Um libelo a favor da consideração, da amabilidade e da elegância

elegancia

 

Caros Pedro Marasco e Fabrício Matiello

 

Ontem eu escrevi por aqui um pequeno texto. Nele, fiz uma apropriação tenuemente literária da situação enfrentada pela Presidenta Dilma e o que se acredita, em mescla de história e fé, haver sido a noite terrível em que Jesus, apanhado no Jardim das Oliveiras, foi conduzido ao seu calvário no monte Monte da Caveira (Gólgota). Evidentemente, qualquer comparação verdadeira que não fosse a de tentar um curso narrativo que me permitisse melhor exprimir o que estava pensando, seria inteiramente imprópria. E por dois motivos: o primeiro, por não ser comparável, senão por metáfora relacional, um personagem integralmente histórico, Dilma Vana Rousseff, Presidenta da República Federativa do Brasil, e outro histórico-transcendente, Jesus Cristo, proclamado Rei dos Judeus e tornado Deus pela força de crenças messiânicas próprias dos tempos antigos; o segundo, pela insensatez disparatada que seria pretender demonstrar a razoabilidade real de uma tal comparação, o que seria expressivamente ridículo, mesmo para os termos de um precário meio de comunicação, ainda que de bom alcance, como é o caso do Facebook, onde tudo parece possível dizer porque talvez nada mais seja possível fazer.

Pois bem, então assim procedi, publiquei o texto de anteontem, e chamei-o de “ecce femina”, como contraponto aventureiro à frase de Pôncio Pilatos, ao entregar Cristo à multidão que, ao fim e ao cabo, o julgaria, e que se notabilizou ainda mais, ao menos no universo da filosofia, através da obra “ecce homo”, de Nietzsche, onde o próprio autor se entrega à humanidade para juízo desta, em fase pré-febril da sífilis, a qual acabou por lançá-lo a uma longa debilidade mental antes de falecer nos albores do século XX. Não tive outra intenção senão a de, a meu jeito, lamentar por Dilma, e o produzi da mesma forma como produzo todos os textos em que não estou em atividade puramente lúdica: com honestidade de propósito em face de emoção verdadeira. Pensei na mulher que tanto já sofreu nessa vida, incluindo-se aí as inomináveis torturas físicas e psicológicas perpetradas pela estultícia marcial que conduziu o país por vinte e um anos, um mês e quinze dias, período que possuiu dentro dele próprio, outro, conhecido por “anos de chumbo” (13 de dezembro de 1968, com o AI-5, até 15 de março de 1974, com a posse do General Ernesto Geisel). Nessa quadra, sob a batuta do General Emílio Garrastazu Médici, meu conterrâneo mais sombrio, foi quando Dilma acabou sendo brutalizada em sua juventude sob a acusação de conspiração grave ao regime militar e subversão.

Eu li todos os depoimentos de Dilma tornados públicos sobre a tortura que sofreu em Minas Gerais, na cidade de Juiz de Fora, os quais prestou com muito custo emocional à Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura (Ceivt) do Conedh-MG, e foi colhido pelo jovem filósofo mineiro Robson Sávio no ano de 2001. Dilma também foi torturada, como é sabido, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ao todo, por conta da Operação Bandeirante (Minas) e do Departamento de Ordem Política e Social, o sinistro DOPS, ficou reclusa por quase três anos (entre 1970/1972). Durante esse tempo, sofreu quase diariamente tortura física, além da tortura psicológica de, por exemplo, permanecer encarcerada na mais absoluta solidão sem saber se era dia ou noite. Fisicamente, levou eletrochoques com muita frequência, ficou pendurada no pau de arara e apanhou com palmatória. Levou socos dos algozes, o que comprometeu sua arcada dentária definitivamente. Essas coisas todas vividas por um ser humano quando, esposando utopias de mudanças do mundo, contava com apenas 22 anos de idade e idealismo, fez-me debruçar sobre a imaginação da estupidez inominável desse estado de coisas cruéis, injustas e degradantes. E foi com base nos sentimentos que nutri ao ficar contemplando o fogo da minha lareira e ver o crepitar das labaredas a aquecer minha vida facilitada talvez pelos resultados do idealismo de pessoas corajosas e audazes como Dilma, que muito me emocionei ao ver na televisão ligada as notícias sobre a sessão do Senado da República que se iniciaria no próximo dia, e que possivelmente iria terminar com a sua retirada do poder pelas razões que todos têm notícias, ainda que nem todos possuam a mesma interpretação dos fatos.

Pois bem, sabem todos os que me conhecem pessoalmente ou por aqui apenas a minha posição firme em relação ao que, como a Presidenta, reputo como “golpe de estado”, sem querer impor essa noção a ninguém. Nos últimos anos tenho aceito a compreensão de Saramago, segundo a qual “tentar convencer alguém é uma forma de colonizá-lo”, e que por isso ele não procurava mais seduzir uma outra pessoa com seus argumentos para impedir uma espécie de “violência”. Eu o compreendo, ainda que desconfie que, não conseguindo fugir ao grande escritor que foi, tenha se encantado mais formalmente com tal afirmativa do que materialmente. Eu também talvez tenha encanto por essa noção, mas devo confessar que vivo há algum tempo lançando ideias a meus alunos, a meus amigos ou a quem quer que seja apenas pelo prazer da partilha. Se haverá, ou não, contaminação do outro, bem…isso não dependerá de esforços denodados que eu tenha feito, porque não os faço mais! Mesmo assim, não evito emitir minhas opiniões sempre que posso, porque também não acho que devamos vetar a nós próprios em nome do entendimento de que convencer o outro é algo recriminável. Talvez recriminável seja fazer esforços para que o outro pense e/ou sinta como nós, isso sim, mas não se vá daí crer que devamos tamponar-nos de tal forma que nada de nós transborde, pois que isso é também uma violência, a violência de sorvermos solitariamente as ideias e as emoções que nos animam. Não colonizar o outro, nesse sentido, não implica silenciar a nós mesmos. Quem me desejar seguir, que o faça; quem não, não. Simples assim.

Contudo, nessa ideia de partilha, está embutida a pretensão de argumentar, pois o diálogo é dialético; aliás, no plano do entendimento entre os homens talvez só o diálogo seja dialético, pois dele vem o novo, o que não havia antes dele, o diálogo, ser entretido. Dessa maneira, e talvez por vícios acadêmicos (venho de ministrar classes há trinta e quatro anos, sendo que já vou para meu trigésimo-primeiro ano como docente do Curso de Direito da Universidade Federal de Pelotas, aos quais somo docência em língua inglesa por mais de três anos), a mim apetece sobremaneira a discussão de ideias, a análise de pontos de vista, o recolhimento do que, sendo alheio, me auxilia a pensar, e também o intercâmbio emocional, o qual se pode dar de inúmeras formas, que vão desde a indicação de filmes, canções e obras artísticas de toda sorte. Argumento e deixo argumentarem sobre mim e o que deixo transparecer como pensamento ou sensação. Respeito profundamente o que dizem os outros. Respeito a educação que está contida na ideia de que a alteridade é fonte de qualificação, seja para aceitar, seja para recusar o que me diz o outro. Penso sempre haver primado pela vontade de elegância e pelo desejo de delicadeza, ainda que não possa absolutamente afirmar que a isso sempre atingi. Mas, enfim, procuro, especialmente com alunos, pois parto do pressuposto de que devo prosseguir o sacerdócio do magistério ainda que fora de sala de aula, mesmo que por aqui, esse arriscado meio, como disse atrás. Penso assim, ajo assim. Jamais fiz oposição a qualquer pessoa com a intenção de desqualificá-la, diminuí-la ou expô-la de mau jeito a considerações alheias. Como também já disse, não levo o Facebook à conta de consideração alta, empresto-lhe o tamanho que suponho ele tenha, mas é claro que sei, como todos sabemos, que ele pode ser um canhão posto às mãos, uma espécie de míssil de longo alcance, pois nem todos os olhos que sobre ele descem têm a contenção necessária para o exercício da moderação e do respeito. Sempre tive uma declarada vontade de não maltratar alguém por aqui e em qualquer outro meio ou através de qualquer outra forma. Mesmo quando tive de responder de forma mais dura a um e a outro sobre o que assacaram contra mim, procurei fazê-lo sem reproduzir o tom do ataque para que não me desassistisse alguma razão que pudesse eu ter.

Pois bem, vi que ao texto que escrevi foram direcionados comentários que estão a fazer com que eu, pela primeira vez desde meu parto nessa rede social (o que se deu há pouco mais de quatro anos), me sinta na obrigação de responder com tanta exclusividade e na forma de defesa pessoal de meu nome e do pouco que, com ele, consegui construir através da vida em termos de credibilidade de intenções e honradez. Duas pessoas me atingiram, e devo dizer que às duas sempre que pude dediquei o meu maior respeito e camaradagem, jamais emprestando a mim algum lugar nessas relações pessoais que me parecessem não tivesse eu o direito. Refiro-me ao Pedro Marasco e ao Fabrício MatielloMatielo. O primeiro eu conheço do Café Aquário e entretive com ele relacionamento amigável. É um artista plástico de ótima qualificação, pois praticamente tudo o que dele vi, gostei, e elogiei de forma sincera. O segundo foi meu aluno, e hoje é meu colega no quadro permanente da Faculdade de Direito da UFPel. Autor de livros jurídicos, vejo-o salientar-se na produção nacional de material sobre a dogmática jurídica. Diferentemente do primeiro, não posso opinar sobre a excelência das suas obras porque sou incompetente para uma boa análise do que diz, uma vez que cuido da cadeira de Filosofia Geral e Jurídica em nosso curso, e ele trata de direito civil, essencialmente. Quanto ao Pedro Marasco, sim, posso dizer de meu encanto ao ver-lhe as gravuras que produz, pois isso não requer compreensão técnica, mas apenas a sensibilidade diante de figurações gráficas. Lamentavelmente, contudo, senti-me agravado pela virulência explícita de um e pelo deboche desdenhoso de outro.
Na forma de comentário ao meu texto, intercaladamente, Pedro Marasco escreveu, inicialmente, algo que eu próprio ri, pois tinha humor, e humor eu aprecio muito.
Ele disse: – “Comparar Dilma Vana Roussef com Jesus Cristo!!!??? Que apelação, meu caro professor e xará! Que Deus te perdoe pelo sacrilégio!”.
Achei uma boa ‘sacada’, uma brincadeira saudável, e, de fato, achei engraçado. Ademais, vi o óbvio tom amistoso da sua consideração. Porém, pouco depois e ainda em relação à mesma mensagem, mas já em resposta a outra pessoa, ele fez uso de uma série de observações que, em crescendo, foram ultrapassando todos os limites da cortesia e apreço para revelarem, talvez de forma mais profunda e verdadeira, o que estava a sentir sobre o assunto que eu comentara, mas sobretudo sobre mim, que era o autor do texto (as discussões diretas com outras pessoas, que acabaram ocorrendo, deixarei à conta de serem levadas adiante pelas próprias, caso tenham, como eu, se sentido afetadas de maneira negativa, e por certo essas pessoas acabaram tendo reações incomuns a elas próprias em face de haverem ficado inconformadas com o teor do que ele escreveu).
Prosseguiu, então (e irei aqui pinçar apenas as frases dele que a mim dizem respeito, ou ao sentido do meu texto, uma vez que as diatribes com outras pessoas não me dizem respeito, ainda que me dê vontade de a elas também por aqui representar, mas não quero e não devo), escrevendo:
– “Não tenho culpa se aqueles que estão defendendo uma presidente comprovadamente mentirosa, corrupta e perturbada mental estão apelando para uma vitimização que chegou às raias do ridículo! Aceitem os fatos, sejam mais humildes que dói menos!”.
Depois, retomou o tom brando e amistoso, fazendo uma brincadeira que, entendi eu, era não mais do que uma brincadeira. E riu, e ri também. Disse:
– “Só falta agora o PT deixar de ser um partido político e virar mais uma religião tendo o Pedro Moacyr Pérez da Silveira como um dos seus pastores! Hahahahahahahahahaha.”.
Mas, depois, retomou definitivamente o seu tom desnecessariamente agressivo e incompreensível para a atmosfera criada entre todos que estavam participando da análise que esse texto acabou suscitando.
Continuou, então:
– “A vitimização piegas faz parte do teatro do absurdo montado pelos defensores do indefensável onde os comunistas são democratas, o corrupto, o destruidor da economia nacional, o ladrão do dinheiro público em benefício pessoal ou de um partido é elevado à condição de santo mártir! Este é o triste retrato da esquerda fanática brasileira.”.
E mais:
– “Vermes, fascistas e comunistas disfarçados de democratas.”.
E mais:
– “Bah… Que mimimi mais clichê! Coisa mais ultrapassada e simplória! Vai pra Cuba, Venezuela ou Coréia do Norte, cara! O que estás fazendo no meio de “fascistas”, “vermes” e “burgueses”?”.
E ainda mais:
– “Tens razão, F. de M. Os cães raivosos latiram, latiram, latiram e a caravana do impeachment passou!”.
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Fabrício Matiello, fez um comentário nessa postagem e outro no que escreveu um colega nosso da Faculdade de Direito. A conjugação de ambos apontamentos leva à inteireza de um pensamento que me ofendeu, e penso que a um bom número de colegas, porque fomos, por ele, chamados de colegas entre aspas e no diminutivo. “Coleguinhas”; aliás, “coleguinhas” que deveriam ser “lançados ao esquecimento”. Esse comentário se deu em face de uma comunicação acadêmica feita por um outro professor sobre assunto que, pelo que entendi, deveriam seus alunos ler, estudar. Tratava-se de um texto que analisava a crise econômica que o Brasil atravessa. Eu vou transcrever a postagem do colega e o comentário do Fabrício, e logo depois apresentarei o que ele disse sobre o meu texto (que, em si, é uma postagem deselegante, apenas, mas que, em conjunto com o que disse no outro comentário, revela que, sim, sou um desses “coleguinhas” que deve ser “lançado ao esquecimento”, o que, naturalmente, muito me entristece. Mais pela incapacidade argumentativa do que pela deselegância, claro, e pela amizade de anos, que parece não haver sido minimamente levada em consideração).
Vejamos! Disse a postagem original do nosso colega, ao divulgar material que seria, a seu ver, de bom auxílio para compreender temas que a disciplina enfrenta, conforme presumi:
– “Para os alunos do 6o. ano de Direito Empresarial II da UFPEL, assunto debatido em sala de aula sobre a crise econômica e financeira das empresas brasileiras no cenário atual, com dificuldade de honrar pagamentos e o significativo número de empregados perdendo seus empregos e o remédio judicial da Recuperação de Empresas com base na Lei 11.101/05, inclusive sobre a questão da “indústria” da Recuperação…”.
A essa divulgação, seguiu-se o comentário de Fabrício:
– “E tem “coleguinhas” defendendo com sofreguidão a Dilma Vana e o seu chefe. Vai entender! Já vão tarde. E que o esquecimento seja o destino deles. Todos.”.
E, após, a pequena observação que fez, na forma de comentário, ao “ecce femina”:
– “Chorem, amigo Pedro Moacyr. Chorem. 13 anos de trevas foram bastantes.”.
Como mencionei, o segundo comentário seria apenas uma troça de mau gosto, mas aglutinadamente ao outro, é bem mais do que isso, certamente.
Estou tendo o trabalho de responder de forma alongada aos dois porque pude ver que, na opinião de um e de outro, talvez na de ambos, faltou uma argumentação mínima para rechaçar o que escrevi e o que, numa situação mais específica, significo para um deles na Casa em que leciono há tantos anos e na qual fui dele professor. Sou, assim, alguém que está “apelando para uma vitimização que chegou às raias do ridículo!”. Essa minha “vitimização” é também uma “vitimização piegas” que “faz parte do teatro do absurdo montado pelos defensores do indefensável”. Aliás, também me incorporo ao “triste retrato da esquerda fanática brasileira”. E também sou um “verme”, ou um “fascista”, talvez um “comunista disfarçado de democrata”. “Mas, ainda talvez dê tempo de eu ir, juntamente com o meu amigo que se aborreceu com o que disse e lhe retrucou com igual dureza, para “Cuba, Venezuela ou Coréia do Norte”, ou quem sabe eu seja um “cão raivoso”, desses que “latiram, latiram, latiram”, mas “a caravana do impeachment acabou passando”!”.
Isso na percepção do Pedro Marascoo.
Na do Fabrício, eu sou um “coleguinha” (até acharia legal ser assim chamado, não fossem as aspas e o desejo de que eu desapareça para sempre junto com todos os que defendem a Presidenta da República). Enfim, sou um colega que sequer merece ser assim chamado e que “já vai tarde”.
Ok. Devo dizer que essas frases todas me entristeceram muito. Mas, não pensem que pranteio a mim próprio. Não! Muito longe disso! Meu lamento se dirige à constatação de que de um artista e de um professor universitário não brota uma só argumentação, uma só observação pertinente, uma só consideração respeitosa por quem possa diferentemente deles pensar. Triste arte, que tem no artista um obtuso; triste cátedra, que não tem na sua docência um professor que mereça a nominação de seu ofício tão nobre. O embrutecimento mental pode a todos atingir um dia, e acredito mesmo que isso ocorra com todos nós, mas quando não se trata de um embrutecimento ocasional, mas de uma torpeza ideológica das mais rasteiras e deslustradas, começo a compreender os motivos pelos quais muitos estão a apoiar o golpe de estado que estamos presenciando, a meu ver: não conseguem discernir sobre o que está se passando! É simples e é só isso. Mais não há, porque no agreste não há terra boa para frutificações sofisticadas. E há tantos outros com os quais divirjo, Pedro e Fabrício, que não fazem uso desses expedientes! Tantos! Se nos contraditamos, o fazemos justificadamente, e mesmo que em nós brote alguma impaciência, logo a argumentação apascenta os ânimos porque se vê que, do outro lado, há um ser humano pensando e sentindo coisas diversas, e tendo a consideração de dirigir-se a nós com o afago que não se pode perder apenas porque enxergamos o mundo de maneiras que não se encontram quase nunca ou até mesmo jamais. E quantos dentre nós, conhecendo a opinião do outro, deixa-o trabalhar sua convicção sem fazer uso da intromissão desmoralizadora, unicamente porque reconhece no outro a soberania existencial e não possui, no momento, alguma contraposição que permaneça no reino da elegância, e então faz uso do silêncio respeitoso e da amabilidade gentil que precisam permear as relações pessoais entre os homens para que não se machuquem? Quantos assim há? Inúmeros, meus caros amigos, inúmeros!
Eu sei que estou aqui a escrever sem esperança. Sei que não lhes mudarei a essência. Nem quero. Como lhes disse, impressiona-me negativamente a ideia de colonização do outro. Mas, sinceramente, gostaria que pudéssemos abrir um bom debate sobre a atual situação política, onde o que menos cabe é riso, escárnio e galhofa. Aliás, gostaria que nossa Casa, a velha Faculdade de Direito, pudesse usufruir de debates entre contrários com elevação do nível de análise, para que não nos restringíssemos a desconsiderar todo o apreço que a educação merece. Eu fico pensando no olhar de vocês para a figura alquebrada da Presidente Dilma, uma senhora que foi torturada sem piedade no passado, que suportou, altiva, a pressão de 14 longas horas de perguntas feitas por bocas treinadas para acusar e de ouvidos já feitos para não ouvir. Eu fico imaginando o pensamento de vocês diante de uma mulher de quase setenta anos que aí está a se defender de tudo e de todos. Na verdade, está a se defender de vocês, representados por um Congresso Nacional que não tem interesse na narrativa consentânea e nem na discursividade organizada, e que, no fundo, sabem vocês que ainda luta pela democracia em nome de vocês, ainda que da democracia vocês não gostem. Talvez não gostem – mas isso não posso afirmar – dos grandes avanços civilizatórios, como os que se vinculam à proteção das minorias. Talvez não apreciem as ditas “ações afirmativas”, como as cotas para afrodescendentes em várias situações hoje em nosso país. Talvez ainda não consigam defender as causas LGBTs. Talvez, ainda, sejam contra a rediscussão da função social da propriedade, preservando a inclinação conservadora, patriarcal e patrimonialista de nosso ambiente geográfico. Talvez não sejam sequer a favor de uma revisão educacional geral, que possa manter o sonho de uma pedagogia de natureza emancipatória, ou que não sejam favoráveis a uma maior horizontalidade social. Talvez sejam a favor da minimização do Estado e da maximização do mercado, para que nos apeguemos ainda mais a uma condição meritocrática que não pressupõe uma maior igualdade de todos perante a vida, desnivelando-nos a esmo e mediante os critérios do capital. Talvez por isso sejam aparentemente tão contra o socialismo, ou até mesmo contra as ideias socializantes de qualquer ordem. Talvez sejam contra o poder reativo das estruturas coletivas, contra as associações, contra os sindicatos, contra as ONGs. Talvez sejam a favor apenas de vocês mesmos! Isso eu não posso, contudo, afirmar, pois não conheço os argumentos de vocês. Eles não me chegaram por aqui. E nem por ali. E nem em lugar algum os vi, à exceção dessas frases soltas que vêm em lugar do que não consegue ter mais sustentação.
Eu sinceramente gostaria de me alongar ainda mais, mas não vou fazê-lo. Nada poderei provar. Apenas poderei desconfiar, e essa é a razão pela qual não afirmo nada sobre vocês, meramente cogito. Mão no queixo, olhos fixos num objeto qualquer, entristecido. Mas aqui, bem aqui estou, pronto ao diálogo produtivo, à contraposição de pontos de vista e à análise dialogada das coisas desse mundo, “vasto mundo, embora eu não me chame Raimundo”, pois quero contribuir não para as rimas, mas para as soluções. Sugestão do Drummond, que posso fazer? E, neste sentido, preciso de vocês. Não procuremos rimas, procuremos soluções. E ela somente virá se eu não for considerado um “fanático de esquerda” ou um “coleguinha que deve ser jogado no esquecimento”. Ela virá se vocês, a quem nunca esquecerei (e nem conseguirei, mesmo que eu queira, depois de ontem!), trouxerem o diálogo e o emprestarem livremente, abertamente, honestamente à dialética inerente à narrativa do mundo. Precisamos de um mundo melhor. Todos precisamos, evidentemente. Mas não será desdenhando, ou desconsiderando, o sofrimento que a Presidente Dilma já passou e está passando que conseguiremos pensar em alguma melhora. Se ela for levada em conta por vocês como sendo apenas uma mulher “comprovadamente mentirosa, corrupta e perturbada mental”, ou se considerarmos que ela “já vai tarde” rumo “ao esquecimento” eu tenho a impressão de que um mundo melhor não será conseguido com os préstimos de vocês. Não por objeção ideológica simples (essa é saudável), mas por desumanidade (essa não é saudável, a maldade não tem cura).
Mas, tudo bem! Não os quero mal, Pedro e Fabrício! Ao menos, acho que não os quero tão mal como pude entender me querem vocês. A não ser que tenham escrito com o juízo suspenso. A não ser que não tenham encontrado, após largo esforço, as palavras adequadas para se exprimirem. A não ser que se orgulhem da zanga e da aversão de que parecem se alimentar.
A não ser que tenham cometido com a mesma clareza os crimes de responsabilidade que a Presidenta Dilma cometeu, e agora também os neguem…
Mas, ela está no Gólgota, e vocês não!

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