O livro que questiona os mitos da história do samba (via levante popular da juventude)

  • Beatriz Montesanti

19 Nov 2016

‘Não tá Sopa’, primeiro e-book da Editora da Unicamp, desmistifica alguns dos fatos em torno do gênero que completa 100 anos

FOTO: CALIXTO CORDEIRO/DIVULGAÇÃO/EDITORA DA UNICAMP

Beile Pobre

‘BAILE POBRE’, DO CARICATURISTA CALIXTO CORDEIRO

Para além do debate sobre a origem do samba, o gênero musical que completa 100 anos em 2016 tem diversos outros pontos de divergências em relação à sua história.

É o que mostra Maria Clementina Pereira Cunha no livro “Não tá Sopa: sambas e sambistas no Rio de Janeiro”, recém-publicado pela Editora da Unicamp no formato e-book. A obra é resultado de mais de dez anos de pesquisa da historiadora sobre o tema, no Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Universidade de Campinas (Cecult).

Na obra, Clementina Pereira Cunha conta e relaciona as histórias de sambistas como Pixinguinha, João da Baiana e Ismael Silva com ocontexto do Rio de Janeiro de então. Completa a narrativa com anedotas, imagens, vídeos e músicas que mostram o cotidiano dos sambistas daqueles tempos, sem o glamour com que entraram para a história.

“A historiografia sobre o samba é, em primeiro lugar, uma literatura muito repetitiva”, diz a pesquisadora ao Nexo. “Algumas coisas foram estabelecidas pelas próprias memórias dos sambistas sujeitos que registraram isso em entrevistas ou por biógrafos, que tentaram fixar uma certa imagem.”

Alguns mitos do samba

PERSEGUIÇÃO AO GÊNERO

Segundo Clementina, muito se diz sobre uma perseguição especial ao samba e aos sambistas no início do século 20. Para tirar a prova do fato, ela recorreu aos arquivos de polícia da época. “Para questionar esse tipo de lugar comum, você precisa recorrer a uma documentação alternativa.”

FOTO: DIVULGAÇÃO/EDITORA DA UNICAMP

João da Baiana

JOÃO DA BAIANA COM SEU FAMOSO PANDEIRO

Com base nas fichas criminais, a historiadora concluiu que sambistas não formavam um caldo expressivo entre as pessoas presas por “vadiagem”. “Esse universo de ação policial preventiva atinge sambistas também, mas é uma ação dirigida para a população negra e pobre no geral”, explica. “Nas três primeiras décadas da República você acha sambistas entre os documentos policiais, mas mais como testemunhas do que como acusados.”

Se, por um lado, a descoberta frustra a imagem do samba como gênero “perseguido e posteriormente reconhecido”, por outro, os arquivos policiais se mostraram uma fonte rica de anedotas para entender o contexto em que o gênero nasceu e se popularizou.

Clementina cita como exemplo um caso de João da Baiana, cujo único registro na delegacia era como vítima. Ele levou um tiro no traseiro após dançar com uma mulher durante uma gafieira.

Segundo a pesquisadora, a ideia de uma perseguição ao gênero vem da construção da imagem do samba no período posterior, quando Getúlio Vargas instaurou o Estado Novo no Brasil, em 1937. Na época, o samba foi apropriado como símbolo nacional.

“Vargas promove a incorporação das massas no cenário da política e passa-se a aceitar o samba como uma música mestiça. A ideia de uma perseguição sistemática anterior aos sambistas vem daí, de glorificar a ação do Estado Novo. Não corresponde aos registros policiais.”

Maria Clementina Pereira Cunha

Historiadora e autora do livro “Não tá Sopa”

DEMOCRACIA RACIAL

A apropriação da cultura popular pelo Estado Novo teve outra consequência mais grave: a ideia de que o samba era uma música homogênea e representava a suposta democracia racial do país.

Nessa época, explica Clementina, o samba servia como uma das poucas possibilidades de ascensão social e, embora o mito não encontrasse correspondência na realidade, ele era aceito pelos sambistas, pois não interessava a eles recusar seus status.

Discretamente, no entanto, as tensões raciais e de classe surgiram em algumas canções – de forma cômica e sutil, porém. “Alguns sambistas faziam graça com isso, mas deixavam escapar nas suas composições o mal estar. Ou até mesmo em suas atitudes.”

Ela cita como exemplo o caso de Ismael Silva, que ganhou fama na esteira do sucesso do cantor branco Francisco Alves, com quem compôs algumas canções. Em uma ocasião, no entanto, ao término de um espetáculo, Alves convidou Ismael ao palco para receber os aplausos, chamando-o de “negro de alma branca”. “E aí o Ismael nunca mais compôs com ele”, resume a historiadora.

Diz que esses branco de agora
tem raiva dos preto inté
Pois ôio que é bom é preto,
preto é o diamante e o café
Preto é o oiá de Maria,
esposa de São José
Preto é a tinta que escreve
e dá valô ao papé […]
Mas o consolo dos preto,
deixa falá quem quisé
é que Deus fez eles branco
Onde foi?… Mas foi na sola do pé!

Trecho da letra “Preto e Branco”, de Augusto Vasseur, Luiz Peixoto e Marques Porto

O RETRATO DO MODERNISMO

Não só pela política o samba foi apropriado e modificado, como pela ideologia cultural de então. Nos anos 1920 o modernismo surgiu como movimento cultural predominante, ajudando a construir a imagem do Brasil popular, cuja riqueza decorre da produção das camadas populares.

A projeção modernista, porém, por vezes romanceava uma realidade que não era bem essa. No e-book, Clementina usa como exemplo ilustrativo uma foto do Morro da Favela posta ao lado de um retrato da região pintado por Tarsila do Amaral. “O modernismo propunha um popular colorido, suave, ingênuo”, diz.

“[…] recriado pela pintura modernista de Tarsila do Amaral, ele adquire as cores e formas do debate sobre identidade nacional e cultura popular que empolgava intelectuais e artistas nos anos 1920.”

Trecho do livro

FOTO: AUGUSTO MALTA/DIVULGAÇÃO/EDITORA DA UNICAMP

Morro da Favela

FOTOGRAFIA DE AUGUSTO MALTA, DO MORRO DA FAVELA, FEITA EM 1920

FOTO: TARSILA DO AMARAL/DIVULGAÇÃO/EDITORA DA UNICAMP

Tarsila do Amaral

‘MORRO DA FAVELA’ (ÓLEO SOBRE TELA), DE 1924, FEITO POR TARSILA DO AMARAL

Um formato não tradicional para uma história não tradicional

“Não tá Sopa” inaugura a coleção Históri@ Ilustrada, coordenada pela historiadora Silvia Lara e primeira iniciativa da Editora da Unicamp em publicar e-book. O formato, conta Clementina, veio de uma demanda da própria narrativa.

“Tenho vários livros publicados de forma convencional. Mas tive uma dificuldade muito grande [para publicar esse livro] porque além da existência de um material iconográfico imenso, tem também a questão de o leitor precisar ouvir a música sobre a qual você está falando. É muito mais difícil explicar com palavras o samba e o significado dele. Não só a letra, mas o breque, a malícia…. é preciso ouvir para estabelecer as diferenças entre essa coisas.”

Maria Clementina Pereira Cunha

Historiadora e autora de “Não tá Sopa”

Não só o trabalho de Clementina se beneficiará do projeto, como outras pesquisas feitas em cima de arquivos audiovisuais disponíveis. A próxima obra prevista para ser lançada pelo formato é o trabalho do historiador Marcelo Balaban sobre Bastos Tigre, escritor, publicitário e humorista pernambucano.

“Nós estávamos com uma produção de livros que tem uma certa dificuldade para serem publicados pois trabalham com fontes iconográficas ou sonoras que são difíceis de serem produzidos em volumes impressos, normais.”

Silvia Lara

Historiadora e coordenadora da coleção Históri@ Ilustrada

Segundo Silvia Lara, coordenadora da coleção, o projeto lança mão da interatividade não apenas para enriquecer a narrativa, mas também para atrair o público além da universidade. O objetivo de tornar as pesquisas acadêmicas acessíveis e interessantes ao público leigo é perceptível na própria linguagem adotada nos textos, mais dinâmicas e didáticas. Além disso, cada livro será acompanhado de um vídeo, disponível no YouTube, que pode ser usado em sala de aula, por exemplo.

“Não tá Sopa” está atualmente disponível para download gratuito no formato e-pub. Uma segunda versão da obra, mais aprimorada, deverá ser disponibilizada em breve, no valor de R$ 14.

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