A crise é dos ricos, mas o pobre é que se ferra

desigualdade

O aumento da desigualdade no período mais recente vem ocorrendo devido à queda da renda dos mais pobres.

Pelo levantamento feito pelo professor da USP Rodolfo Hoffmann, a renda dos que estão na base da pirâmide caiu no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2015.

A desigualdade –diferença entre ricos e pobres– aumenta quando há descompasso no ritmo de aumento de renda dos dois extremos.

Entre 2001 e 2014, a desigualdade recuou porque a renda dos mais pobres cresceu mais do que a dos ricos.

O velocímetro se inverteu no segundo mandato de Dilma, pelo radar de Hoffmann.

Entre o primeiro trimestre de 2015 e este ano, a metade mais pobre da força de trabalho perdeu renda. Já entre os 10% mais ricos, ela cresceu. O desemprego e a piora do mercado de trabalho, via informalidade, têm recaído com mais intensidade sobre os trabalhadores de menor renda e escolaridade, observa a economista Ana Maria Barufi, do Bradesco.

“O desemprego sobe mais entre os que tinham menos qualificação e os que tinham rendimento mais baixo. [Isso sugere que] os que estão saindo da massa ocupada são os mais pobres”, afirma.

“Se o desemprego aumenta nas camadas inferiores da distribuição, é de esperar que a renda dos mais pobres caia mais”, acrescenta.

Pelo estudo de Hoffmann, subiu a fração de pessoas que informaram receber como salário ou renda do trabalho até R$ 600 ao mês. No primeiro trimestre, eram um quarto da força de trabalho –quase 27 milhões de pessoas. Se descontados os desempregados (cuja renda é zero pela metodologia do estudo), são 16 milhões de pessoas.

“A linha de R$ 600 dá ideia da precarização do mercado de trabalho”, diz Barufi, referindo-se a fontes de renda que vêm de bicos e outros trabalhos informais.

Hoffmann acredita que o comportamento verificado na força de trabalho vá interferir na desigualdade total –que compara a renda dos domicílios dos dois extremos, somando benefícios.

“Eu apostaria que os dados sobre renda domiciliar per capita também vão mostrar interrupção da queda da desigualdade”, referindo-se à tendência que, para ele, teve início em 1995.

Barufi prevê que a desigualdade total vá subir, porém com menos intensidade do que a vista no radar do especialista da USP.

Para ela, a medida de desigualdade focada apenas no rendimento da força de trabalho pode mostrar um retrato exagerado do problema.

“Para as classes D e E, a renda do trabalho corresponde a 63% da massa de renda. Outras fontes [como o Bolsa Família e a Previdência] são importantes nessa camada da população”, afirma ela.

Os especialistas debatem atualmente se o aumento da formalidade, ocorrido na última década, poderia contribuir como uma proteção aos mais pobres neste momento de crise, com FGTS, abono salarial e seguro-desemprego.

Para Sérgio Firpo, do Insper, esse colchão é mais fino do que se pode imaginar. “As regras de acesso a esses benefícios, tais como funcionam hoje, estimulam a rotatividade excessiva”, diz. “De tanto rodar de emprego, o trabalhador acumulou menos poupança.” (da folha)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *