O MAR QUE GESTAVA LETRAS (Por Manoel Soares Magalhães)

o mar
Acrílica s/tela
No mar
15×30

Lufadas de vento sul, fortes e sonoras, arrancavam dos rochedos vozes indistintas. Aproximei-me lenta e pacientemente, pois temia afugentar o vozerio. No chão pedregoso escamas de peixes pequenos e grandes boiando ao sol. Algumas alçavam voo, traçando voltas no ar tépido, sumindo meio as nuvens de algodão. Já ouvira dizer que a voz das rochas tem muito a nos dizer acerca de suas verdades ancestrais.

Saberia entendê-las? Saberia, de alguma forma, reproduzir a estranha fonética, provavelmente reportando-se à idade da terra? As perguntas inquietavam-me, mas não o suficiente para travar meus pés, impedindo-me de continuar caminhando, aproximando-me cada vez mais das pedras, as quais, como camaleões graníticos, alternavam cores numa rapidez espantosa, dando impressão de que um pincel invisível, mercê de estranha vontade, ia colorindo-os à toa, sem compromisso com a perenidade.
Aliás, parecia-me que a brincadeira era justamente a de colorir e descolorir, para outra vez pintá-las aleatoriamente. À medida que eu me aproximava, o vento tornava seu verbo mais tonitruante e incompreensível. Ai aconteceu a revelação.

As vozes irrompiam das gargantas de animais e homens esculpidos nos rochedos.

Sentei-me na areia branca e morna, ouvindo atentamente a estranha conversa, que parecia não ter fim. Fechei os olhos, deixando-me invadir pelas vozes e sons dissonantes. Aquietei-me, pois sabia que as antediluvianas informações seriam assimiladas pelo meu ser.

O tempo escorreu…

Quando não mais distinguia o real do irreal, ergui-me e flutuei em direção à cabana, sem saber se era dia ou noite. O silêncio predominava. O vento que arrancara lascas das rochas ventava dentro de mim transformado em brisa.

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