CAMPOS NEUTRAIS (no centro de uma outra história) Vitor Ramil

vitor

 

Em 2012 recorri ao pensamento de Sérgio Buarque de Holanda ao apresentar o financiamento coletivo a que daríamos início, eu e minha equipe, para viabilizar o álbum duplo Foi no mês que vem.

Segundo o autor de Raízes do Brasil, as atividades coletivas dos brasileiros não seriam marcadas pela cooperação constante e disciplinada. Nosso povo teria, sim, o gosto pelos mutirões ou mobilizações pontuais em torno de determinadas causas. Fiz a citação por achar que ela explicava em boa medida o começo promissor das campanhas de financiamento coletivo no Brasil, alternativa de produção cultural democrática e transparente que só poderia ter surgido nesses tempos de ampla comunicação virtual.

Os que se engajaram na nossa campanha e os que só depois de sua realização se inteiraram do acontecido sabem que foi uma experiência super exitosa, das mais bem sucedidas do país. O êxito não se limitou ao fato de termos atingido e superado a meta de financiamento pretendida. Ganhos subjetivos e imensuráveis foram os que ficaram como o melhor de tudo: os apoiadores trocaram a passividade de público consumidor para se tornarem agentes de uma produção em que acreditavam, foram decisivos para que um projeto artístico se concretizasse; os artistas corresponderam a esse voto de confiança direcionando a força e o significado da mobilização a suas performances. Para mim foi particularmente positivo e transformador criar algo ao mesmo tempo em que expunha ao público minhas tentativas e erros ou contava histórias ou ainda pensava em voz alta sobre o que se passava em nossos corações e mentes.

2017

Agora, 2017, cinco anos e muitas histórias depois, ao me preparar
para gravar um novo álbum e publicar um novo songbook (será meu décimo primeiro disco, mas o primeiro a ser gravado em Porto Alegre e o primeiro com canções inéditas em sete anos – o anterior, délibáb, é de 2010), não resisti ao desejo de reviver a experiência do financiamento coletivo, de outra vez ver um trabalho meu chegar às pessoas já durante a sua concepção e, numa via de mão dupla, receber a vibração delas lá na solidão concentrada do estúdio.

O Brasil e o mundo mudaram muito de 2012 para cá. O que diria Sérgio Buarque de Holanda sobre nós agora? São tempos de solidões, assim mesmo, no plural. Estamos sós na foto, eventualmente nos chocando com quem anda em sentido contrário, empurrados todos pelo instinto de sobreviver. Não deixei de me perguntar se o momento seria apropriado para uma iniciativa agregadora em torno de um projeto artístico. E concluí que sim, que uma ação desse tipo, mais que apropriada, seria necessária, justamente por estarem as coisas como estão e pelo projeto em si, sobre o qual já vou falar.

Nunca me senti tão seguro em relação à produção de um álbum como agora: o conceito é claro, os arranjos estão incríveis, os músicos são um assombro, as canções considero entre as melhores que já compus, as condições técnicas são excelentes. Quanto ao songbook, terá o nível de detalhamento do anterior, com afinações, melodias, acordes, diagramas, tablaturas, letras, mais alguns textos e fotos.

Preciso compartilhar isso com o público, que é a quem as canções se destinam. Se ele quiser estar conosco desde o começo, se quiser influenciar, colocar sua digital subjetiva nesse projeto artístico e assim reagir ao atual estado de coisas, seremos muitos a estar seguros do que estamos fazendo.

CAMPOS NEUTRAIS

Campos Neutrais será o nome desse álbum e de seu respectivo songbook que agora convido o público a apoiar. É também o nome de uma das quinze canções do repertório. Querem saber de onde ele vem e por que o adotei?

No Tratado de Santo Ildefonso, assinado no ano de 1777 pelos reinos de Portugal e Espanha, foi definida uma área neutral. Segundo o historiador Tau Golin, tratava-se originalmente de uma faixa-fronteira que atravessava o Rio Grande do Sul no sentido sudeste-noroeste. Uma linha dessa faixa corria junto às nascentes de rios que corriam para o Rio de la Plata; a outra, junto às nascentes dos rios que corriam para o mar. A primeira delimitava o território pertencente a Espanha; a segunda, o de Portugal. Como o critério não se aplicava à costa, fixou-se como zona neutra a extensa planície que hoje compreende, aproximadamente, os municípios de Santa Vitória do Palmar e Chuí, incluindo as lagoas Mirim e Mangueira, as línguas de terra entre elas e a costa do mar. Segundo o acordo, os espanhóis não passariam os arroios Chuí e São Miguel, ao norte. O limite ao sul para os portugueses seria o arroio Taim – linha reta até o mar. Com os anos, essa espécie de terra sem dono no extremo sul do Brasil viria a se tornar conhecida como os Campos Neutrais.

Os Campos Neutrais, atraindo para si toda a mística dos “espaços neutroz”, conforme definido no Tratado, entraram para a história como uma zona que, nos dizeres de Tau Golin, sofreu “confusa e criativa ocupação”, pois o considerável espaço que, segundo o Tratado, deveria ser de ninguém, transformou-se logo “em atrativo, principalmente para aventureiros de diversas origens, gaudérios, caboclos, sertanejos, e pobres do campo em geral, que nela passaram a transitar, prear o gado alçado, ou a se estabelecer, em contato com grupos indígenas que centenariamente já estavam na região. Nesta intrusão, destacaram-se os gaúchos lusos e castelhanos, e os paulistas”.

Outro historiador, Anselmo F. Amaral, chama atenção para “o acerto que fizeram as autoridades portuguesas e castelhanas quanto aos escravos que nos Campos Neutrais se es- tabelecessem, fugindo aos maus tratos dos patrões. Deveriam merecer eles proteção das autoridades, tanto do Taim como do Chuí”.

Ainda segundo o autor, os Campos Neutrais também foram lugar de refúgio e atividade para o changador – “homem sem Deus, sem rei e sem lei” – que apesar de ser tido como matreiro, bandido, abigeatário ou contrabandista, é considerado o gaúcho primitivo – filho de espanhóis ou portugueses com as índias -, que “agia sempre atendendo à sua condição de homem telúrico. Sempre só – tão somente ele na imensa pradaria! – estaria, assim, obrigado a adquirir uma concepção infinita de liberdade”. O espírito dos Campos Neutrais e o modo de vida dos primeiros gaúchos – a mítica combinação de vida campeira livre e aventuresca com aversão à autoridade – tinham, portanto, a mais completa afinidade.

Graças à rica mistura humana, ocorrida em grande parte à revelia das determinações oficiais dos reinos envolvidos, os Campos Neutrais tornaram-se emblemáticos da condição de fronteira do Rio Grande do Sul e do temperamento de seu povo. Na geografia, são hoje simbolizados principalmente pela reserva ecológica do Taim e seu entorno. No imaginário contemporâneo, abrigam ideias como liberdade, diversidade humana e linguística, miscigenação, comunhão, criatividade, fantasia e realidade, anti-oficialismo, anti-xenofobismo, inconformismo ou subversão, afirmando-se dessa forma também como uma reserva ecológica cultural.

O ÁLBUM

Foi com a intenção de corresponder a esse significado dos Campos Neutrais que reuni as quinze músicas a que me referi acima. O álbum terá três idiomas, português, espanhol e inglês; milongas e canções de muitos acentos e sotaques; parcerias com o paraibano Chico César e o maranhense Zeca Baleiro, com o poeta de Belém do Pará Joãozinho Gomes, com a poeta pelotense Angélica Freitas; música para poema do português Antônio Boto; uma versão para um clássico do norte-americano Bob Dylan, outra para uma canção do galego Xöel Lopez; letras que fazem referência a Satolep, Montevideo, Punta del Diablo, Buenos Aires, Belém do Pará, Barcelona, Londres, Hermenegildo e aos próprios Campos Neutrais; participações vocais dos mesmos Chico e Zeca e de minha sobrinha Gutcha Ramil; percussões do argentino Santiago Vazquez; naipe de metais (tuba, trombone, dois trompetes e trompa) do Quinteto Porto Alegre; arranjos de metais do porto-alegrense Vagner Cunha; guitarra elétrica do também porto-alegrense e “apanhador só” Felipe Zancanaro; violão do buenairense del suburbio Carlos Moscardini. Os demais violões, voz e produção musical serão por minha conta. O engenheiro de som Moogie Canazio virá dos EUA para comandar as gravações, que acontecerão em Porto Alegre no recém-construído estúdio Audio Porto. O songbook será feito pelo gaúcho Fabrício Gambogi e a programação visual do disco e do songbook pelo carioca Felipe Taborda. Rica mistura humana! No ensaio A estética do frio (2003), escrevi que no Rio Grande do Sul não estamos à margem de um centro, mas no centro de uma outra história. Pois an- tevejo que esse projeto será, artística, cultural, espiritual e geograficamente, minha melhor ilustração dessa ideia.

FINANCIAMENTO COLETIVO

Como em 2012, o projeto não tem qualquer financiamento estatal ou privado e a campanha será coordenada pela plataforma Traga Seu Show, de Porto Alegre. A competência e seriedade deles foi fundamental para que tudo corresse bem naquela ocasião. Agora, muitos projetos depois, tenho certeza de que se sairão ainda melhor. A Satolep Music, sob comando de Ana Maia, dedicará a atenção de sempre ao público e cuidará para que tudo aconteça com presteza e eficiência.

A função continua simples e objetiva. As contrapartidas aos apoios continuam generosas: downloads do disco, vídeos das sessões de gravação, discos físicos, songbooks (o novo e o anterior), camisetas, os últimos exemplares do livro Satolep e da primeira edição do ensaio A estética do frio – Conferência de Genebra, letras manuscritas, workshops individuais, shows na sala de casa, peças do figurino do meu personagem Barão de Satolep e do show de lançamento do disco Ramilonga… Até o microfone de voz e um violão que me dão grandes alegrias nos palcos!

Durante o trabalho de produção do disco eu estarei me comunicando com os apoiadores como da outra vez, não só através dos vídeos documentais, mas também de textos que escreverei sobre as músicas, as letras, os parceiros e colaboradores, as sessões de gravação, o estúdio, enfim, tudo o que me parecer interessante no processo. Quero me divertir e me emocionar com isso.

Acessem o site do Traga Seu Show, conheçam os detalhes da campanha para fazer acontecer o disco e o songbook Campos Neutrais. Escolham a melhor maneira de participar. Divulguem essa ação entre os amigos.

Vamos estar juntos durante a produção de Campos Neutrais, vamos estar juntos nos shows de lançamento, vamos estar juntos na vida.

abraço a todos
Vitor Ramil

http://www.tragaseushow.com/vitorra

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