Eis o encanto das utopias e a graça dos sonhos (por Pedro Moacyr Pérez da Silveira)

utopia

A ciência diz mais de meu corpo. A religião diz mais de meu espírito. Mas eu, que nunca fui consultado, não sei a quem devo me apresentar. E acho que nem tenho mais interesse nisso, de significar algo à minha consciência. Ou de significar algo a consciências alheias. Ou até mesmo de significar. Não há sentido em querer ser alguém, salvo se levarmos em conta o imenso desespero diante de uma identidade improvável ou sem importância. Mas, assim tudo parece ser. Então, só vivo, que mais do que isso não se tem e nem há. O resto é engenho e poesia. Salve a imaginação, apenas ela merece a emoção do deslocamento que fazemos por seu intermédio. A vida em si mesma é estúpida. Bom mesmo é o que não somos e nem seremos, mas que vivemos na esperança de podermos ser. A esperança é um ninho quente e uma espécie de alimento para não estarmos nem aqui e nem agora, mas nalgum lugar impossível, irresistivelmente atraente e num tempo vago. Desconfiem de quem só fala na realidade ou sobre ela, pois bom mesmo é lidar com quem nos traz mundos excêntricos, verdades impraticáveis e ilusões maravilhosas. Como num circo, vivamos como quem vive num circo, e o mundo será tanto melhor quanto mais improvável e por isso mesmo mais fortemente pretendido. Eis o encanto das utopias e a graça dos sonhos. O resto é dinheiro, esse verniz tolo com que disfarçamos a má mobília das casas de areia. O melhor está dentro de nós. Só dentro de nós.

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