30 horas: a jornada sueca de trabalho (Juremir Machado)

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A Suécia é um país bizarro, desses que desafiam maravilhosamente todas as teses de conveniência.

Faz tudo o que os nossos ultraliberais detestam. Por lá, a livre iniciativa é muito forte. O papel do Estado no cotidiano das pessoas, também. O ensino é gratuito do maternal até a faculdade. Tem até escola privada sustentada pelo Estado. Pai e mãe alcançam um ano e quatro meses de licença para cuidar dos seus bebês. Nos primeiros 390 dias, 80% do salário é garantido pelos cofres públicos. Em 2016, um homem foi obrigado a parar 90 dias para se ocupar de seu filho. Nada de passar toda a missão para a mulher. Macho que é macho troca fraldas.

Agora, A Suécia se prepara para implantar a jornada semanal de 30 horas. Seis hora por dia. Bacana.

No Brasil, país sabidamente mais avançado em todos os quesitos, especialmente econômicos, O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Robson Braga de Andrade, quer jornada semanal de 80 horas.

Nada mais do que 16 horas diárias. Um retorno ao século XIX. Melhor seria não perder tempo e reintroduzir logo a escravidão. Como disse o senador do Rio de Janeiro Paulino de Sousa, pouco antes da assinatura da abolição, a Lei Áurea seria “inconstitucional, antieconômica e desumana”. Voltemos à humana escravidão: sem distinção racial. O problema é como fazer para obrigar escravos a cumprir metas. Talvez se possa criar um banco de chibatadas. Quem atinge tal desempenho, livra-se de tantas chicotadas. Ou tem direito a uma hora semanal de descanso.

Bem entendido, sem remuneração.

Modernidade, em países altamente desenvolvidos como o Brasil, é viver para trabalhar. Na Suécia, pratica-se uma política de igualdade de gêneros. Isso que por aqui anda sendo chamado pela direita de ideologismo e até de feminazismo. Os suecos são estranhos: acham que se deve ter direito a viver e que o trabalho serve ao homem, não o contrário. Pagam em torno de 44% do PIB em impostos e estão contentes. A Suécia tem a quarta economia mais competitiva do mundo. Não percamos tempos com dados rebarbativos. A Suécia é certamente um mau exemplo. Articulistas esforçam-se para mostrar que o Estado do Bem Estar Social sueco não tem futuro.

Se tudo der certo, quer dizer, errado, ou seja, certo, estou confuso, a Suécia ainda será um pequeno Brasil, com projetos de 80 horas semanais de trabalho para todos. O trabalho escravo enobrece os escravistas.

No Brasil, as utopias (projetos concebidos por iluminados e aplicados de cima para baixo para salvação de todos) estão de volta: jornada semanal de trabalho de 80 horas, fim da estabilidade no emprego para funcionários públicos, redução do tempo de férias pagas, liquidação do décimo-terceiro, fixação da idade mínima para aposentadoria em 65 anos ou mais, privatização das universidades públicas ou aplicação de taxas para os mais aquinhoados, enfraquecimento do SUS, eliminação do Bolsa Família em dois anos, redução dos impostos para os mais ricos e retorno do financiamento empresarial de campanhas políticas. Ainda levaremos a modernidade aos suecos.

É questão de tempo. Eles têm muito a aprender conosco.

Por exemplo, em termos de corrupção.

Sabem nada, inocentes!

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