CONSTRUINDO CONFLUÊNCIAS: ANTÍTESES, REFLEXÕES E CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEXTO SOBRE AS CHARQUEADAS: AUCHWITZ PELOTENSE

zumbi

O importante é dar vida, abastança, dignidade, trabalho e esperança ao ser humano. O importante é arrancar as máscaras, recriar ação e palavra, mover-se corajoso, nítido, íntegro. Os cínicos dirão: isso não é Política, é poesia e ingenuidade. Que seja. É assim que seria para mim o verdadeiro homem político: poeta no seu sentido mais fundo, intenso e livre. Ingênuo a ponto de tomar para si mesmo a dor do outro. E tentar extirpá-la. 
(Hilda Hilst)
O observatório pelotas é um site, uma posição, pelo debate livre e construção de confluências no campo das humanidades. Assim, apresentamos o justo contraponto da Professora/sociologa e militante Carla Avila, sobre a postagem anterior de autoria de Eliézer Oliveira.

CHARQUEADAS: AUCHWITZ PELOTENSE (Eliézer Oliveira)

movimento

O texto de Eliézer Oliveira (2016) nos provoca a ater-se a inúmeras considerações sobre o atual debate referente as diferenças raciais na sociedade brasileira.  A primeira delas é como essa memória escravocrata é articulada no imaginário social da sociedade pelotense. Concordo com o companheiro quando o mesmo se indigna na manutenção desse local de ostentação em casamentos e formaturas da cidade, acho um cúmulo estudantes negros irem lá tirar suas fotos de formatura, ainda mais em curso da área das sociais, mas tudo bem, esse debate já foi realizado por ativistas e intelectuais negras como Winnie Bueno que negou-sou em tirar fotos para a formatura no curso de Direito da UFPel e tirou sua foto de turbante azul, que causou grande revolta entre os não negros desta universidade. Ai tranquilo fazer esse debate, acho pertinente e cada vez mais necessário, como bem colocado “ O que aconteceria se algum cidadão alemão ou polonês quisesse glamourizar algum campo de concentração nazista? Já imaginou!?”. Entretanto gostaria de fazer alguns diálogos sobre a argumentação do companheiro, digo companheiro, pois conheço-o de longa data na luta contra as mazelas do capitalismo, pelo viés da classe trabalhadora, agora em especial na luta pela dignidade dos professores da rede estadual de ensino.

No que tange falar, refletir sobre ser negro/negra numa sociedade que não rompeu com a amarras do colonialismo, que incorporou a falsa ideia de uma democracia racial e uma cultura de branqueamento e ainda não aprendeu a conviver com as diferenças raciais e culturais(DAVIS (2016), FANON (1995), GUIMARÃES (1990)), implica em perceber alguns fatores. Esses fatores não foram tratados na reflexão sobre o papel social e histórico desse local, e aí fica muito difícil refletir sobre esse processo sem levar em consideração esses importantes fatores que muitos de nós pensadores negros/negras problematizamos em nossas falas e nossos escritos. (Fernanda Oliveira, Ledeci Coutinho, Sandrali Bueno, Caiuá- Al Alan, Winnie Bueno, André Pereira, Marielda Medeiros, Fábio Gonçalves, Edna da Rocha, Georgina Lima). Faltou esse cuidado, em perceber que esse debate já vem sendo feito há anos e essa falta de cuidado não é algo “maldoso” ou intencional, é a manifestação de um racismo estrutural que age de forma sútil sem que percebamos, tornando-se necessário fazer o debate sobre as raízes da sociedade colonial e como esse pensamento estruturado por quase 400 anos afetou a forma de pensar essas relações, tanto para as pessoas negras, como para as pessoas brancas. No caso aqui o autor  é um não negro que carrega o olhar do colonizador, em especial no momento em que ele não se preocupou em trazer as contribuições já existentes sobre essa temática.   Aqui eu sugiro o texto da SPIVAK (2010) , uma pensadora indiana que reflete sobre o local de fala em seu texto “Pode o subalterno falar?”

Outro ponto que incomoda a nós pensadores negros é a forma como as relações sociais são percebidas somente pela ótica das atrocidades, como se esses homens e essas mulheres não tivessem agência, como se não resistissem, como se fossem apáticos. Indico a leitura de um historiador pelotense não-negro que aborda muito bem essas agências no seu livro “Reviras, Batuques e Carnavais: A Cultura de Resistência dos Escravos em Pelotas” (MELLO, 1994). Não podemos deixar de lado nunca as atrocidades do período escravocrata, mas também negligenciar o processo de luto, nos coloca num lugar de inferioridade, de um povo que precisa de uma “boa alma branca para nos libertar”, e ai sim tem um fenômeno social muito traiçoeiro que afetam e muito das pessoas não-negras, no querer “auxiliar a causa negra” com sua bondade e bom esforço, estão carregando consigo os sentidos sociais e políticos mentirosos que inventaram sobre o processo de abolição  no Brasil, chamamos isso de síndrome da “Princesa Isabel” uma postura colonialista, como se fosse o branco colonizador dando a luz, dando a salvação tanto aos negros, como aos povos indígenas. Por isso creio que o companheiro, também caiu nessa armadilha.

Outro fator está na problematização sobre as diferentes formas de lutas negras na sociedade brasileira, desde a década de 1940 Abdias no Nascimento (1999) já problematizava que as lutas dos descendentes de africanos, são distintas da forma eurocêntrica de organização social e política. Não existe um movimento negro vertical, hierárquico, somos uma diversidade de lutas tanto cultural, artísticas, políticas, religiosas. É complicado e perigoso tentar nos resumir a um todo homogêneo.   Mas aqui vale trazer um problema que estamos debatendo com a esquerda não negra, que é até que ponto somente a classe nos une? Durante muito tempo justificou-se as diferenças sociais somente pela situação econômica e não pela situação racial. Esse debate racial na esquerda brasileira ainda é muito recente e muito caro para alguns que enxergam a sociedade somente por esse viés.  É importante salientar que numa sociedade capitalista, é impossível não perceber as relações sociais por esse viés classista, contudo somente por ai não dá. Como já mencionado anteriormente, os resquícios do colonialismo nos obrigam a pensar nas relações raciais e os resquícios do patriarcado nos remete a fazer as discussões de gênero. Em nenhum momento a intenção dessa reflexão é desconstruir a pessoa do autor, e sim o que ele representa como um homem, branco nesse emaranhado de problematizações.

Por fim termino minha reflexão sobre a importância que devemos ter com o cuidado sobre quem estamos falando e de onde estamos falando. Vivemos num período que boas intenções não bastam, temos que nos unir sim, mas com respeito das nossas lutas e respeitos as nossas diferenças. A reflexão sobre a manutenção desse local de poder é perfeita, contudo as argumentações sobre as lutas negras que nunca sessaram, somente são silenciadas pelo pensamento colonial que ainda paira sobre nós.

Carla Silva de Avila

Verão de 2017.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *