Grandes Temas : “O progresso das ciências e das artes contribuiu para o progresso da Humanidade?”

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por clóvis veronez

“O progresso das ciências e das artes contribuiu para o progresso da Humanidade?”. Esta foi a questão levantada pela Academia de Dijon, a qual Jean-Jacques Rousseau tentou esclarecer com a sua obraDiscurso Sobre a Origem e Fundamento da Desigualdade entre os Homens, de 1754. Logo de imediato, a resposta do filósofo suíço à pergunta é negativa.

ROUSSEAU

Tudo o que diz respeito à ciência e à arte em geral diz respeito à vida do homem em sociedade e, portanto, é artificial. Há uma clara dicotomia entre “ser” e “parecer” no discurso rousseauniano: tal como uma peça de teatro, na vida social o “parecer” ou persona (palavra latina que significa o disfarce ou a aparência exterior de um homem, imitada no palco) sobrepõe-se ao “ser”.

Thomas Hobbes (talvez o autor que Rousseau mais contesta) dizia, no Leviatã, que uma pessoa “é o mesmo que um ator, tanto no palco como na conversação corrente”. E personificar é representar, seja a si mesmo ou a outro.

Sucede que um homem no seu estado primitivo, digamos assim – sendo bom ressalvar que o estado de natureza em Rousseau é inexistente ou, melhor, é apenas uma hipótese que deve servir como a referência que permite julgar moralmente a degradação do homem social – goza de umpetite naturelle, uma espécie de instinto ou atitude de respeito pelo outro.

É precisamente isto que está na base da gestação dos sentimentos naturais. Contudo, ao encontrar-se já na dita sociedade civil, os homens abandonam o amor-de-si, uma tendência para a sua autoconservação (oconatus espinosista) e abraçam o amor-próprio, o egoísmo ou princípio de exclusividade.

O homem, que havia nascido livre, vive agora, em toda a parte, aprisionado. É desta forma que Rousseau enceta o seu Contrato Social, precisamente para mostrar que o “bom selvagem” acaba por dar lugar ao homem escravizado. E se a moralidade nasce das paixões e dos sentimentos naturais, o vício ocorre como um desvio da própria natureza.

No fundo, Rousseau afirma que os homens moralmente mais valiosos são os mais simples, aqueles que desconhecem a exuberância e vivem nos campos, colhendo flores e regozijando-se com o calor do sol.

Ainda assim, o ser humano é dotado de uma capacidade de aperfeiçoamento que pode possibilitar um reencontro com o seu eu primitivo. Para isso é necessário que todo o homem ouça a voz da verdade, ou seja, deixe que a razão desperte para depois o coração falar e/ou levar à ação. Se para Kant havia duas coisas que lhe enchiam a alma de espanto – o céu estrelado acima de si e a lei moral dentro de si, sendo que o primeiro se deve submeter à segunda, para Rousseau o coração deverá subordinar-se imperativamente à razão.

É mais certeiro Pascal com a frase: “o coração tem razões que a razão desconhece”. Isto chama a atenção para a inteligência intuitiva, e a contribuição que o coração dá para ela. E de fato, se reparamos no sentido da palavra “palpite”, como, por exemplo, quando desconfiamos que algo não está a bater certo, verificamos que a palavra deriva do palpitar que sentimos no peito nessas circunstâncias. Penso, para efeito, referir aqui esta passagem uma vez que a dita remete novamente a nossa atenção para o cerne do problema levantado pela questão da Academia com a qual começamos o nosso texto.

De fato, Rousseau rejeita a ciência e as artes, mas a verdade é que ambas contribuem, sim, para o desenvolvimento da Humanidade, cada uma, claro está, à sua maneira. Seja no campo da astronomia, onde um bom astrónomo se deixa levar pela sua intuição de forma a tentar descobrir novos corpos no sistema do universo, seja no campo da poesia, onde qualquer grande poeta usa a razão e o coração para escrever o que lhe vai, de momento, na alma, há sempre uma tentativa de conciliar mente-corpo por forma a levar a cabo um determinado tipo de ações.

Já para não falar que, em qualquer ciência ou em qualquer arte, deparamo-nos com um enorme talento por parte dos seres humanos que evoluem, quanto mais não seja por se tornarem em si mesmos seres um pouco mais realizados.

Se o palpitar que possibilita aos homens construírem mundo (uma peça de teatro, um quadro, um tema musical, por exemplo, é mundo) não é progresso, então, o que é?

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