise, em 2005.

É um trabalho tão maçante quanto interessante, fundamentado, entre outros textos de Bourdieu, por sua Regras da arte – Gênese e estrutura do campo literário (1992), em que ele analisa um romance de Flaubert, Educação sentimental, para mostrar como o campo da literatura foi ganhando sua autonomia relativa. Autonomia em relação aos cânones da aristocracia e da igreja. Relativa porque ainda depende do campo do poder.

A teoria dos campos diz respeito à pluralidade dos aspectos que constitui a realidade do mundo social, a pluralidade dos mundos, pluralidade das lógicas que correspondem aos diferentes mundos, aos diferentes campos como lugares onde se constroem sentidos comuns. Diz Bourdieu:

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Compreender a gênese social de um campo e apreender aquilo que faz a necessidade específica dacrença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não motivado os atos dos produtores e as obras por eles produzidas (BOURDIEU, 1998, p. 69. Grifo da autora).

Conceito básico na obra de Bourdieu, o campo é o espaço de práticas* específicas, relativamente autônomo, dotado de uma história própria; caracterizado por um espaço de possíveis, que tende a orientar a busca dos agentes, definindo um universo de problemas, de referências, de marcas intelectuais — todo um sistema de coordenadas, relacionadas umas com as outras, que é preciso ter em mente ( não quer dizer na consciência) para se entrar no jogo. Entrar no jogo é manejar esse sistema de coordenadas.

O campo é estruturado pelas relações objetivas entre as posições ocupadas pelos agentes e instituições, que determinam a forma de suas interações; o que configura um campo são as posições, as lutas concorrenciais e os interesses.

É no horizonte particular dessas relações de força específicas, e de lutas que tem por objetivo conservá–las ou transformá–las, que se engendram as estratégias dos produtores, a forma de arte que defendem, as alianças que estabelecem, as escolas que fundam e isso por meio dos interesses específicos que aí são determinados (BOURDIEU, 1996, p. 61).

Um campo faz parte do espaço social — e, portanto, toma dele as suas características — conceito que Bourdieu descreve como espaço de posições dos agentes e das instituições que nele estão situados, que, a depender do peso e do volume global dos capitais que possuem, são distribuídas em posições dominadas e dominantes. Os mais importantes em nossa cultura: o capital econômico, o capital simbólico e o capital cultural.

A par das propriedades específicas de cada campo — da literatura, da filosofia, da ciência e da psicanálise — existe também uma homologia, tanto estrutural quanto de funcionamento, no sentido de invariantes, de lógicas de constituição e de transformação comuns a todos os campos.

O campo é sempre caracterizado pelas lutas concorrenciais entre os agentes, em torno de interesses específicos. Por exemplo, no campo da ciência as lutas concorrenciais acontecem em torno da autoridade científica; no campo da arte, em torno da legitimidade (ou autenticidade) dos produtos artísticos; no campo da psicanálise, em torno da autoridade psicanalítica (ou seja, quem tem autoridade para falar da psicanálise, para ser psicanalista) — que foi delegada, inicialmente pela autoridade maior, Freud, e, depois, por seus discípulos e as instituições que criaram, os quais fizeram parte da história da constituição desse campo.

O caso da psicanálise pode ser considerado sui generis, porque foi uma invenção sem precedentes, e, portanto, fundada inicialmente sobre uma única autoridade, a de Freud. Poder–se–ia dizer que a psicanálise já nasceu com relativa autonomia, pois, desde seu início, encontrava–se independente com relação à medicina, ao estado, às universidades e… por completo do mercado e da moral vigente da época.

Essas lutas concorrenciais ocorrem tanto no interior de cada campo como externamente, em relação a outros campos. Quando se fala de luta, de divisão em campos antagônicos, de jogo, quer–se dizer a relação a um poder. O campo é estruturado a partir das relações de poder, que se traduz em uma oposição de forças, distribuídas entre posições dominantes e posições dominadas, segundo o capital simbólico, econômico e cultural dos agentes e instituições.

O campo de poder, que não se confunde com o campo político, é o espaço de relações de força entre os diferentes tipos de capital ou entre os agentes providos de um dos diferentes tipos de capital para poderem dominar o campo. No caso da psicanálise, dois tipos de capital se têm em conta, principalmente: o cultural e o simbólico. O capital econômico dos agentes e instituições, embora possa ter algum peso, não tem nenhuma relevância no campo da psicanálise.

A depender da posição que ocupam na estrutura do campo, ou seja, na distribuição do capital simbólico específico, os agentes usam de estratégias, que são tomadas de posição, que podem ser de legitimação (conservação) ou de subversão, estas em confronto permanente com as forças de conservação – o que não implica em mudanças dos princípios de poder que estruturam um campo. Poderíamos dizer que Lacan, dotado de capital simbólico e cultural significativo, subverteu as regras do jogo, até então dominadas pela IPA, e foi seguido por seus discípulos, em permanentes lutas concorrenciais pela legitimidade de seu legado.

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Perpetuar ou subverter as regras do jogo, através das estratégias dos agentes, é uma tendência que passa pela mediação de seus habitus. Habitus é uma noção primordial na sociologia de Bourdieu, que diz respeito aos sistemas de percepção, de apreciação, de gosto, ou como princípios de classificação incorporados pelos agentes a partir das estruturas sociais presentes em um momento dado, em um lugar dado, que vão orientá–los em suas ações.

Essas estratégias também dependem do espaço de possibilidades herdado de lutas anteriores (história do campo) que tende a definir os espaços de tomadas de posição possíveis e orientar assim a busca de soluções e, consequentemente, a evolução da produção do campo.

Vemos que a relação entre as posições e as tomadas de posição nada tem de uma determinação mecânica: cada produtor, artista, psicanalista, cientista, constrói seu próprio projeto criador em função da sua percepção das possibilidades disponíveis, oferecidas pelas categorias de percepção e apreciação inscritas em seu habitus. Segundo Bourdieu,

[…] para resumir em poucas frases uma teoria complexa, eu diria que cada autor, enquanto ocupa uma posição no espaço, isto é, em um campo de forças […] só existe e subsiste sob as limitações estruturadas do campo; mas ele também afirma a distância diferencial constitutiva de sua posição, seu ponto de vista, entendido como vista a partir de um ponto (BOURDIEU, 1996, p. 64).

O campo estabelece as modalidades de consagração e reconhecimento, o que confere sua relativa autonomia — os critérios não são impostos de fora, pelo estado ou pelo mercado, por exemplo, mas são constituídos a partir de dentro, o que permite que se regule a si mesmo1.

O processo de autonomização do campo é resultado de um lento trabalho de “alquimia” histórica; através da análise da história do campo é que se obtém a análise de sua legítima existência. No caso da psicanálise, pode-se analisar o que é teoria psicanalítica e o que não é teoria psicanalítica somente a partir do processo de autonomização do campo de produção da psicanálise que, como vemos, se refere ao seu desenvolvimento histórico, com suas dissidências, rupturas, enfim, lutas concorrenciais, oposição de forças, jogos de poder.

A análise das relações entre o campo literário (etc.)2 e o campo do poder, que acentua as formas, abertas ou ocultas, e os efeitos, diretos ou indiretos, da dependência, constitui um dos efeitos maiores do funcionamento do campo literário (etc.) como campo:

Não há dúvida que a indignação moral contra todas as formas de submissão aos poderes ou ao mercado […] desempenhou um papel determinante […] na resistência cotidiana que conduziu à afirmação progressiva da autonomia dos escritores; é certo que, na fase heróica da conquista da autonomia, a ruptura ética é sempre, como bem se vê em Baudelaire, uma dimensão fundamental de todas as rupturas estéticas (BOURDIEU, 1992, p. 106. Tradução da autora).

Os critérios de autenticidade do produto cultural são baseados no desinteresse econômico: ato puro de qualquer determinação que não seja a intenção estética (etc.). O que não significa que aí não exista uma lógica econômica, uma ausência total de contrapartida financeira, mesmo porque os lucros simbólicos (prestígio, por exemplo) são suscetíveis de serem convertidos em lucros econômicos.

Segundo o princípio de hierarquização externa, o critério de êxito é medido pelos índices de sucesso comercial e de notoriedade social — aí incluídas as regras do mercado. Tal princípio rege a produção da indústria cultural.

Segundo o princípio de hierarquização interna, o grau de consagração é medido pela não concessão à demanda do grande público, o desprezo pelas sanções do mercado: os artistas, bem como os psicanalistas, são reconhecidos pelos seus pares.

O grau de independência ou de subordinação constitui o indicador mais claro da posição ocupada no campo: aqueles que pretendem independência só podem consegui–la construindo o campo, revolucionando o mundo da arte (etc.) indiferente às demandas da política, da economia e da moral vigente, ou seja, reconhecendo apenas as normas específicas da arte etc.

Bourdieu faz uma interessantíssima análise de Flaubert e sua Educação sentimental, no livro que citei antes, para mostrar como a literatura foi se constituindo como um campo independente e relativamente autônomo.

Ele traz, em seu texto Campo de poder, campo intelectual, a título de ilustração da posição do criador no espaço social, Alain Robbe–Grillet, escritor e cineasta francês (O ano passado em Marienbad) associado ao movimento donouveau Roman; Alexander Pope, Chaucer, Shakespeare, Byron, Shelley, Keats, Valery e, no campo da música, Debussy, Wagner e o jazz, para analisar os diferentes subcampos da arte e sua relação com o campo de poder.

Menciono rapidamente tudo isso para instigar aqueles que têm interesse em se aprofundar na rede teórica de Bourdieu e em seu conceito de campo do poder, com profundas, complexas e diversíssimas implicações no campo intelectual.

Fiquei intrigada com o termo “inconsciente cultural”, que faz parte da rede sobredeterminada de conceitos de Bourdieu para tratar das determinações do campo intelectual, ou seja, por que uma obra aparece e outra não, por que uma obra que aparece sobrevive e outra não, no intrincado mundo social — espaço social — composto por vários tipos de público, de difusão para cada público etc.

Diz Bourdieu que o intelectual está situado histórica e socialmente — já que faz parte de um campo intelectual, por referência ao qual seu projeto criador se define e se integra, — na medida em que é contemporâneo daqueles com quem se comunica e a quem dirige a sua obra, recorrendo a todo um código que tem em comum com eles: temas, problemas, formas de raciocinar, formas de percepção etc. Suas eleições intelectuais ou artísticas, conscientes e inconscientes, estão sempre orientadas por sua cultura e seu gosto, ou seja, interiorizações dos valores de uma sociedade, de uma época e de uma classe.

Diz ele, a respeito do criador, em síntese: a cultura que incorpora — sem sabê–lo — em suas criações, constitui a condição de possibilidade da concretização de uma intenção artística (ou científica) em uma obra, pela mesma razão que a língua como “tesouro comum” é a condição da formulação da palavra. São os gostos, as formas de pensar, as formas de lógica, os traços estilísticos, a tonalidade de humor que colore as expressões de uma época, que contém as marcas do campo cultural.

Em outras palavras, os que se apropriam de um pensamento, pensando que é o seu próprio, estão, na verdade,imersos em um inconsciente cultural de uma época, de um sentido comum que faz possíveis os sentidos específicos nos quais se expressa. A relação que o intelectual sustenta com a escola e com seu passado escolar tem um peso determinante no sistema de suas eleições intelectuais inconscientes. E ficam predispostos a manter com seus iguais uma cumplicidade, com os quais compartilham lugares comuns, não somente um discurso e linguagem comuns, mas também campos de encontro e de entendimento, problemas comuns e formas comuns de abordar esses problemas comuns.

Se podem ou não estar em desacordo sobre os objetos em torno dos quais disputam, ao menos estão de acordo em disputar em torno dos mesmos objetos.

As operações intelectuais — que não são conscientemente apreendidas e controladas — são advindas de sua sociedade e de sua época, ou seja, do inconsciente cultural historicamente datado e situado.

O que falei hoje para vocês é resultado de uma síntese do pensamento (e do estilo) de Bourdieu ou convite… melhor convite, para apresentar — e instigar para — a sua complexa rede teórica sobre o espaço social em que vivemos, os campos que dele fazem parte, e seu conceito de poder, que tudo permeia!

Na verdade, a dimensão social do indivíduo que produz suas obras deve ser articulada com a dimensão psíquica, singular, estudada pela psicanálise. Diálogo necessário entre a psicanálise e a sociologia!

Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

_____. Les règles de l’art: genèse et structure du champ littéraire. Paris: Éditions du Seuil, 1992.

_____. Cosas dichas. Buenos Aires: Gedisa, 1988.

_____. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Tradução de Mariza Corrêa. Campinas: Papirus, 1996.

_____. A Economia das Trocas Simbólicas. Pref. Sérgio Miceli. São Paulo: Perspectiva, 1987.

_____. Campo de poder, campo intelectual. Buenos Aires: Folios, 1983.

______ O campo científico. In: ORTIZ, Renato (Org.); FERNANDES, Florestan (Coord.). Pierre Bourdieu. Tradução de Paula Montero e Alícia Auzmendi. São Paulo: Ática, 1983.

LIMA, Denise M. de Oliveira. Uma abordagem sociológica para a constituição, legitimação e autonomização da psicanálise como um campo. In: TEIXEIRA, A. (org). Especificidades da ética da psicanálise. Salvador: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2005.

WEBER, M. Economia e sociedade. Vol. I. São Paulo: UnB, 2004.

* Psicanalista, membro do Círculo Psicanalítico da Bahia, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA) e Doutora em Ciências Sociais (UFBA)
1 O recurso à teoria da autonomização dos campos é muito útil para se pensar a questão da regulamentação da Psicanálise no Brasil, no sentido de que as instituições psicanalíticas têm suas próprias regras (de ingresso, formação etc.) as quais teriam apenas que ser transformadas em leis.
2Os “etcs.” que aparecem, algumas vezes, depois do “campo literário” diz respeito a todos os outros campos, inclusive o campo da psicanálise.

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