A insistência da razão (clóvis veronez)

razão

Onde se vai buscar a força que não se tem ou que se esgotou? A resposta a esta pergunta não pode nunca ser uma só. A força que não se tem, vai buscar-se nas fronteiras do que é seguro, do que é certo e do que é nosso. Há quem encontre sentido no espaço que fica entre as duas mãos que se esmagam uma na outra para fazer nascer uma oração ao tempo presente. Há quem se deixe ficar preso ao silêncio, até a voz da força regressar. Há quem olhe com cuidado para uma pessoa muito querida e encontre nela o tudo que precisa. Há ainda quem decida que terá que levantar-se mesmo que a força não chegue. Nem sempre somos feitos de pedras de muralha. Muitas vezes e mais vezes que aquelas que gostaríamos, somos feitos de espaços em branco. Espaços vazios que não têm nada. Frestas de esperança. Estreitas, magras, quase invisíveis. Curiosamente, é quando não temos força nenhuma e os ossos nos incomodam cutucando a pele por dentro, que temos que mostrar do que somos feitos. Somos feitos daquilo que é nosso e daquilo que nos fala alto dentro do peito quando as outras vozes todas se amordaçam e nos amordaçam. A nossa força vem, precisamente, daquilo que ainda nos sobra quando tudo o resto desapareceu. Quando menos esperamos, a vida é uma espera. Espera por tudo o que temos de certo e sopra. Sopra com tanta força que se faz temporal. Leva tudo, desarma! Reajusta-nos quando achávamos que já tínhamos encontrado o nosso lugar. Depois de nos varrer por dentro, adianta-se uns passos no caminho e espera-nos lá mais à frente. Para ver de que força somos feitos. A vida é uma criança mal comportada! Desassossega. Levanta-se cedo aos sábados e domingos e não quer saber se estamos a descansar. Não dá tréguas. Não se cansa nem adormece. E aí, quando as olheiras de aturar a vida nos deformarem o olhar, onde vamos buscar a força que não temos? No único lugar onde não tínhamos procurado. No único lugar onde faz sol quando os outros lugares todos estão alagados de chuva. Ao lado certo da razão que insistimos ter.

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