Escola de Samba e Carnaval: rara e bela narrativa da vitória dos vencidos (clóvis veronez)

Ninguém discute: o carnaval brasileiro é, com razão, tido como o maior “espetáculo da terra”. A elevação do Carnaval a categoria de espetáculo faz parte do desenvolvimento histórico e estético de uma manifestação genuinamente popular que envolve um amplo conjunto de disciplinas artísticas.

É a grande ópera popular que no Brasil superou, enquanto alcance social, qualquer celebração similar mundo afora.

O instrumento e o modelo de organização que alçaram o carnaval a essa condição foram, essencialmente, o das Escola de Samba, sim: “Escolas de Samba”.

As escolas de samba, surgiram no final da década de 1920 como invenção original dos grupos mais pobres da cidade do Rio de Janeiro, que saíram de seus subúrbios, bairros e favelas para conquistar a grande festa da capital do país e se tornar o simbolo original e, mundialmente reconhecida, representação da cultura nacional brasileira. Consolidava-se, no período, o samba, como linguagem musical/estética, cujo conteúdo expressava de forma rara e bela uma narrativa social inédita na cultura brasileira, que seria como: “a vitória dos vencidos”.

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oficina de fazer artístico envolve um grande número de pessoas...

No entanto, o carnaval é “produto” da cultura popular, resultado da resistência do povo pobre e da periferia do sistema oligárquico, patrimonialista, preconceituoso e segregador que caracteriza o curso histórico da nação brasileira.

Muito por conta dessa “característica”, assistimos atualmente e por toda parte, à uma hipócrita discussão sobre a importância e o quantitativo adequado de apoio que lhes devem os gestores públicos. Muitas vezes, o discurso de discriminação contrapõe necessidades “essenciais” à maioria da população (saúde, educação, etc.), como justificativa para o descomprometimento oficial com o seu aprimoramento e inserção definitiva num espaço de economia criativa e, ainda, para investimentos na sua cadeia produtiva. Estranho é que essa discussão não ocorra, com idêntica enfase, quando se trata de manifestações ditas “cultas”, que “abocanham”, faceiras, a quase totalidade dos orçamentos públicos destinados à área da cultura.

O acesso à cultura, quando serve à exibição, êxtase e ostentação das elites oligárquicas, não encontra contraposição relativas as necessidades coletivas, muito menos sobre sua validade como bem de consumo cultural restrito. Exemplos não faltam, aqui , ou noutro espaço qualquer desse imenso Brasil.

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crianças participam da oficina de criação de figurinos

De outro prisma, a crise de “modelo” que reforça o argumento de descomprometimento é resultado de uma apropriação comercial dos conglomerados midiáticos culturais, que imprimiram ao espetáculo carnavalesco uma forçada padronização com vistas a exploração das imagens da festa.

Assim, uma vasta diversidade espraiada pelo país, foi reduzida a um modelo centralizado na transmissão televisiva em função dos interesses, puramente comerciais, envolvidos na sua cobertura.

Esse modelo, acabou por sufocar a singularidade e características regionais das manifestações populares vinculadas ao carnaval, submetidas que foram ao padrão centralizador da televisão. Não é preciso dizer que não há, ali, espaço para tal diversidade. É hora de repensar o carnaval como “ferramenta popular” de intervenção cultural.

Um dos objetivos de democratizar a cultura é aumentar o acesso aos bens culturais que já existem, possibilitando que as pessoas possam desenvolver o seu próprio modo de ser e participar da comunidade como um todo. As escolas de samba precisam cumprir esse papel.

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Em Pelotas, a Academia do Samba aposta no envolvimento crescente da sua base social no fazer cultural, resgatando a sua vocação histórica no campo da cultura popular e como a mais antiga guardiã do samba no RS.

Um vasto conjunto de atividades artísticas e socializadoras, que vão de oficinas de artes à consolidação de um departamento cultural, apontam para a “redescoberta” de um modelo de resistência, abrigado na Escola de Samba.

Neste instante, na condição de carnavalesco, artista “apaixonado” e pesquisador “distanciado”, coloco-me diante de um desafio: transformar o desfile de carnaval numa narrativa de história, crítica social e conhecimento compartilhado e enriquecido coletivamente.

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 Clóvis Veronez - carnavalesco da Escola em 2017

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