OPINIÃO: (Ricardo Teixeira – via Paulo Mariante)

Amigos

 

Fui ontem ao ato de desagravo à violência cometida contra o Lula, mas principalmente por que sinto que a violência em questão é contra todos nós.
Há muito tempo não participava de um ato promovido pelas militâncias partidárias e sindicais de esquerda e fiquei mais fortemente convencido da decadência e do ensimesmamento em que recaíram esses movimentos.

Meu objetivo principal, nesse momento, contudo, não é argumentar nessa direção, mas acho fundamental que aprofundemos esse debate sobre o esgotamento da força instituinte desses setores da esquerda, o que explica, em parte, o seu isolamento social e político. Há golpe, mas seria o supra-sumo da impotência nos contentarmos com explicações exclusivamente “vitimistas” para o que está acontecendo.

Ainda assim, não me arrependo nem um pouco de ter participado do ato e acho que fiz o que deveria ter feito nessa hora. O que acho que a esquerda, independente de qualquer posição partidária ou apartidária, deveria fazer neste momento terrível que estamos vivendo: unir-se na defesa incondicional da legalidade e do Estado democrático de direito. Inclusive, unir-se com alguns atores políticos que não se colocam no espectro da esquerda e que também se indignaram com os acontecimentos de ontem.

Penso, em minha humilde opinião, que a grande e imediata luta que temos a travar (lamento o pessimismo, mas talvez já tarde demais) é contra as forças que cagam em cima das mínimas regras do jogo democrático e que, consciente ou inconscientemente, flertam com autoritarismos e fascismos. Não acho que as estratégias que se apoiam na tese de perseguição e vitimização de um partido ou grupo político em particular (independentemente se isso está acontecendo ou não) possam prosperar. Na verdade, acho sinceramente que essa tese já foi derrotada! A única “vitória” que ela pode nos oferecer é a da miserável narrativa de que fomos “vítimas” da cruel elite brasileira por todo o “bem” que fizemos e representamos… Pessoalmente, tenho expectativas mais elevadas nessa luta.

Nesse sentido, faço questão de dizer que a única fala que realmente me representou no ato de ontem foi a do Haddad, nitidamente situada num século diferente dos demais: foi o único que se referiu não ao “presidente Lula”, mas ao “cidadão Luiz Inácio Lula da Silva” e fez questão de dizer que sua indignação não se devia ao fato da violência ter sido cometida contra uma “autoridade”, mas porque fizeram com Lula, o que se faz corriqueiramente com milhões de pobres encarcerados coercitivamente e sem julgamento.
Enfim, senti necessidade de socializar afetos, compartilhar um pouco das intensidades que me atravessam nesse momento que exige muita luta e posicionamento, sem purismos ou tergiversação.

Mas sem deixar de exercer a crítica e o pensamento, num momento em que também é urgente a esquerda se reinventar.

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