PALAVRA DESORDEM e É BOTE (vitor ramil)

vitor

PALAVRA DESORDEM
Vitor Ramil

Queimem os navios
Pisem cada vértebra do chão
Soquem o vazio
Soltem o veneno e o palavrão
Desafiem cada manhã
Ignorem noites de frio

Rezem por Rimbaud
Mandem o destino começar
Rimem com furor
Mudem cada coisa de lugar
Toquem sinos, batam tambores
Emudeçam rezas e hinos

Façam a revolução

Rompam, desarrumem, desacatem
Zombem de Bonaparte
Desafinem, descompassem
Toda valsa sem arte
Façam troça, achem graça
Riam no desenlace
Sem miséria, sem trapaça
Lancem tudo pro ar

Rompam os varais
Ergam barricadas nos jardins
Gritem com o olhar
Salvem suas peles por um triz
Inaugurem formas de ser
Sejam um começo sem fim

Façam a revolução

Movam, desalinhem, desencaixem
Mostrem do todo a parte
Alegria e desastre
Juntos num estandarte
Ponham festa, ponham fausto
Ponham fé no que valha
Ponham febre, ponham alma
Ponham fogo no mar

Queimem os navios

É BOTE.

Nestes tempos héliobicudos muitas coisas pertinentes, inteligentes, sensatas ou bem fundamentadas têm sido ditas, bem como suas contrapartidas, as idiotas e/ou capciosas, que foram enunciadas com um à vontade nunca antes visto em tantas bocas, em tantos meios de comunicação, não só na “anônima intimidade” das redes sociais – onde a desenvoltura dos néscios foi bem descrita e justificada por Umberto Eco um pouco antes de ele trocar nosso mundo sombrio pelo céu azul de Giotto. Mas os desdobramentos de tanta ação e falatório, para o bem e para o mal, continuam abrindo espaço para que até os niilistas, os reclusos, os solitários sintam necessidade de se pronunciar. É mais ou menos o meu caso.

Não fiquei surpreso com a volta atrás e recriação do MinC, afinal de contas, o governo provisório é protagonista de um espetáculo que vai entrar para a nossa história como uma grande representação coletiva, talvez a maior que já se viu nessa terra de recorrentes transes. Os atores parecem saber bem o que estão fazendo. Mas será que os figurantes que atuaram nas ruas pelo impeachment da presidente Dilma faziam ideia do que constava no roteiro? Estariam enxergando para além do pó de arroz na ponta do nariz? Uns caras-pintadas certa vez acreditaram ser os responsáveis pela queda de Collor… O fato é que a trama foi muito bem urdida e a direção, seja lá de quem for, primorosa. Que elenco grande e diverso! Gente de todas áreas, de todos os quilates. Como atuaram de forma tão afinada? Será que houve ensaio? É de se imaginar uma equipe de produção “provisória” chegando à conclusão de que não seria inteligente abrir mão do MinC justo na hora de manter em cartaz uma representação teatral desse porte, especialmente agora que diálogos e ações de bastidores passam a ocupar o palco principal.

Sei que minha opinião não teria peso junto aos produtores, mas gostaria de sugerir um nome para o espetáculo. “O golpe” soaria bem, mas a expressão está batida. Melhor seria adotar alguma não tão contaminada pela história, a passada e a recente. Quem sabe “O bote”? Afinal de contas não é disso que se trata mais precisamente? Alguma elaboração a mais e a narrativa daria uma bela fábula com bichos no lugar de homens. A vantagem é que não seriam necessários figurinos, principalmente para as cobras, que há de sobra. Sairia barato. Para o espetáculo – fora os custos com divulgação, que são sagrados – o MinC talvez só precisasse liberar uma verba para a construção do pântano que comporia o cenário. De qualquer maneira, a produção “provisória” dormiria tranquila à noite, pois as liberações de verba dificilmente seriam contestadas, uma vez que os envolvidos não seriam atores de ofício, ou seja, não seriam vagabundos determinados a mamar nas tetas do governo. A trama a ser aprovada é conhecida de todos: um bote vinha sendo armado há muito tempo, a vítima inventou de atravessar o pântano e…

Mas já chega. Cansei. São metáforas demais para um artista pouco chegado ao trabalho. Antes de me atirar na rede – refiro-me à cearense, não à web – deixo com vocês um poema de Antonio Botto, poeta português que viveu no Brasil, musicado por mim em feitio de fragmento de samba enredo:
https://soundcloud.com/satol…/vitor-ramil-se-eu-fosse-alguem A vantagem das canções é que elas têm o poder de dizer muito num espaço curto de tempo, poupando assim os cancionistas dos esforços discursivos. E deixo também uma letra nova de minha autoria, Palavra Desordem. Não facilitarei para mim mesmo cedendo ao populismo – coisa que não aprovo – de levar meus leitores a crer que o contexto atual fez de mim um letrista engajado. Eis o mistério da arte: a letra trata de uma questão poética, de quando invoquei minhas próprias forças e renovei comigo mesmo o compromisso de não me acomodar a procedimentos viciados na hora de escrever. Escrita na terceira pessoa do plural, multiplicando-me, portanto, a letra terminou falando para muitos além de mim (artifício inverso ao usado por inúmeros compositores para driblar a censura na época da ditadura: lançar mão de temas aparentemente pessoais ou mesmo inócuos para tocar em questões sociais e políticas “proibidas”). Talvez, na realidade, Palavra Desordem tenha, desde a sua concepção, falado apenas dos outros e para os outros e eu nunca tenha me dado conta disso. Mas não importa. Um artista não sabe mesmo por que cria.

Boa cidadania a todos.

Um comentário

  • Edlus Colares da Silva

    Me lembrou a música Rádio Pirata do grande Paulo Ricardo, do RPM. Brincadeira… e uma pitada de maldade. Baita texto, vou compartilhar com aquele pseudo-escritor coxinha da RBS que agora mora em boston.

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