Mandando fascistas para o inferno: Perfil de Woody Guthrie

(Foto: Hulton Archive/Getty Images)
 

“Onde três comunistas se encontram, o quarto deve ser um tocador de violão”, Woody Guthrie

Por João Batista Cesar
Caros Amigos

Quando se anunciou que Bob Dylan havia ganho o Nobel de Literatura, os setores progressistas se dividiram. Uns viam a conivência de Dylan com o expansionismo sionista no Oriente Médio (presente, por exemplo, na música Neighborhood Bully), sua conversão ao cristianismo no fi nal dos anos 1970, sua postura aburguesada e conformista nas últimas décadas, como provas definitivas de que o velho bardo jamais havia desembarcado de verdade no campo progressista.

Outros, os que viveram com intensidade a história de seu tempo, que foram à luta, veem Dylan como um aliado de todas as horas: da luta à festa. Diferentes gerações que sonharam utopias ao redor de fogueiras e se horrorizaram com a miséria e a injustiça do mundo. Suas músicas foram a voz do movimento estudantil em diferentes momentos, sua oposição à guerra do Vietnã, sua crítica contundente ao establishment norte-americano.  Não é à toa, por exemplo, que o senador Eduardo Suplicy repita Blowing in the Wind quase como um mantra, quando quer anunciar os novos tempos que estão chegando…

Quem conhece a vida e a obra de Dylan, vislumbra por trás de sua faceta rebelde, de sua crítica ácida, a presença do velho Woody Guthrie, um dos mais emblemáticos músicos do século 20, que militou no campo da esquerda durante toda a vida. Com seu inseparável violão, onde se destacava a frase “Máquina de matar fascistas”, Woody percorreu os Estados Unidos de ponta a ponta, misturado a seu povo, impregnando-se de vida cotidiana. Levava o brado de luta e resistência aos oprimidos e um enorme talento musical que fascinava as pessoas ao redor.

Woody Guthrie usava a música como arma. Desde cedo se ligou à música folk que brotava ao seu redor. Compôs mais de mil músicas, foi homem de rádio bem-sucedido, jornalista, escritor. Animou comícios, passeatas e greves. Viajou clandestino em vagões de trem, dormiu no mato, foi de carona, dez anos antes que os beatniks fizessem isso e vinte anos antes dos hippies.

Foi Woody Guthrie o responsável por Bob Dylan dar o pontapé inicial em sua carreira. Dylan tinha 19 anos e, já espírito inquieto, resolveu ir a Nova Iorque visitar Woody, que estava hospitalizado com uma doença mental degenerativa. Dylan se muda para o Leste para estar perto de seu ídolo. Ele passa tardes no hospital absorvendo o que pode do velho mestre, mostrando suas músicas para Woody, que adora aquele adolescente com trabalho tão original. Uma das primeiras músicas que Dylan compôs, a ele é dedicada: Song to Woody.

Claro, nesta época, em Nova Iorque – principalmente no Greenwich Village – estava reunida a intelectualidade de esquerda americana, entusiasta da música folk desde a década de 1930. Os velhos comunistas, os poetas beats, os intelectuais existencialistas e músicos de toda parte querendo descobrir um caminho. Woody Guthrie nasceu em 1912 em Okhema, Oklahoma, um estado emblemático nos Estados Unidos. No processo de expansão territorial do país, Oklahoma foi tomado dos espanhóis e se tornou uma espécie de reserva indígena. Para lá eram levadas as tribos que iam sendo expulsas de sua terra de origem, com a expansão dos colonos para o Oeste.

A isso se acrescentou uma grande quantidade de imigrantes, que chegaram no final do século 19. Gente que logo se tornou pequeno proprietário rural ou camponês empregado e enfrentava dificuldades para sobreviver. Com essa imensa população pobre, Oklahoma era, nas primeiras décadas do século 20, um estado que se destacava na luta social e no grande número de esquerdistas, era o segundo estado com maior número de socialistas nos EUA. Lá estava a principal organização socialista do país com 12 mil membros em 1914 , como escreve Howard Zinn em seu campeão de vendas naquele país, A People’s History of the United States.

Em casa, Woody aprende músicas do Velho Oeste, canções índias e o folk escocês com familiares. O folk era a expressão cultural que brotava de grupos populacionais meio à margem do sistema. Colônias étnicas, grupos religiosos, comunidades isoladas que praticavam suas atividades culturais de maneira isolada. Músicas vinculadas ao cotidiano de comunidades, às tradições étnicas, ao mundo rural. Um celeiro para artistas atrás de descobertas.

O folk era o gênero musical que ia de encontro às concepções culturais de certas facções de esquerda. Uma música nascida no seio do povo e que, por ter se mantido isolada, uma forma de resistência às práticas culturais desenvolvidas nas grandes cidades. Muitas vezes era transmitida oralmente.

Nos anos 1930, ainda como reflexo da crise de 29, vive-se uma profunda depressão econômica, uma pobreza nunca vista naquele capitalismo cintilante. No campo o quadro é ainda pior, com toda incerteza de uma economia desorganizada. A fome campeia. Mas isso não era o pior.

A superexploração do solo, o desmatamento, o emprego de técnicas inadequadas deram origem a um grande desastre ecológico, que tem entre os elementos o secamento do lago Owen, na Califórnia. As gigantescas tempestades de areia – a areia era levada pelo vento na terra descampada – que durante dez anos vão assolar uma enorme área no coração dos Estados Unidos. É o chamado Dust Bowl, em que nuvens quilométricas de areia cobrem toda a paisagem. Casas, vilas, estradas, plantações, currais, pastos inteiros vão sendo cobertos por areia, num processo de desertifi cação que torna a vida humana inviável.

Especuladores de terra, vindos de dentro das nuvens, agravam o estrago. Estima-se que uma em cada dez propriedades rurais dessa área tenha sido adquirida, desta maneira vil, de agricultores com a corda no pescoço. Famílias são jogadas na rua sem nada. Todo mundo começa a abandonar o lugar…

A Califórnia é a miragem. Uma caravana interminável – estima-se que mais de 400 mil pessoas tenham participado deste fluxo migratório – começa a circular pela Rota 66, “a estrada mais importante dos EUA”, ligando Chicago a Los Angeles. Ia-se de todo jeito: clandestino nos trens, a pé, a cavalo e também de Ford modelo T, para percorrer 4 mil quilômetros de estrada. O carro que revolucionara a indústria automobilística com a linha de montagem, custava dez anos depois, a bagatela de US$ 50.

Woody e sua família vivem a crise e a penúria. Ele deixa mulher e fi lhos e parte atrás de trabalho em direção à Califórnia. Segue com o violão, uma cabeça cheia de ideias e se dilui na multidão. Vai clandestino em vagões junto com mendigos, anda a pé por estradas secundárias, segue em carros abarrotados de gente e de carga dependurada. Faz bicos quando pode e ganha algum dinheiro tocando violão e pintando cartazes – o desenho é outro de seus talentos.

A música, no entanto, ocupa lugar cada vez maior. Ele mistura tudo que aprendeu em casa, com o que vai vendo no caminho, mais toda a infl uência das raízes populares da cultura americana, que vem pesquisando nos últimos anos. Músicas são compostas para um evento e logo esquecidas. Woody canta para mendigos, para enfermos, anima miseráveis. Vagabundeia pelo campo e dorme em acampamentos inabitáveis. Aqui sua história vai de novo resvalar na história de outro norte-americano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. John Steinbeck também está atento ao que acontece na Rota 66. Tem consciência de que aquela ferida aberta no coração do capitalismo era o grande épico de seu tempo. E contar essa história em As Vinhas da Ira vai render a Steinbeck, em 1959, o Nobel de Literatura. Da mesma forma que Woody Guthrie irá compor as suas Dust Bowl Songs (Canções da Tempestade de Areia) narrando essa grande odisseia humana.

Na Califórnia, o paraíso não era tão dourado assim. Além de não haver trabalho para todo mundo, ainda há um forte preconceito contra quem vem de fora. Migrantes são instalados em acampamentos, outros improvisam moradias com latas e papelão. Woody se sobressai. É talentoso, tem opiniões fortes, sabe o que quer. Logo está com um programa de rádio, falando de igual para igual com a sua gente.

Assim Woody, que chegara à Califórnia em 1937, já no final da década é um nome conhecido em Los Angeles. Seu programa de rádio, meio fora do esquema, só divulga música folk e artistas pouco conhecidos. É o “caipira” que passa a ser cada vez mais popular entre os seus, ao defender o interesse daquela massa tão maltratada.

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