Aparelhos ideológicos de Estado: sobre Althusser e os mesmos (Pedro Moacyr Pérez da Silveira.*)

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Exatamente no ano em que cheguei em Pelotas para realizar meus estudos superiores, em 1979, eu comprei um livro que ia ao encontro da efervescência política que passei a viver por aqui, especialmente dentro do Centro Acadêmico Ferreira Vianna. Desde ontem tenho pensado em Louis Althusser, o autor desse livro. Althusser foi um filósofo marxista argelino que em 1980 estrangulou sua mulher em surto psicótico, e viveu infernos emocionais durante quase toda a sua vida. Seu nome, Louis, foi-lhe dado em homenagem ao irmão de seu pai, morto na Primeira Guerra Mundial, e de quem sua mãe era noiva. Sentiu-se, confessadamente, um filho “do substituto do que deveria ser seu pai”, e essa circunstância conferiu-lhe enormes danos psicológicos, de tal forma que morou por décadas na enfermaria da famosa École Normale Supérieure de Paris, onde lecionou, tendo a direção do educandário entendido que era melhor tê-lo em seus quadros do que fora deles. Nove anos antes do fatídico ataque à esposa, em 1971, ele publicou um pequeno livro onde pode mostrar a qualidade excepcional de seu pensamento, a despeito de sua vertiginosa radicalidade. Em “Aparelhos ideológicos do Estado”, Althusser concebe a ideia de que o Estado é um aparelho dele mesmo, e não se exaure na estrutura organizacional de suas instituições funcionais. É preciso também o exército (força repressiva indispensável para a mantença autoritária da “ordem” – essa “ordem” nada mais é do que o estado em que estão as coisas da vida social gerida por esse Estado, e que são, em grande parte, “acarretadas” por ele próprio). Acima de todos há o ‘chefe”, e há também o “governo” e a “administração”. Ao final, definiu o Estado como sendo a força de execução e de intervenção repressiva a serviço da “classe dominante”. O leque dos aparelhos ideológicos não é caracterizando como sendo muito amplo, mas, por outro lado, é bastante significativo. Inclui o sistema de diferentes Igrejas, o sistema escolar (tanto público quanto privado), o sistema familiar, o sistema jurídico, o sistema político, o sistema sindical, o sistema de informação e o sistema cultural.
Como dizia, desde ontem tenho pensado muito em Louis Althusser. Parado aqui, agora, continuo pensando nele. Acho que o Brasil de Temer convocou novamente Marx para tudo a nós explicar, e ele nos enviou Althusser, seu guardião louco e genial, para esse fim. Pelo menos a mim está sendo uma vez mais de serventia. E como!

* Doutor na área da educação e professor na UFPEL

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