A casa grande se restabeleceu com muita força (Mino Carta)

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Demetrio Carta, conhecido como Mino Carta, de 83 anos, é um jornalista, editor, escritor e pintor italiano, naturalizado brasileiro. Foto: Mídia NINJA

Demetrio Carta, conhecido como Mino Carta, de 83 anos, é um jornalista, editor, escritor e pintor italiano, naturalizado brasileiro. Foto: Mídia NINJA

Há mais de 50 anos atuando na imprensa nacional, o italiano Mino Carta é conhecido por seu espírito crítico e competência. Participou da criação das revistas semanais Isto É e Veja, que representam hoje ideologias opostas às suas, e passou por diversas redações. Para garantir sua independência fundou há mais de duas décadas a revista CartaCapital, onde é editor chefe de redação e escreve semanalmente sua coluna sobre o cenário político brasileiro.

O Fazendo Media entrevistou o também escritor no lançamento de seu mais novo livro, A vida de Mat, da editora Hedra, antes do debate realizado numa praça da zona sul carioca. Na conversa, o veterano jornalista fala sobre a atual conjuntura política, as virtudes e erros de Lula e analisa a mídia tupiniquim. Segundo ele, aquilo que chama de casa grande, que representa os interesses de uma elite nacional, voltou ao poder com veemência e fará com que nosso país volte ao seu passado dependente, mais desigual e injusto.

Como você vê o cenário político, o que está acontecendo historicamente no Brasil?

É o retorno à colônia, somos o país do passado. Já fomos considerados um país do futuro, houve um raríssimo e curtíssimo instante, um suspiro, que fomos um país do presente e hoje caminhamos vigorosamente no sentido de sermos finalmente o que merecemos ser: o país do passado. A esquerda brasileira errou demais ao longo de sua história, somente em momentos muito raros mostrou alguma capacidade de chegar ao povo brasileiro. Quando teoricamente chegou ao poder, na vitória de Lula em 2002, fez algumas coisas e deu alguns passos com a aplicação de uma política social. Mais importante ainda foi criar uma política exterior independente, não mais entregue às vontades do Tio Sam. Isso é inegável, mas em compensação tivemos Meirelles como chefe do Banco do Central, que aliás continua aí e é o homem de todas as estações. Como a esquerda pode permitir uma situação dessa? Se fosse vigorosa teria condições de impedir, mas isso não aconteceu. Com a Dilma reeleita Meirelles foi Ministro da Fazenda, o mesmo posto que ocupa no governo Temer. A mim da pena essa esquerda de enganação. O próprio Lula não reagiu a tudo que estava a acontecer, ainda antes da reeleição de Dilma ele deveria ter entendido. Mas se deu a inércia, uma fatal resignação, uma entrega. Temos de ser realistas diante dos fatos.

Você é contra a Lava Jato?

Não sou contra um combate sensato, conveniente à corrupção, isso seria ridículo se dissesse. Mas sou contra as irregularidades da Lava Jato, contra a prepotência do juiz Moro, contra o comportamento de quem diz que Lula é culpado porque ele tem a convicção de que é culpado. Sou contra esse desrespeito à lei, sacramentado de mais a mais pelo próprio Supremo Tribunal Federal, que é uma das grandes vergonhas no Brasil: um país sem justiça.

A forma como está sendo conduzida a operação pode abrir precedente para um arruinamento da democracia e suas instituições?

Acho que a democracia já se foi, se algum dia aportou ao país. Quando Lula começou a dar alguns passos no caminho de uma política social, criou com ajuda inestimável do chanceler Celso Amorim uma política realmente independente… Então, houve momentos com vagos sinais em que tivemos a possibilidade de algum dia chegar à democracia, que sempre no Brasil foi dificultada e impedida pelo monstruoso desequilíbrio social que aceitamos como se fosse escrito nas estrelas. É extremamente triste tudo isso, desesperador, um país onde morrem assassinados mais de 60 mil cidadãos todos os anos. Mais de 40% do território nacional não é alcançado por saneamento básico, um país que nunca teve um Welfare State, e quando teve alguma coisa nesse sentido foram tentativas pobres, medíocres, insuficientes. Nunca houve democracia na verdade, ocorreram tentativas miseravelmente frustradas para alcançá-la.

O Coletivo À Esquerda da Praça São Salvador, promoveu o debate "Brasil Atual", no Rio de Janeiro, entre os jornalistas Mino Carta e Paulo Henrique Amorim, em um diálogo sobre a conjuntura do país em meio aos retrocessos. O lançamento dos livros "A vida de Mat", escrito por Mino e "O quarto poder", de PHA, também estavam entre a atividade. Foto: Mídia NINJA

O Coletivo À Esquerda da Praça São Salvador, promoveu o debate “Brasil Atual”, no Rio de Janeiro, entre os jornalistas Mino Carta e Paulo Henrique Amorim, em um diálogo sobre a conjuntura do país em meio aos retrocessos. O lançamento dos livros “A vida de Mat”, escrito por Mino e “O quarto poder”, de PHA, também estavam entre a atividade. Foto: Mídia NINJA

Qual o pano de fundo, os interesses que estão por trás do que está ocorrendo?

Os interesses que chamo da casa grande, os interesses do dinheiro, que domina uma minoria que tem realmente o poder e o detém de forma firme. Mesmo porque a nossa esquerda é ridícula, incapaz, incompetente, como tantos no Brasil. Mas ela consegue ser pior que a direita, que manda e está aí. Uma quadrilha muito bem amparada está no poder hoje no Brasil a serviço da casa grande. Evidentemente é temporária, tem prazo, que não será longo, mas a casa grande se restabeleceu com muita força. Voltou a fincar seus alicerces e esta aí a secundar a confirmação da senzala. Qual o sonho da casa grande? Manter a senzala onde está e ser satélite súdito dos EUA, e por ora vai conseguir. Vai lotear o país, vendê-lo. Voltamos a um Brasil colônia, que se oferece ao capital estrangeiro para praticar o famoso entreguismo que caracterizou largas partes do nosso passado. Esse é um governo totalmente entreguista. Não temos as condições de resistir: por mais alento, ímpeto interior, na verdade estamos numa situação de impotência muito clara e temos de ter noção disso.

Quais as perspectivas, os sinais apontam para qual direção?

Para a pior possível, o retorno à colônia. Estamos voltando às origens, a venda e loteamento do país. Ontem (05/10) a Câmara abriu o pré-sal, aí dizem: precisa de investimento estrangeiro. Mas é claro, eles virão comprar o pré sal! E tudo aquilo que esse governo pretende privatizar, porque privatizar no Brasil significa entregar ao capital estrangeiro.

Qual a sua avaliação sobre o resultado dessas eleições municipais?

Prova a incompetência da nossa esquerda. Sua incapacidade de enfrentar os problemas que realmente existem e de motivar o eleitorado para entrar em cena e dizer o que realmente deseja. Dória ganhou nos bairros pobres em São Paulo por larga margem, essa é a situação.

Tentaram promover uma reforma política, que com esse Congresso não passa de jeito nenhum…

Esse Congresso é uma quadrilha, nem Congresso existe, não existe nada. O poder democrático se baseia em três pilares: o executivo, o legislativo e o judiciário. Não funciona nenhum, então que democracia?
Os mecanismos que compõem nossa democracia precisam ser repensados em termos de participação da sociedade?
Teria sido preciso repensar esses mecanismos políticos quando talvez desse tempo, mas a essa altura não há tempo algum. A situação é a pior possível: estamos voltando a ser uma colônia do Tio Sam. É o que a casa grande aprecia, para ela é tudo muito cômodo porque tem as costas quentes e entrega o poder ao Tio Sam que se encarrega de tudo.

O que você acha da figura de Lula?

"Voltamos a um Brasil colônia, que se oferece ao capital estrangeiro para praticar o famoso entreguismo que caracterizou largas partes do nosso passado", destaca o jornalista. Foto: Mídia NINJA

“Voltamos a um Brasil colônia, que se oferece ao capital estrangeiro para praticar o famoso entreguismo que caracterizou largas partes do nosso passado”, destaca o jornalista. Foto: Mídia NINJA

O Lula é um amigo muito querido há 50 anos, fui o primeiro jornalista que escreveu uma capa a seu respeito em fevereiro de 1968. A chamada na Isto É, dizia: “Lula e os trabalhadores do Brasil”. Ali estava a semente do Partido dos Trabalhadores, uma perspectiva que me animava muito. Um grande partido autenticamente de esquerda, com a capacidade de ver em 1989 que o muro tinha caído e o conflito a que o mundo estava exposto tinha mudado, mas que as ideologias continuavam de pé ao contrário do que a casa grande pretende diariamente por meio da nossa mídia. Mudaram as circunstâncias, mas isso não determina o fim da ideologia. Para essa gentalha que está no poder no Brasil ideologia significa comunismo, significa ser vermelho, ser criminosamente subversivo. Então é muito simples dizer que acabou.

Mas teve certos entendimentos que o Lula perseguiu a partir da campanha eleitoral que o levou a vitória em 2002 ou a famigerada carta aos brasileiros… O Lula é o sonhador da conciliação, sem ter percebido que a conciliação no Brasil só é a das elites, só entre eles. Não há a menor, a mais pálida chance de conciliação. Pense em algo que figura entre os méritos do governo dele, como tirar da miséria 40 milhões de brasileiros. Mas isso não cria a consciência da cidadania, essas pessoas ao saírem da miséria pavorosa que caracteriza o país que a nossa elite criou queriam ser da casa grande, consumir doidamente. A consciência da cidadania, a percepção da condição a que tinham sido relegados pelos senhores do poder, nada, zero. Esse é o problema, por isso o acordo é impossível. Isso num país que mereceria ser o paraíso terrestre, não há outro igual no mundo tão favorecido pela natureza, tão determinado para um futuro glorioso. O Brasil não foi por acaso o país do futuro na fala dos estrangeiros. Era por um brevíssimo instante um país do presente, e hoje é o país do passado.

O Lula tem um poder de fogo do qual não se dá conta, se não teria reagido. Não devia ter deixado Dilma fazer a reeleição, mas não quis porque a tinha escolhido e seria uma punhalada intervir com prepotência naquele momento. Cometeu um erro, o interesse do país indicava a necessidade de um gesto de prepotência por parte dele. Ao mesmo tempo, entendo a resistência moral a esse gesto. A conclusão de tudo é que Lula podia ter impedido com a força que tem, e não quis.

Você tem uma revista, e o Temer acabou de entrar cortando as verbas para as mídias alternativas e boa parte da imprensa mais crítica. Como você vê a mídia nessa conjuntura?

É uma lição para o PT, que no poder aplicou critérios técnicos, uma coisa terrível. A mídia brasileira é a pior do mundo, não somente porque é de péssima qualidade, porque o pessoal não sabe escrever, mas também tem uma lida dificílima com o vernáculo. Talvez esse seja um dos aspectos menos importantes, mas o segundo ponto é que a mídia está a serviço e é a porta voz da casa grande.

Como resistir agora a tudo isso?

Paulo Henrique Amorim expressou uma ideia de uma Frente Ampla, que eu não acredito. Mas a ideia de um golpe dentro do golpe, essa é uma perspectiva aceitável e possível. Não digo que é provável, porque me faltam elementos para falar com a devida honestidade. Golpe dentro do golpe para mandar pra casa o senhor Michel Temer, aliás não sei quanto tempo ele dura. A chance que a esquerda brasileira tem e pode se apresentar até mesmo na sombra do Lula depende da sua capacidade de chegar ao povo brasileiro, que está acostumado a viver na senzala. Incapacitado no fundo da sua cidadania depois de três séculos de escravidão, que em boa parte ainda não acabou, o povo brasileiro tem que ser sempre relevado. Ideal e busca de igualdade que, como diz [Norberto] Bobbio, é a razão pela qual a esquerda deve existir. Se chegarmos a motivar o povo, aí as nossas chances crescem porque o povo precisa de líderes. Nunca houve na história da humanidade uma revolução sem líderes, e o Lula tem que ter a noção da sua capacidade de liderança.

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