Diálogo cristãos-marxistas: olhar compassivo à dor dos pobres (outras palavras)

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O tema do diálogo entre cristãos e marxistas esteve muito presente nas relações entre ambos nos anos 60 e 70 do século passado, especialmente na América Latina, berço da Teologia da Libertação.

Creio que é um tema urgente novamente, dada a crise mundial dramática, excludente e cruel com a quase totalidade dos seres humanos, dos animais, plantas e, em verdade, com todo o planeta. O Papa Francisco colocou esta crise no centro da agenda da Igreja e tem contribuído decisivamente para o diálogo em torno da urgência –sua encíclica, Laudato Sii, de maio de 2015, é um marco no tema, e não apenas para católicos.

É assunto de hoje, para hoje. Agora mesmo, entre 31 de março e 1 de abril de 2016, houve um primeiro simpósio entre católicos e marxistas europeus organizado pela Congregação do Vaticano para a Educação Católica, a rede de esquerda marxista Transform Europa e o movimento católico Focolares, no Instituto Universitário Sophia, perto de Florença, Itália. Se você quiser, pode ler um breve relato do encontro  escrito pelo intelectual marxista Michel Löwy -as atas ainda não foram veiculadas). Clique aqui para ler o relatório de Löwi.

Sim! É urgente. Para cutucar os católicos, católicas, marxistas e pessoas de esquerda de uma maneira geral, reproduzo a seguir uma preciosa seção do livro “Recuperar a Salvação”[1]. Seu autor é o sacerdote galego Andrés Torres Queiruga, um dos grandes formuladores do cristianismo da virada do século 20 para o 21. Nome respeitado mundialmente tanto quanto combatido pelos conservadores, a direita católica que move oposição ao Papa. Sofreu uma absurda censura pública da Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola em março de 2012, exatamente um ano antes da eleição de Francisco que abriu as janelas da Igreja. Leia, se quiser, a reportagem publicada à época por El País (aqui) e o comentário do teólogo espanhol Xabier Pikaza Ibarrondo radicalmente cristão e, portanto, progressista e humanista como Queiruga. Clique aqui para ler o comentário –nele está a íntegra da nota de condenação dos censores espanhóis.

O livro de Queiruga de quem tomei a seção abaixo foi escrito originalmente em galego em 1977, traduzido para o espanhol em 1979 e teve sua primeira edição no Brasil em 1999. É digno de nota que o texto não envelheceu. Ao contrário. O processo hiper aceleração do capitalismo e de concentração de riqueza sem precedentes vivido nos 40 que nos separam da primeira escrita do livro tornaram as formulações ainda mais atuais.

De certa forma, é possível mesmo imaginar um aporte da teologia católica contemporânea às formulações marxistas tradicionais. Explico.

O título da seção que transcrevo abaixo é “Jesus, o ‘proletário absoluto’”.  Queiruga parte da ideia marxista do proletariado fabril “uma esfera que possui caráter universal devido a seus sofrimentos universais” (veja a citação completa deste trecho de Karl Marx no fim deste post) para o diálogo com a ideia do pobre como “ser universal” a partir de Jesus Cristo, ele mesmo o pobre universal. A rigor, com a revolução nos processos produtivos a partir da segunda metade do século 20 e a “desconstrução” do proletariado fabril, talvez seja possível pensar numa universalidade de despossuídos, aqueles 99% do planeta que estão à margem do processo econômico, social e da administração da justiça no capitalismo. Assunto para muitas conversas e novos fóruns como o de Florença. Isso não significa buscar qualquer “vantagem” teórica ou conceitual, pois a Igreja deve, como é o espírito de Cristo compreendido profundamente por Francisco, buscar este diálogo em humildade, consciente de seus equívocos e traições aos pobres a Jesus, ao longo da história.

Última observação sobre o texto: fiz pouquíssimas inserções, todas contidas entre colchetes [ ].

JESUS, O “PROLETÁRIO ABSOLUTO”

“O título deste item pretende sugeri-lo, aludindo a uma das intuições mais profundas e humanas de Karl Marx. (Com o qual, ademais, conseguem-se dois objetivos: em primeiro lugar, reconhecer uma dívida, pois foi lendo as reflexões de Marx sobre o papel do proletariado que descobri a transcendência deste ponto; e, em segundo lugar, fazer retroagir a intuição marxiana a suas origens bíblicas, onde indubitavelmente tem seu alimento -pouco importa se consciente ou inconsciente).

Para começar, é preciso notar que não de trata agora de insistir tanto nos sofrimentos de Cristo quanto no gênero global de vida que os demarca e, afinal, os origina. Jesus foi pobre: o símbolo da gruta onde nasceu e a túnica-único bem material que lhe restara- sorteada ao pé da cruz delimitam uma existência de absoluto desprendimento: o ‘Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça’ (Mt 8,20; Lc 9,58). Aliás, o Evangelho deixa bem claro que não é questão de ‘ascetismo’ -ao contrário do Batista, o Filho do Homem ‘come e bebe’ (Mt 11,19; Lc 7,34)-, mas sim de voluntária e ativa identificação com a sorte dos pobres; não é questão de casualidade, mas de decisão estrita e coerente. Se algo tem de original a proclamação de Jesus, é seu universalismo sem exceção, sua radical oposição a exclui da graça do Reino determinados grupos de pessoas. Daí vem seu ‘comer com os pecadores’, sua defesa das prostitutas, sua pregação aos pobres… E, como na proclamação de Jesus, suas palavras não são mais que a explicação de sua vida, disto resultou que assumisse para si uma existência pobre, à margem. Era o único modo verdadeiro de proclamar um evangelho realmenteuniversal e de salvar realmente a todos.

Tentemos esclarecer isto um pouco mais. O ser humano é um ser indigente. Tudo para ele é pouco e tudo lhe parece pouco. Tende ansiosamente a açambarcar, a converter todo objeto em posse, e toda posse em privilégio. Ou seja, tende a estratificar a sociedade criando centros, grupos ou modos de vida privilegiados, às custas -necessariamente- dos outros. O homem quebra a universalidade do homem, e tudo torna-se desigual: a comida, o dinheiro, o poder, o saber… não podem mais ser universais: tudo está ou acaba estando sempre açambarcado. O próprio ser-homem fica dividido em categorias, castas, classes…

Nestas circunstâncias, a universalidade decresce à medida que se vai subindo na escala social. Um exemplo vulgar: se me dirijo a pessoas com um nível de vida desafogado, não posso pensar em todos os homens, mas  antes na pequena ou média burguesia; se me dirijo a pessoas que contam seus ganhos em cifras de milhões, tenho que reduzir ainda mais o círculo, limitando-o ao número relativamente pequeno da grande burguesia; se me dirijo aos que têm ganhos da ordem de bilhões, o círculo se fecha ao redor do pequeno núcleo das grandes famílias financeiras. E, pelo contrário, quanto mais reduzido for o nível de renda das pessoas a quem me dirijo, mais aumentam estas em número: no limite, se eu não exigir nenhuma renda, poderei encontrar-me com todos os homens. A universalidade está na pobreza.

É o que Marx afirma do proletariado como classe social, que possui caráter universal por seu sofrimento universal, que não tem mais ‘título’ do que o de ser ‘humano’; por isso, a libertação do proletariado aparece como ‘libertação de todas as demais esferas da sociedade’.  [leia ao final a íntegra da citação de Marx, extraída da Contribuição à crítica da Filosofia do Direito de Hegel]

Mas deixemos agora a questão sociológica de se uma classe social por acumular em si a negatividade universal da sociedade; em qualquer caso, o diagnóstico é certeiro em nível moral e de princípio e, sem dúvida, vale para que compreendamos a universalidade de Jesus de Nazaré, a única universalidade que é possível dentro da história: a do sofrimento, a de não ter nada, a de dar absolutamente tudo o que se possui. Jesus, de fato, é certamente o total, o universal, o absoluto “proletário”, e por isso pode identificar-se com todos os homens e salvar a todos nós.

Que aqui não se trata de uma metáfora artificiosa, a tradição bíblica o demonstra explicitamente. Desde o início, a comunidade cristã reconhece Jesus em realização plena da figura do Servo de Iahweh, que acumula a tal ponto a negatividade humana que “já não parecia mais gente, tinha perdido toda sua aparência humana” (Isaías 52,14); e bem por isso pode salvar a todos: “caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites; e por suas feridas é que veio a cura para nós” (Isaías 53,5). [Leia ao final o Quarto Canto do Servo Sofredor do profeta Isaías]

***

Paulo, embora numa perspectiva diferente, queria explicar a dialética humilhação-exaltação de Cristo, e elaborou reflexivamente esta ideia. Este é o significado profundo do tema da kénosis (Fl 2,5-11), palavra grega que significa “esvaziamento”: Jesus esvaziou-se totalmente de si mesmo, de sua “condição divina” (que o situaria num lugar único), e assumiu a “condição de escravo”, que, situando-o no último degrau da escala humana, permitiu-lhe ser “simplesmente homem” em toda a universalidade; e por isso nos salvou (Paulo segue aqui outra linha: por isso foi exaltado, constituído Senhor; mas já sabemos que essa também, precisamente, a nossa salvação).

A teologia atual, ao chamar Jesus de “homem para os outros” expressa uma intuição certeira: o que se dá totalmente, o que não toma nada para si, o que se universaliza do único modo possível: dando-se totalmente a todos.

Se muitas das considerações sobre este árduo e profundo tema tivessem levado em conta este aspecto, seguramente ter-se-iam evitado muitas discussões inúteis. E se o tema do sofrimento e do sacrifício tivesse sido enfocado nesta perspectiva, ter-se-iam desvanecido certas tentações de “dolorismo”[2] e teria aparecido, ao contrário, a profunda seriedade do trabalho pela justiça, da luta contra a pobreza, da busca da verdadeira unidade.

Em todo o caso, o sofrimento de Jesus é assim compreendido em sua verdadeira perspectiva: não como fruto da casualidade cega nem como preço a ser pago a um Deus tomado pela ira, mas antes como verdadeiro rosto do amor universal, que quer chegar a todos e que por isso se situa no ponto mais baixo: “aos pés” da humanidade (cf. Jo 13,5-14). Deste modo, consegue a única –embora real e verdadeira– universalidade que é possível conseguir na história: a do sofrimento, a da grande –e também única­–  “internacional dos humilhados e ofendidos”.

Esta mesma universalidade é a que entrega sua Igreja no mandamento do amor e a que, inclusive, conservará para sempre, durante toda a eternidade –o Ressuscitado conserva os sinais de sua paixão (Jo 20,27 e Ap 5,6-9.12). Só que, após a morte, uma vez rasgado o véu da carne, o Ressuscitado recebe, em favor da Igreja e da humanidade, a universalização perfeita, que permite identificar-se não apenas negativamente, como também positivamente com todos os seres humanos. Eis um dos significados fundamentais da ressurreição.

***

Trecho da Contribuição à crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de Karl Marx, citado por Queiruga:

“… na formação de uma classe com correntes radicais, de uma classe da sociedade civil  que não é uma classe da sociedade civil; de uma classe que é a dissolução de todas; de uma esfera que possui um caráter universal, devido a seus sofrimentos universais, e que não reclama para si nenhum direito especial, porque não se comete contra ela nenhum dano especial, a não ser o dano puro e simples; que já não pode invocar um título histórico, mas somente seu título humano; que não se encontra em nenhuma índole de antítese unilateral com as consequências, mas numa antítese total com as premissas do Estado (…); de uma esfera, por último, que não pode se emancipar sem emancipar-se de todas as esferas da sociedade e, ao mesmo tempo, emancipar a todas elas; que é, numa palavra, a perda total do homem. Esta dissolução da sociedade como classe especial é o proletariado”.

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Trecho do Quarto Canto do Servo Sofredor ( Isaías 52, 13-14; 53, 1-8) mencionado por Queiruga:

Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido;
  sua ascensão será ao mais alto grau.
Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo
  – tão desfigurado ele estava que não parecia
  ser um homem ou ter aspecto humano  (…)
Diante do Senhor ele cresceu como renovo de planta
  ou como raiz em terra seca.
Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos,
  não tinha aparência que nos agradasse.
Era desprezado como o último dos mortais,
  homem coberto de dores, cheio de sofrimentos;
  passando por ele, tapávamos o rosto;
  tão desprezível era, não fazíamos caso dele.
A verdade é que ele tomava sobre si nossas
  enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores;
  e nós pensávamos fosse um chagado,
  golpeado por Deus e humilhado!
Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados,
  esmagado por causa de nossos crimes;
  a punição a ele imposta era o preço da nossa paz,
  e suas feridas, o preço da nossa cura.
Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas,
  cada qual seguindo seu caminho;
  e o Senhor fez recair sobre ele
  o pecado de todos nós.
Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca;
  como cordeiro levado ao matadouro
  ou como ovelha diante dos que a tosquiam,
  ele não abriu a boca.
Foi atormentado pela angústia e foi condenado.
Quem se preocuparia com sua história de origem?
Ele foi eliminado do mundo dos vivos;
  e por causa do pecado do meu povo
  foi golpeado até morrer.

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[1] Queiruga, Andrés Torres, Recuperar a Salvação – por uma interpretação libertadora da experiência cristã, Paulus, São Paulo, 2005. A seção reproduzida está entre as páginas 186 e 191

[2] Dolorismo é um concepção de correntes da teologia cristã, de fundo conservador e moralista, que via o ser humano entregue ao dualismo entre corpo (mal) e espírito (bem). O caminho proposto por esta corrente era o de “vencer a carne”, nossa “inimiga”, com práticas de restrição e autoflagelação, com a valorização da dor em sim mesma como centro da espiritualidade cristã –o que levou a verdadeiras patologias e ao uso de instrumentos de tortura como o cilício. Esta concepção ainda arraigada em largas fatias dos crentes católicos, ainda que de maneira não formulada, e é praticada em algumas organizações da direita católica como a Opus Dei (leia aqui a defesa do uso do cilício por eles próprios).

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