O SENTIDO DA CAMINHADA (Enilton Grill)

caminhada

dia desses ouvi sem querer uma conversa entre dois senhores. eles falavam mal, muito mal, das marchas dos sem terra. trocando em miúdos, eles diziam que isso era coisa de gente que não tinha o que fazer. foi daí que resolvi dar uma pesquisada sobre qual seria na história da humanidade o sentido e a razão das marchas ou caminhadas.

nas lutas mais generosas da humanidade sempre houve caminhadas massivas e longas. é um gesto coletivo histórico.
por exemplo, a caminhada de moisés. segundo a história, teria demorado 40 anos. moisés morreu antes de chegar à terra prometida. mas ele liderou o povo hebreu. tanto na fuga da escravidão quanto no retorno às terras da palestina. e fez isso caminhando. está escrito… na bíblia.

em 1917, o cenário russo era desolador. centenas de milhares de soldados mortos na guerra. filas imensas se formavam nas ruas das cidades pra comprar pão. a insatisfação era geral. até que uma passeata ou marcha ou caminhada, como quiserem, de operárias de são petersburgo juntou mais de dois milhões de pessoas. chegou a repressão. mas os soldados recusaram-se a atirar. eles juntaram-se à multidão. e isso levou o tzar (o imperador russo) a renunciar.

aqui, no brasil, a coluna prestes percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do brasil. foram 2 anos e meio de peregrinação. em sua marcha pelos cafundós do país, os tenentes denunciavam a miséria da população e constataram de perto a exploração das camadas populares e firmaram a convicção de que era preciso mudar aquela situação. e assim, numa – ou em várias marchas – foi gestada a revolução de 30.

tem a caminhada de ghandi, rumo ao mar para salvar o sal dos hindus. em certa época os ingleses monopolizaram o comércio do sal. ghandi então convocou o povo para fazer uma caminhada rumo ao mar, para simbolizar que o sal era de todo povo hindu. foi vitorioso. milhares de pessoas participaram da caminhada.

há caminhadas em todos os períodos da história. o povo judeu também caminhou muito durante a segunda guerra mundial, nas migrações que fez para fugir do nazismo. a luta de resistência dos povos indígenas, nos estados unidos, é também uma espécie de caminhada.

o povo guatemalteco tem marchas famosas. a revolução mexicana foi feita praticamente a pé. pancho villa no sul e emiliano zapata no norte ocuparam todo o território caminhando e lutando com seu exército camponês. foram vitoriosos ao realizarem uma reforma agrária na marra, distribuindo as terras para quem nelas trabalhasse.

mas, atenção!, a reforma agrária mexicana deixou uma lição: não basta distribuir as terras; é preciso oferecer condições para manter os camponeses nela.

a marcha (caminhada) está presente em todas as matrizes e todos os matizes ideológicos e em todas as épocas. sempre foi assim e sempre será. mas talvez seja mesmo muito difícil de entender. e na sua ignorância algumas (muitas) pessoas acabem achando que as marchas dos sem terra são coisa de quem não tem nada o que fazer…

ah! tenha a santa paciência! coisa de quem não tem nada o que fazer pra mim é outra coisa e o difícil de entender, cá entre nós, é que nesta imensa nação ainda seja matar ou morrer por um pedaço de chão.

‘do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. ou uma ave. ou uma bandeira’, escreveu saramago no livro ‘levantado do chão’.

e também do chão pode levantar-se uma canção, uma canção que diga da falta de chão.

grill

https://www.youtube.com/watch?v=kUZtnm-HKs8&nohtml5
levantados do chão
chico & milton

Foto de Enilton ViviGrill.

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