O QUE FAZER? (clóvis veronez)

O que fazer

Existe mais dúvida do que certeza quando pensamos sobre as alternativas para o atual quadro histórico da política brasileira, marcado pelo conluio golpista que provavelmente afastará Dilma Roussef da presidência.

Vontade e a disposição à resistência estão presentes na parcela mais avançada dos movimentos sociais. No entanto, parece que o atual desenho não estava previsto entre as hipóteses para o desenlace dos movimentos, alinhavados pela direita brasileira, em conluio com a mídia, logo após as eleições de 2014.

Até agora, as parcelas mais conscientizadas da população, estavam nas ruas denunciando a iniciativa golpista com a perspectiva de derrotá-la no congresso nacional.

Diante do bombardeio midiático construíram-se trincheiras nas redes sociais para o contraponto democrático. É certo, que a mobilização produziu efeitos positivos na opinião publica, porém insuficientes.

O congresso, amplamente dominado por forças reacionárias e, amparados na mídia, aprovou o impedimento da presidente Dilma. Parece improvável que a intentona golpista possa ser barrada no Senado, pelo menos em sua etapa inicial, que vai afastar Dilma e colocar Temer a frente de um governo ilegítimo, cujas intenções são evidentes: Anistiar Eduardo Cunha e outros aliados acusados de corrupção e implementar o ajuste neoliberal contido no programa “ponte para o futuro”.

O imprevisto e real desenlace dessa trama, impõe um duplo desafio, aos movimentos de resistência:

De um lado, a luta jurídica, no tribunal instalado no Senado. De outro, a mobilização política nas ruas, capaz de fortalecer a defesa da democracia no tribunal de exceção e colocar em cheque o governo ilegítimo em vias de instalação.

Diante dos fatos é lógico pensar numa mudança de direcionamento da mobilização popular. Essa, não pode continuar focada apenas no embate de teses jurídicas, sobre ser ou não crime as pedaladas. Tem que mirar no ponto fraco: o governo Temer e o projeto que representa. Tal projeto terá o apoio das elites, da mídia e de uma base parlamentar reconhecidamente corrupta, mas não atenderá a expectativa da população como um todo.

Impõe-se, portanto, à construção de uma pauta política capaz de aliançar os setores combativos da esquerda, os movimentos sociais e a juventude no sentido de conquistar a simpatia e mobilizar amplas parcelas da população na rejeição e inviabilização do novo governo. É nisso que reside o ponto fraco do golpe.

Simplificando: Fora do voto direto, universal e secreto, nenhum governo é legítimo. A opinião pública concorda com isso. Não se trata de sentimento, mas de estatísticas.

A bandeira das eleições gerais é avaliada, por alguns setores, como alternativa de continuidade democrática simpática à opinião pública. A oposição golpista a rechaçou de arranque. É muito provável que a proposta ampliasse o campo político da esquerda facilitando o apoio de amplas parcelas da população e criando o terreno fértil para o embate político.

A posição de que isso representaria a aceitação do golpe também é relevante e precisa ser discutida à fundo, possui lógica.

No entanto, pode resultar em acomodação e administração pura e simples de expectativas datadas em 2018.

Essa posição é defendida no interior da Frente Brasil Popular, especialmente, por João Pedro Stédile com o seguinte argumento: “O que a burguesia quer, no Brasil, não é trocar de presidente, é implementar um programa neoliberal para recuperar sua taxa de lucro e ela sair da crise. O povo, se me permitem, que se lasque. Qual é a arma que a classe trabalhadora tem neste momento? É dizer para a burguesia: ‘olha, nós não aceitamos plano neoliberal, não aceitamos perder direitos e não aceitamos perder salário’. Para ela dizer isso para os golpistas, tem que fazer uma paralisação nacional”

É possível avaliar essa posição a partir de uma análise realista da correlação de forças na atual conjuntura política, da possibilidade prática da “paralisação nacional” e do apoio que se obteria junto à opinião pública. Tal posição, segundo entendo, tem caráter estratégico, no entanto, taticamente, é fraca.

No conjunto todas, as teses apontam para o enfrentamento do governo Temer. Ele representa a grande falcatrua empurrada goela abaixo da população brasileira.

O mais importante, para o momento, e dar curso a idéia de que a disputa pelos rumos da sociedade ocorrerá nas ruas.

O tempo das negociatas e das ilusões com as discussões de gabinete acabou. O desafio dos setores progressistas e da esquerda é o de construir uma plataforma de defesa dos direitos sociais e de avanços, com um programa para o Brasil. Auditoria da dívida, taxação de grandes fortunas e heranças, reforma agrária, reforma urbana, reforma política e democratização da mídia.

Os sujeitos desse bloco são os movimentos que conhecemos, mas o aquecimento da luta deve gerar cenários para novos instrumentos organizativos e políticos que surjam dos já existentes e daquelas e daqueles que estão de fora desses.

É hora de a esquerda voltar a discutir a totalidade, sabendo que a história não acabou e que os rumos do país dependem, mais do que nunca, da nossa capacidade de organização e disputa. Tempos sombrios parecem aproximar-se, e a única forma de lidar com eles é aceitar a convocação da História e fazer girar, com cada vez mais força, a sua roda.

É tempo de luta.

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