“Tempos de obscurantismo” (clóvis veronez)

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Ninguém escolhe data ou circunstancias para nascer. Chegamos à vida em diferentes momentos e contextos. Alguns, por infortúnio ou sorte, presenciam o tempo em períodos singulares em que assistirão o perecimento de uma ordem apodrecida.

Assim, gerações humanas terão nascido em mundos diferentes. Esta, que habita a terra no alvorecer do século XXI, encontra-se marcada por uma contradição implacável ao humanismo e a própria vida no planeta.

Quero, tão somente, especular algum sentido para o tempo de agora e, de alguma forma, questionar sobre o sentido da individualidade em tal contexto histórico.

Antes que o faça, torna-se necessário esclarecer que este “Tempo de obscurantismo” é um conceito tomado da filósofa Hannah Arendt ,ao referir-se aos períodos em que estruturas tradicionais de pensamento que sustentam a uma determinada sociedade começam a ruir.

Ao desmoronar, destas estruturas, poder-se-ia intuir um avanço dialético, no entanto, de maneira menos idealista podemos pensar que esse “desmonte” possa produzir nada mais do que angustia e sofrimento, conduzindo a estados de crise onde os indivíduos encontram-se desamparados, solitários e sem proteção.

São nos momentos de crise das estruturas, aqueles em que a ordem social e política, como uma esfera de ferro, mantêm-se em movimento somente em sua própria inércia.

Para as novas gerações é simplesmente impossível cimentar suas práticas sobre os mesmos princípios que orientaram aquelas que lhes antecederam, pois se encontram diante de realidades (sociais, políticas e psicológicas) explosivamente conflitantes.

Os atores do amanhã, já não creem em seus “representantes”. Na melhor hipótese, os percebem como incapazes de produzir, na prática seus discursos desgastados sobre o bem comum, o que dirá um alivio para as populações alienadas.

Deixaram, também, de acreditar nos partidos políticos como espaços de participação ou cambio social. A política assemelha-se a polícia, em vez de gerar confiança produz o medo.

O que podemos fazer, diante desta terrível perspectiva nestes “tempos de obscurantismo”?

Para muitos, a resposta tem sido retirar-se; melhor dito: fechar-se sobre si mesmo e afastar-se do mundo.

E por que não?

Esta tem sido a resposta de muitas religiões frente à realidade da vida, ou de muitos filósofos que vislumbram no mundo e nos “outros” a fonte de toda inautenticidade.

No entanto, existe outro mecanismo diferente de fechar-se para o mundo. Em “tempos de obscurantismo”. Quando as coisas alcançam um extremo em que as pessoas já não podem escapar e a realidade sabota qualquer intenção de isolamento, o que ressurge é a fraternidade – o afeto humanista.

No Brasil atual, que atravessa um doloroso “tempo de obscurantismo”, existe muito a ser construído e reconstruído. Parece-me essencial a reflexão sobre novas formas de participação direta. É necessário reinventar a organização política de forma a reforçar sua vida interna em processos deliberativos, ampliados, da consciência cidadã.

Isso e muitas outras coisas precisam ser reinventadas.

Ainda outras, não tenho dúvida, teriam que desaparecer, por não mais poder adequar-se a nova realidade e expectativas dos novos atores.

Ou isso, ou alargar a distancia entre nós e prolongar os “tempos de obscurantismo”.

O futuro será participativo!

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