Causa e efeito ou por onde recomeçar (por clóvis veronez)

o dia depois

 

Não é necessário esclarecer que um sistema político que se fez presa de réus e traidores precisa ser reformado. Se couber autocrítica à esquerda, na atualidade, decorre de ter negligenciado esse aspecto.

Saul Leblon observou:

“Um golpe não começa na véspera; tampouco tem desdobramentos identificáveis na manhã seguinte. Uma derrota progressista pode ser devastadora para o destino de uma nação, a sorte do seu povo e a qualidade do seu desenvolvimento. Mas a resistência que engendra pode inaugurar um novo marco de consciência política.

O episódio das ditas pedaladas evidenciou dificuldades de se defender do algoz, sem romper o círculo de giz que ele traçara no chão.

 

Por que o governo hesitou tanto, por exemplo, em convocar imediatamente uma rede nacional e explicar o que as ditas “pedaladas” representavam de fato?

 

Ou seja, que a Caixa quitou programas sociais em dia, sendo ressarcida em seguida sem alterar o orçamento, portanto.

 

Por que o governo não escancarou imediatamente o golpismo intrínseco à ‘escandalização’ da operação contábil corriqueira, com fins sociais irrepreensíveis?”

O golpe maquinado pelas elites brasileiras contra a democracia tem viés “comunicativo” frágil, porém contou com um quase inexplicável imobilismo político/discursivo facilitando o caminho da mídia golpista e a transformação em senso comum os seus argumentos.

Afinal: um “escândalo” só é escândalo, se aceito como tal.

Derrotados pelo voto popular os conspiradores empreenderam sua sina golpista encurralando um adversário que hesitou ingenuamente em defender-se.

A omissão ao debate de idéias foi uma constante nos governos petistas embalados por um consumo que os aprovou, sem ocasionar alteração na ideologia de quem ascendia no plano social.

A democracia que hoje, de forma quase intempestiva, defendemos, não se acresceu de novos protagonistas, nem construiu novas alternativas de participação.

Essa linha de atuação, basicamente “economicista” acabou por transformar o segundo governo Dilma, que sequer começou, em refém de um congresso dominado por um gangster como Eduardo Cunha.

Márcio Pochmann alertou há algum tempo os riscos implícitos na “assimetria” entre avanços econômicos e sociais desprovidos do respectivo cimento organizativo e ideológico.

Cerca de 22 milhões de trabalhadores ascenderam socialmente, desde 2003,’ lembrava ele já em 2013,  ‘mas não houve mudança na taxa de sindicalização no país: de cada dez destes trabalhadores, só dois se filiaram a algum sindicato. O mesmo aconteceu com os estudantes beneficiados pelos programas do governo federal e com os beneficiários do Minha Casa, Minha Vida’, espetou na sua lista dos antecedentes da tormenta, que por fim eclodiria já na campanha de 2014, ainda assim subestimada.”

Marilena Chauí  sobre a disputa ideológica:

Esse fenômeno de manutenção (adoção) das idéias dominantes, mesmo quando se está lutando contra a classe dominante, é o aspecto fundamental daquilo que Gramsci denomina de hegemonia, ou o poder espiritual da classe dominante”.

Em Chauí o ciclo petista vê-se golpeado, justamente, por não haver atuado a favor da mutação deste “espírito”, afirmando, nos campo das idéias, a noção de um poder popular.

Assim, fica evidente, a necessidade de acirrar a disputa por mudanças qualitativas no plano da cultura política via participação social, pela gestação de novas instâncias “deliberativas”. Em torno disso devem reagrupar-se as forças democráticas.

Um programa que incorpore essa demanda histórica pode antes do que pensa a troupe golpista, reverter à cena atual. A quadrilha que toma de assalto à democracia brasileira nada pode oferecer ao povo que não seja sua aposta no neoliberalismo tardio e mundialmente fracassado.

 

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