Milicia é desbaratada em Pelotas (da ZH)

MP faz ofensiva contra empresa de segurança suspeita de tortura em Pelotas
Investigadores definem a Nasf como uma “milícia”. Ela é suspeita de praticar tortura física e psicológica contra homens capturados por crimes
Por: Carlos Rollsing e Humberto Trezzi
05/04/2016 – 08h14min | Atualizada em 05/04/2016 – 10h40min

MP faz ofensiva contra empresa de segurança suspeita de tortura em Pelotas Marcelo Kervalt/Agência RBS

Operação do MP contou com o apoio da Brigada Militar, na manhã desta terça-feira, na zona sul do EstadoFoto: Marcelo Kervalt / Agência RBS

Ofensiva do Ministério Público Estadual desarticula, na manhã desta terça-feira, as operações de uma empresa de segurança privada com atuação em Pelotas, na zona sul do Estado. A Nasf, que oferece serviços de ronda e guarda de residências particulares, é definida pelos investigadores como uma milícia.

Ela é suspeita de praticar crimes de tortura física e psicológica contra homens que eram capturados por terem cometido furtos e roubos. Os agentes da suposta milícia também teriam extorquido e ameaçado pessoas que não aderiam ou tentavam desistir dos seus serviços.

Na manhã desta terça-feira, o MP cumpre 14 mandados de prisão e 26 de busca e apreensão em Pelotas e Capão do Leão. Também há autorização judicial para recolher 21 viaturas usadas em patrulhas. Entre os presos da operação está Nelson Antonio da Silva Fernandes, tenente aposentado da Brigada Militar e proprietário da Nasf.

Batizada de “Braço Forte”, referência ao slogan da empresa, a operação é comandada pelo Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP, sob coordenação do promotor Flávio Duarte. São investigados os crimes de tortura, formação de milícia armada, lesões corporais e dano a patrimônio de terceiros.

Para os investigadores, há indícios de que a Nasf — iniciais do proprietário Nelson Antonio da Silva Fernandes — atuava como uma milícia. Denúncias indicaram que moradores e empresários de Pelotas seriam chantageados em duas situações: quando rejeitavam os serviços da empresa ou tentavam cancelar o contrato. Houve relatos às autoridades de pessoas que sofreram ataques nas suas residências após uma dessas situações. Ameaças verbais também foram feitas, algumas por telefone, interceptadas no curso das investigações com autorização judicial.

Nelson Antonio da Silva Fernandes, tenente aposentado da BM, foi preso em casa, no município de Capão do LeãoFoto: Marcelo Kervalt / Agência RBS

O MP apurou que os agentes da Nasf teriam feito arrombamentos em estabelecimentos comerciais que se recusaram a contratar os seus préstimos. Também foram coletados indícios de que a suposta milícia usa métodos de tortura ao capturar pessoas que tentam praticar roubos ou furtos nas casas que contam com os seus serviços.

Os próprios agentes da Nasf fizeram vídeos de indivíduos com o rosto machucado e ensanguentado. Os sujeitos eram interrogados. Um deles foi obrigado a olhar a placa de identificação da empresa, costumeiramente afixada às residências protegidas, e repetir quatro vezes o slogan “Nasf, tenente Nelson. O braço forte da comunidade”.

— Tu vai voltar nas placas? Filho da p***! Cadê a tua arma, filho da p***! — gritava, de dentro de um carro, um agente da empresa de segurança privada.

— Sim, senhor — repetia o capturado, garantindo que não furtaria mais nenhuma residência protegida pela Nasf.

Outro indivíduo foi colocado dentro de um carro e imobilizado pelo pescoço, com sangramentos pelo rosto. Intimado a responder, chegou a balbuciar o seu nome. Ao fundo, através do vidro do veículo, é possível ver que uma segunda viatura da empresa fazia parte do comboio.

O MP ainda apurou que a Nasf teria torturado parentes de suspeitos de arrombamento em locais protegidos pela empresa. A intenção seria forçar confissões sobre o paradeiro dos indivíduos.

“Tenente Nelson”, proprietário da Nasf, possui antecedentes criminais. Até dezembro de 2015, constava o registro de 13 ocorrências em seu nome, incluindo um homicídio simples, abuso de autoridade, ameaça, contravenção penal, lesão corporal, violação de domicílio e entregar direção à pessoa não habilitada. No caso do homicídio, Nelson foi absolvido em 6 de setembro de 2011 em julgamento na 1ª Vara Criminal de Pelotas.

A Nasf foi criada há cerca de 10 anos, quando tenente Nelson se aposentou da Brigada Militar. É conhecida em Pelotas pela sua atuação e soma mais de cinco mil clientes, entre residências e empresas. A arrecadação mensal giraria em torno de R$ 500 mil. Pelo contrato social, deveria se limitar a serviços de zeladoria, mas oferece segurança privada com caráter de milícia, conforme o MP.

Durante a investigação, foram apurados detalhes que mostram o aspecto “justiceiro” empregado pela Nasf. Todas as suas viaturas, por exemplo, tinham adesivada na parte externa a frase “Eu sou um castigo de Deus. E se você não cometeu grandes pecados, Deus não teria enviado um castigo como eu”.

A Operação Braço Forte é uma das maiores ofensivas já desencadeadas pelo MP do Rio Grande do Sul, que destacou mais de 100 servidores para atuar nesta terça-feira. Também há apoio para o cumprimento dos mandados da Corregedoria da Brigada Militar, do Batalhão de Operações Especiais (BOE) e do Exército.

A procuradoria do Ministério Público Federal (MPF) em Pelotas já havia apresentado ao Judiciário pedido de encerramento das atividades da Nasf. Apuração do órgão, em conjunto com a Polícia Federal, concluiu que a empresa prestava serviços de repressão, com suposto uso de arma, sem estar habilitada para isso. A solicitação do MPF foi negada na Justiça Federal.

*Zero Hora

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