Aspectos comunicativos da disputa política na atualidade Brasileira (clóvis veronez)

opinião

 

 

Quem circula por espaços públicos, depara-se com o quadro de um fenômeno político, se não inédito, pouco comum no cenário da democracia formal.

O tempo da política, usualmente, na academia, definido como aquele que antecede os períodos eleitorais e constitui-se com sua proximidade, vê-se alterado.

Em toda parte, repara-se que o tema da política predomina em conversas entre pessoas comuns e, mais ainda, nas parcelas formadoras da opinião pública.

Num ou noutro caso, trava-se uma disputa pela legitimação ou contestação dos fatos e processos que conduziram ao afastamento de uma presidente eleita, sobre o que pairam dúvidas, sobre o mérito do processo e do seu resultado: instalação do governo “interino” de Michel Temer.

A disputa comunicativa, em curso, mobiliza quadros de sentido e, ao mesmo tempo, traz novos elementos para os quadros que ordenam a realidade social, influenciando a opinião pública, gerando mobilização e atenção social.

O movimento que “em tese” legitimou o processo de “impitimam” da presidente avançou em função direta do senso comum que estabeleceu-se com a criminalização do seu partido e o fraco desempenho do seu governo.

O que não se percebeu, inicialmente, era que aquele movimento havia sido inventado por uma agência de noticias/publicidade detentora, quase exclusiva, do sistema de comunicação brasileiro – A Rede Globo. Tal ação tinha como objetivo simular um apoio público sobre aquela causa e insuflar um parlamento conservador para a aventura golpista – uma prática conhecida como astroturfing.

Nos últimos anos, essa prática normalmente mantida afastada dos holofotes públicos vem ganhando destaque na esteira de uma série de denúncias sobre sua utilização e seu impacto na construção da opinião pública: caso concreto foi o Tea Party nos EUA e a ofensiva da direita neo-liberal em toda a América Latina.

O movimento surgiu a partir de uma série de protestos coordenados, tanto no nível local como nacional que se realizaram a partir do início de 2009. Os protestos foram, em parte, motivados por diversas leis federais, como o Plano de resgate econômico de 2008, a Lei de Recuperação e Reinvestimento dos Estados Unidos de 2009 e a Lei de Proteção ao Paciente e Assistência Médica Acessível (reforma do sistema de saúde, popularmente conhecida como “Obamacare“). 

Tal estratégia comunicativa tem impulsionado aquilo que definiu-se como “os golpes brancos ou brandos” na América Latina. Os movimentos, aparentemente, não têm uma liderança central e resultam da adesão informal de grupos locais menores, via uma rede social patrocinada.

Ocupa-se de aspectos simbólicos como o da criminalização da esquerda, redução do tamanho do  governo, diminuição de impostos,  do desperdício, da dívida pública  e do défice do orçamento federal , além de interpretação “original” da constituição.

A percepção do caráter comunicativo, do enfrentamento político na “cena” Brasil, constitui a pauta fundamental para a vitória da resistência democrática.

Se for verdade de que, no primeiro round, a ofensiva conservadora obteve uma vitória é também verdade que ela ainda não legitimou na “vontade geral” a sua alternativa. Alguém consegue imaginar uma manifestação de apoio ao governo Temer, no atual quadro?

Baionetas foram substituídas por versões, trincheiras devem ser substituídas por outras, tão ou mais eficazes, na construção dos rumos da opinião pública.

Ela definirá o desfecho!

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