Cunha renunciou. E daí? (Henrique Mascarenhas de Souza)

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Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e afastado de suas funções pelo Supremo Tribunal Federal, renunciou hoje, por volta de meio dia, à presidência da Câmara, numa última tentativa de salvar seu mandato de deputado federal. Cunha é um escroque conhecido no Brasil e fora dele, tem uma fortuna incompatível com seus rendimentos, responde a vários processos, é citado e investigado pela Operação Lava Jato, enfim, é um dos mais conhecidos bandidos do país. Não por acaso, Cunha reuniu-se, antes da renúncia, com Michel Temer, O Usurpador. Não tive e aparentemente ninguém teve acesso ao conteúdo dessa conversa. No entanto, não é difícil imaginarmos que entre o escroque do Cunha e o usurpador do Michel Temer a conversa girou em cima de alguma negociata. Tipo: “eu renuncio à presidência da Casa e você joga seu peso político para impedir a cassação de meu mandato”. “Em troca, eu garanto o fim das investigações sobre corrupção na Câmara e no Senado”. Não entendo, como de resto a maioria dos brasileiros, como um deputado menor, eleito com poucos votos, como Eduardo Cunha, ainda tem tanto poder. Deve ter um dossiê completo sobre as trampolinagens praticadas por todos os parlamentares, aí incluído Michel Temer, O Usurpador. Vivemos um momento singular na história do país. Há poucos meses os brasileiros bateram panelas quando Cunha acatou o pedido de impeachment da Presidente da República, Dilma Rousseff, eleita por cinquenta e quatro milhões e meio de votos. Viam-se nas ruas, em manifestações apoiadas pela grande mídia, em especial a Rede Globo de Televisão, e pela Federação das Indústrias de São Paulo, a poderosa Fiesp, aquela do pato, faixas e cartazes com os dizeres “Cunha é nosso herói” e “somos milhões de Cunhas”. Em abril deste ano, quando a maioria dos Deputados votou pela continuidade do processo de afastamento, com discursos patéticos em nome da família, de deus e da moralidade, esses mesmos cidadãos aplaudiram e foram às ruas comemorar como se seu time do coração houvesse ganho o campeonato. Em doze de maio, quando os Senadores instauraram o processo de impeachment contra Dilma, que culminou com seu afastamento do cargo até o julgamento, boa parte da população novamente comemorou o “fim da roubalheira”. Ora, onde estavam as panelas, as faixas e os cartazes quando se descobriu que um terço dos Ministros de Estado nomeados por Michel Temer, O Usurpador, eram citados e investigados pela Operação Lava Jato? Quantos minutos o Jornal Nacional, carro-chefe e campeão de Ibope da Rede Globo, dedica às investigações depois do afastamento da presidente? Quantas entrevistas foram dadas e quantos mandados de condução coercitiva e de prisão foram expedidos pelo juiz Sergio Moro, o paladino da justiça? O que venho tentando dizer é que neste país as coisas têm dois pesos e duas medidas; que pau que bate em Chico não bate em Francisco. Não vejo absolutamente nenhum motivo para comemorar a renúncia de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Precisamos, sim, cassar seu mandato, julgá-lo e mandá-lo para a prisão. Quando, e se, chegar esse dia, aí terei motivos para comemorar.

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