Para muito além do “shortinho” (Marcelli Cipriane*)

ELAS

Há três dias, alunas do colégio Anchieta (tradicional instituição de ensino porto-alegrense), lançaram o abaixo-assinado “VAI TER SHORTINHO SIM” — que, até então, já soma mais de 20.000 apoiadores. O manifesto, escrito por estudantes dos níveis fundamental e médio, é acompanhado de uma carta, na qual as participantes expõem os motivos que as levaram a organizar a ação. Dentre eles, lê-se uma crítica a violências como “a objetificação e sexualização dos corpos das alunas”, a “cultura do estupro e [o] slut shaming”, assim como a imbricação de aspectos de gênero com outros marcadores sociais (mediante a lembrança do sofrimento de mães pelo genocídio negro decorrente da guerra às drogas, do preconceito de classe e de raça que sustenta a intolerância à política de cotas, da vitimização de mulheres em clínicas clandestinas de aborto e da prevalência do capital econômico sobre a vida).

Entretanto, após sua pluralização em páginas, grupos e veículos de comunicação, acompanhada de inúmeras manifestações de apoio, a mobilização das “anchietanas” — que já repercutiu no Americano, outro colégio da capital gaúcha — também têm gerado críticas das mais variadas. Para além das esperadas alusões ao respeito pela “moral e pelos bons costumes”, a maior insatisfação relatada parece ter decorrido da suposta banalidade da reivindicação. Em um cenário de caos na segurança pública do estado e de instabilidade política nacional, as envolvidas deveriam se preocupar com questões mais importantes do que o veto às suas vestimentas.

Esse argumento, já comum a qualquer iniciativa que envolva a percepção em face de violências antes ignoradas (ou percebidas, mas não combatidas — seja por condições estruturais de limitação, seja por quaisquer outros motivos) é também o que ignora, intencionalmente ou não, que a mobilização das alunas perpassa por sua importante constituição como sujeitos políticos. Talvez, se estes que o elucidam tivessem ousado ultrapassar a mera “chamada” da campanha, e tivessem lido os escritos que a acompanham, teriam percebido que aquelas meninas estão falando, em vários sentidos, sobre cidadania. Sobre, por exemplo, o direito de mulheres exercerem liberdades civis — como não tendo sua mera existência sujeita à permanente desumanização, objetificação e assédio. Estão falando, também, sobre poderem ir e vir sem temerem sofrer 1 estupro a cada 11 minutos, ou sobre não estarem expostas a 1 espancamento a cada 24 segundos.

De acordo com o mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado no ano passado, em 2014 67,1% da população brasileira residente nas grandes cidades brasileiras afirmou ter medo de ser agredida sexualmente, e 90,2% das mulheres entre 16 e 24 anos afirmaram ter medo de sofrer violência sexual. Essa sensação de temor generalizado — que determina cada vez mais os cotidianos femininos — é alimentada por uma noção coletiva que, há tempos, sexualiza corpos de mulheres. Ditando quais deles podem ser mostrados, e definindo as situações nas quais a exposição corporal feminina é tolerada, essas normas sociais — construídas culturalmente ao longo do tempo — chegam ao absurdo de gerar choque com a amamentação em espaços públicos e com meninas de 13 a 17 que mantêm as pernas expostas, mas não se impressionam com a reiterada, diária e incansável exploração do corpo feminino e de sua transformação em produto: no comercial de cerveja que passa na televisão não há maiores problemas, mas no colégio é inapropriado.

Essa noção, evidentemente, se calca na ideia de que o corpo da mulher é, por essência, objeto sexual: não há como perdoar a amamentação pública, porque o seio não é feito para amamentar, mas para dar prazer; não há como tolerar as estudantes de shorts, porque as pernas de fora não podem ser reflexo do calor, estando à serviço dos hormônios alegadamente incontroláveis dos meninos mais novos e mesmo dos professores. Nesse ponto, as alunas acertam novamente: “ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino” e “se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema”.

Com tal teor, as manifestantes também deixam claro que não são as culpadas pela maneira como seus corpos são encarados, indo de encontro àquilo que se convencionou chamar de “cultura do estupro” — um conjunto de mecanismos, discursos e disciplinas que minimiza o sofrimento das vítimas, por considerar que elas são as culpadas pelas violências que lhes acometem. Percebemos a expressão desse fenômeno, no país, quando entramos em contato com pesquisas como a publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), segundo a qual 58,5% dos entrevistados afirmou não discordar da assertiva de que o número de estupros seria menor, caso as mulheres soubessem se comportar, assim como trouxe que 29,4% de seus interlocutores da população não divergiam da noção de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. O atestamos, igualmente, quando temos conhecimento de que apenas 35% dos crimes sexuais são notificados, e que essa cifra também é consequência do atendimento culpabilizador de agentes da segurança pública e da saúde, que não raro desqualificam denúncias ou transformam seu tratamento às vítimas a partir de fatores como a roupa que estavam usando, a ingestão anterior de álcool, o local onde se deu a violação sofrida e mesmo a classe social que pertencem.

Ao dizer que devem poder usar shortinhos, as meninas estão afirmando várias coisas ao mesmo tempo: que nem tudo que fazem e nem tudo que vestem é pautado pela opinião de homens; que não são apenas os homens os afetados por desejos sexuais; que não devem sofrer represálias por serem assediadas; que não há nada de impuro, inapropriado ou incoerente entre estudar e usar shorts; que o controle e a domesticação de seus corpos está inscrita em algo muito mais amplo — em algo que, em seu conjunto de pequenas restrições, supressões ou julgamentos legitima e reproduz violências múltiplas (inclusive muito mais sérias) todos os dias.

No meio do furacão institucional, que não teme em proceder com retrocessos a direitos femininos já assegurados, ignorar a reivindicação colocada é afastar a importância de se trazer o gênero ao debate público. A demanda pelo shortinho vai muito além de uma reflexão sobre normas de vestimenta — estabelecidas, a seu turno, de forma não neutra, e por uma sociedade constituída sob o machismo — abarcando o direito à mulher não só de ser sujeito, mas de ser sujeito ativo dos próprios processos que lhe dizem respeito, e das próprias regras morais que lhes atingem. Enquanto iniciativas como o PL5069/2013 (que visa a dificultar o acesso ao aborto em caso de estupro) são propostas no legislativo, e a Câmara dos Deputados decide que políticas públicas devem considerar como vida o momento a partir da concepção e que não precisam levar em conta a questão de gênero, coletivos de mulheres se organizam — através de diferentes espaços e por motivos dos mais plurais — para questionarem o que passam a perceber como injustiças.

O ato, portanto, decorre da auto-percepção do próprio direito à autonomia e integridade (moral, psicológica, física), dimensionada pelo contexto que lhe deu origem: o calor de Porto Alegre, a ausência de uniformes impostos pelo colégio, o veto que atinge apenas as mulheres. É, em suma, a exposição (bastante feliz) de que essas estudantes são capazes de identificar elementos calcados em gênero nos seus cotidianos, o que pode indicar que serão capazes de percebê-los em outros momentos — quanto a elas mesmas, em outras fases de suas vidas, e também quanto a outras mulheres.

Ainda que o protesto parta de um determinado local social, e diga respeito a uma crítica também marcada pelas características socioeconômicas das envolvidas, isso não deveria ser motivo de desqualificação das razões que as levaram a protestar, especialmente porque — como mulheres — também estão sujeitas às opressões machistas e misóginas que recaem sobre quaisquer corpos femininos. Que esse reconhecimento seja utilizado, pelo outro lado, a partir do potencial que pode produzir, como início de uma reflexão mais profunda sobre as assimetrias de poder e as desigualdades que atingem — em níveis, por sua vez, desiguais — as mulheres em sua multiplicidade.

Desqualificar as estudantes ou deslegitimar seus motivos (aparentemente singelos, mas que escondem muito mais do que mostram) é fazê-las retornar ao local que, historicamente e como a qualquer mulher, em níveis mais ou menos intensos, sempre lhes foi imputado: observadoras passivas daquilo que outros decidem ou determinam sobre elas. Calar as meninas pela suposta pequenez de suas razões é inverter a lógica do argumento: no lugar de nos impressionarmos por termos que, ainda, debater e demandar algo tão insignificante (e, ao mesmo tempo, tão básico), nos escandalizamos com aquelas que afirmam já estarmos por demais atrasados para continuarmos lidando com aparente banalidade.

*feminista, estudante de ciências sociais e de direito

Um comentário

  • Melhor texto que li sobre o assunto! Concordo com cada palavra e expressa tudo o que eu gostaria de falar sobre o fato! Permita-me compartilhar por favor!

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