CHARQUEADAS: AUCHWITZ PELOTENSE (Eliézer Oliveira)

 

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O que aconteceria se algum cidadão alemão ou polonês quisesse glamourizar algum campo de concentração nazista? Já imaginou!?
– “Eu quero fazer as fotos de minha formatura em Auchwitz!”
– “Nós vamos fazer a nossa festa de casamento no local onde os judeus foram torturados, explorados e brutalmente assassinatos!”
O que a Alemanha, a Polônia, o mundo e você pensariam de tal insanidade?
Pois bem, as charqueadas pelotenses são os nossos campos de concentração no qual o povo negro teve a sua mão de obra explorada, locais onde os corpos escravizados foram torturados e brutalmente assassinatos.

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A média de vida de um escravo de charqueada era de mais ou menos 25 anos. Suas roupas eram feitas de sacos. Dormiam muito pouco na senzala insalubre. Trabalhavam sem parar. Engoliam as pressas uma sopa feita com as vísceras dos animais abatidos – gordura pura. Nem mesmo o charque que fabricavam podiam comer.
Qualquer ato que pudesse ser compreendido como rebeldia trazia diversas consequências: tronco, chibata, estaca, máscara de flandres, gargalheira, marca quente (de ferro) no rosto, beber de gute-gute canecas de leite quente, castração, ter as unhas arrancadas, os dentes limados… e a pena capital: a morte! Castigos esses que serviam para punir o negro rebelde e educar os demais para que não fizessem o mesmo.
Diante destes horrores (e de tantos outros), cabe perguntar:
Como pode a sociedade pelotense apreciar e permitir que esse local de dor e sofrimento possa ser simbolicamente apreciado como um lugar festivo?
Como alguém pode querer tirar uma foto bonita no local que era tomado por sangue e fezes dos animais?

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Como podem querer celebrar a vida no lugar da morte do boi e do escravo?
Como sorrir neste local de choro?
Como se sentir bem no lugar onde os escravizados tinham as suas mãos cortadas pelo sal (já que não usavam luvas), tinham as costas cortadas pelo relho, e os olhos cegados pelos raios do sol que incidiam no sal?
Como olhar para o rio e não pensar nos corpos negros ali “sepultados” juntamente com as fezes e o sangue dos animais?
Como celebrar o amor humano no lugar onde negros e negras não podiam sequer se encontrar, quanto mais namorar?
Desconhecimento da história das charqueadas? Expressão simbólica do desejo de, ao menos uma vez na vida, se sentir um barão ou baronesa? Inconscientemente querer se sentir um nobre senhor de escravos, um charqueador? Desrespeito consciente desta história desumana? Será que essas mesmas pessoas fariam fotos e festas no Auchwitz polonês tal como fazem no Auchwitz pelotense?
O escravizado de saladeiro construiu a riqueza de Pelotas e dela não desfrutou, nem ele e nem os seus descendentes (muitos destes sequer conhecem os casarões, as charqueadas, os grandes prédios públicos, o centro de Pelotas – já que vivem confinados na periferia). A nobreza, a finesse, o requinte, a cultura, a arquitetura, a beleza de Pelotas foi erguida com o sangue, o suor e a lágrima do povo negro. A eles, que tudo fizeram, nada restou, nem mesmo o respeito a sua história e ao vergonhoso local de sua tortura e morte.
Nos seus mais de 200 anos essa é uma dívida histórica que essa cidade tem para com o povo negro – até então não reconhecido, negado, esquecido e desrespeitado. Até hoje não receberam um “muito obrigado”, nem um pedido de desculpas, nem uma indenização material e moral por aquilo que os charqueadores e a história subsequente lhes fez. Enquanto persistir esse ultraje moral ao povo negro, enquanto essa dívida simbólica não for minimamente paga, enquanto não se fizer justiça histórica, o racismo terá o campo aberto para campear por essas plagas.
Diante do exposto, não há como ficar abismado com a normalidade com que a CIDADE e as UNIVERSIDADES aceitam que as charqueadas sejam tornadas em espaço festivo.
Não se torna possível entender como que o MOVIMENTO NEGRO, religiões AFROS e os COLETIVOS que tratam da questão racial não se insurjam contra tais práticas.
Como é possível que os INTELECTUAIS se calem? (sendo que muitos deles, inclusive, estuda a escravidão no Brasil, as charqueadas, a cultura afro).
Como podem os POLÍTICOS não se pronunciarem sobre o fato e não criarem leis que proíbam a realização de festas nos AUCHWITZ PELOTENSES?
Onde estão os FORMADORES DE OPINIÃO, os defensores dos DIREITOS HUMANOS, os HUMANISTAS, os CRÍTICOS, as PESSOAS QUE TÊM MEMÓRIA HISTÓRICA E CORAÇÃO?
Penso, de longa data, que a cidade tenha que problematizar esse fato e como gostaria que os próprios descendentes dos homens e mulheres escravizados pelas Auchwitz pelotenses fossem os protagonistas desta luta. A cidade de Pelotas precisa acertar as contas com o seu passado para encontrar o seu rumo no presente e no futuro. Se alguém ou algum grupo empunhar essa bandeira desde já sou parceiro!

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