O BAILE DE MÁSCARAS DA ACADEMIA DO SAMBA (clóvis veronez)

ACADEMIA
É preciso tirar as marcas da história de cada um.

“Povo gosta mesmo é de luxo; quem gosta de pobreza é intelectual”, dizia o carnavalesco Joãosinho Trinta.

A frase causou o maior impacto entre os “idealizadores da miséria” nos idos anos 70 e 80, obrigando a repensar, nos meios acadêmicos, os sentidos da arte popular. Afinal, o que é luxo? A boa vida das elites? Uma Ferrari? Um verão em Miami? Ou resíduos de um modo de produção, que por características físicas rebatem a luz? Ora, tal efeito, uma lata de refrigerante, virada do avesso, será capaz de produzir. Joãonzinho, em que pese seu talento, estava errado.

É preciso colocar um basta na idealização fetichista que envolve o carnaval, acabar com toda moral baseada na subalternidade, saber que conceitos como engajamento e alienação podem ser, muitas vezes, redutores e acachapadores.

A industria cultural valorizou, com interesse comercial e de forma positiva o espetáculo carnaval no momento seguinte em que a criminalizava e marginalizava. Foi a responsável pela fabricação de um popular ingênuo, anônimo, espelho da alma nacional, que desejavam e ainda desejam imprimir.

Basta! É a “ilusão”, fecunda e criativa, da história que deve, segundo o que entendo, mover o espetáculo carnavalesco. Ilusão que começa no cuidado com a fantasia, com os ensaios, com a bateria vibrante, com a sensação de que o sucesso da escola depende de cada um; cada um é parte e todo do espetáculo.

 

O BAILE DE MÁSCARAS DA ACADEMIA DO SAMBA – CARNAVAL 2017

(por Clóvis Veronez-Sinopse)

AAAAAOFICINA 037

 

A releitura do seu tema enredo épico, “O baile de máscaras”, proposta pela Academia do Samba, para o Carnaval 2017, tem como “norte” o resgate da “mascarada” como reveladora de papeis histórico/sociais transposta à  cena da celebração “momesca”, ao longo da história do carnaval de Pelotas.

Essa perspectiva visa distinguir e evidenciar o baile de máscaras, modelo de comemoração da elite aristocrática local no final do séc IXX e início do séc XX e sua metamorfose, quando absorvido pelas camadas populares ao longo do tempo.

SETOR 1
A elite em festa

A elite aristocrática descendente da indústria do charque, oferecia um tipo de folia no qual se destacava o “Grande Carnaval”, um festejo inspirado nas cidades de Veneza, Nice e Paris, promovido a partir de seu próprio imaginário, no qual apenas ela podia preponderar.

A distinção entre as classes se expressava pela construção de espaços inacessíveis aos demais, muito especialmente o baile de salão, ou melhor seus bailes de máscaras.

Assim, para participar ativamente da festa, eram necessários significativos recursos econômicos e inserção em determinados grupos sociais, com vistas a: associar-se ao clube, adquirir a fantasia; ser proprietário ou poder alugar carro ou automóvel.

Isso não significava a ausência de comemorações populares na folia, no entanto, o modelo europeizado predominava e, dele, os mais pobres estavam excluídos, ao menos como atores de destaque do ponto de vista do registro histórico da imprensa local que, via de regra, cobria com entusiasmo o “fausto” exibicionista das elites e criminalizava os festejos populares.AAAAAOFICINA 044be1

Oh doce encanto de um baile

Onde a máscara é o toque principal.

A academia do Samba vem mostrar como é sensacional

Esta ilusão que nos separa no dia a dia

Imaginação fantástica

Ao preço de uma bela fantasia

SETOR 2

O redondo

 

 

Devido a grande presença de negros e à intensa discriminação racial, Pelotas teve um significativo desenvolvimento de associações desse grupo, que praticamente atendiam qualquer necessidade da vida de seus membros. Eles possuíam clubes recreativos, teatrais, futebolísticos, entidades mutualistas, de assistência às crianças e de representação (LONER, 1999).

Essa rede começou a se desenvolver no final do Império e por volta da década de 1910, orientou-se mais decisivamente no sentido da fundação de entidades recreativas, entre as quais as carnavalescas.

O carnaval em Pelotas era modelado por aquele do centro do país (QUEIROZ, 1992; SANTOS, 1998; VON SIMSON, 1989), entretanto, era o mais forte do interior, possuía aspectos singulares e mantinha um forte apelo entre a população local.

Os principais clubes negros, aqueles que permaneceram por mais tempo, foram o Fica Aí pra ir Dizendo (1921), o Chove não Molha (26/2/1919), o Depois da Chuva (19/2/1916), o Está tudo Certo (1931) e o Quem Ri de Nós têm Paixão (1921).

Ao lado desses, surgiram inumeráveis outros grupos carnavalescos.

O Clube Fica Ai foi fundado em 27 de janeiro de 1921, como um cordão carnavalesco e seus objetivos iniciais eram apenas congregar pessoas para brincar as festas momescas. A informalidade do grupo era muito grande, pois seu ponto inicial de encontro era a Praça Coronel Pedro Osório, no centro da cidade de Pelotas. Até seu próprio nome reflete esta situação, já que segundo a tradição, logo após a deliberação pela formação do bloco, dois integrantes saíram para espalhar a novidade e um permaneceu no local, para avisar os demais. Assim nasceu o Cordão Carnavalesco “Fica Aí para ir Dizendo”, que, junto ao “Chove não Molha” logo passaram a ser  referências para a etnia negra de Pelotas.

Nasceu, com o “Fica Ai pra ir dizendo”, a primeira versão do baile de máscaras, transposto para a rua e com a participação das camadas pobres da população local.

A reação da Elite

Obviamente, a elite local reagiu ao modelo popular. O primeiro passo foi à adoção do confete e da serpentina, surgidos no centro do país, como forma de disciplinar a folia considerada “selvagem” no período anterior e a eleição da XV de novembro para reduto exclusivo, para ela mesma.

A elite começava a abandonar a exibição, reservando agora, aos seus seletos salões. A rua passaria a ser o espaço do anonimato e da “folia”, até então tratada de forma preconceituosa ou/e pejorativa, ainda que de forma “envergonhada”. O carnaval, no sincope contagiante do samba*, ganhava ares de celebração da cultura nacional.

No entanto, não deixaria de demarcar seu “território”, reservando a XV de Novembro para si e a Praça Pedro Osório para “aquela” gente da “classe baixa”. Assim, referiu-se Luiz Carlos Marques Pinheiro, sobre o carnaval do redondo: “No Carnaval, o Redondo fazia o seu próprio Carnaval, característico, que não se confundia com o carnaval de rua da cidade. Incrivelmente, o Redondo não tomava conhecimento do carnaval de rua de Pelotas. Era como se não existisse. Como era um antro de prostitutas, no Carnaval atraía toda a classe baixa de Pelotas”… “No meio dessa bagunça organizada, “conjuntinhos” musicais tocavam marchinhas de Carnaval e sambas, em ritmo lento. O ritmo tinha que ser lento porque os passos também eram lentos”. Mais adiante, “Era a ralé.  E todos se reuniam no Redondo. E então o Redondo se transformava num grande salão de baile”.

Quem é você? Quem é você?

Com a máscara no rosto?

SETOR 3 

A ópera/baile popular que a Academia vem reinventar

AAAAAOFICINA 044AAAAAOFICINA 027

D3

 

 Quem é você? Quem é Você?

Pois desta vez vamos responder.

Nós somos o samba,

Nós somos o Carnaval.

Nós somos resistência Cultural.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *