Teatro: Eugênio Kusnet: retrato de um artífice

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Livro traça biografia do imigrante russo que sistematizou a formação do ator no Brasil: “ele trazia o sentimento eslavo de cavoucar um pouco mais a alma”

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Kusnet e Lélia Abramo em “Eles não usam black-tie”

 

Por Valmir Santos | Imagem Cepedoc/Funarte

O teatro é uma arte essencialmente do ator. É a partir deste ofício que Eugênio Kusnet: do ator ao professor entrelaça o pensamento e a prática de um artista e pedagogo pouco estudado na historiografia brasileira. E o correlaciona aos avanços da fase de modernização da atividade cênica no país; no caso do legado em foco, a partir do início da década de 1950.

Na condição de ator e autor do livro, fruto de mestrado defendido na USP em 2012, Ney Piacentini não perde o prumo dialético que caracteriza seu trabalho na Companhia do Latão, da qual é cofundador em 1997. O rastreamento da evolução pedagógica do russo naturalizado brasileiro Eugênio Kusnet (1898-1975) levanta documentos, colhe relatos de atores e diretores que conviveram com ele e, sobretudo, afere as contradições sempre luminares tanto de parte dos escritos e falares de Kusnet como de sua recepção no Brasil.

O livro esclarece que a assimilação da filosofia e dos procedimentos para a construção do personagem – segundo o teatrólogo Constantin Stanislavski (1963-1938) e a geração do Teatro de Arte de Moscou – ocorre no Brasil e não na extinta União Soviética, onde Kusnet nasce no mesmo ano de fundação do TAM (1898).

Kusnet reatava assim os laços com o trabalho de ator que conduziria concomitantemente à militância de professor e pesquisador exercida com plenitude por mais outros 24 anos, até a morte em 1975, aos 76 anos. O aspecto biográfico pincelado já é suficiente para instigar a atenção do leitor sobre as peculiaridades dessa personalidade, mas o objeto de análise de Piacentini concentra-se, obviamente, na tarefa do pedagogo em construção.Quando Kusnet migra para o Brasil em 1927, aos 29 anos, ainda eram escassas em seu país as publicações em que Stanislavski se debruçaria sobre o chamado “Sistema” ou “Método”. O ator vinha de seis anos de experiências não profissionais e deparou com uma cultura teatral (carioca e paulista) ainda acanhada se comparada à tradição russa. Mudou os planos e foi trabalhar como motorista de caminhão para logo depois abrir uma fábrica de plásticos. Viveu 24 anos sem lidar organicamente com as artes cênicas, até 1951, quando foi convidado pelo também polonês Zbigniew Ziembinski (1908-1978) a atuar emPaiol velho, de Abílio Pereira de Almeida, uma produção do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), companhia empenhada em demarcar a profissionalização e, consequentemente, a visão industrial do entretenimento em seus primeiros passos.

Entre testemunhas que o autor entrevistou, como Renato Borghi, Walmor Chagas, Flávio Migliaccio e Miriam Mehler, o relato de Fernanda Montenegro ilustra o nível de transformação em curso: “(…) ele trazia o sentimento eslavo de cavoucar um pouco mais a alma”. Era de subjetividades assim que Kusnet tratava para forjar objetivamente recursos que subsidiassem técnica e poeticamente a representação. Não foram poucas as resistências superadas quando, para tal, carecia de muita disciplina e disponibilidade de cada elenco.

Por onde passou impregnou o respeito e o amor à arte, vide a Companhia Maria Della Costa, o Teatro de Arena e o Teatro Oficina. Os conteúdos mais elucidativos são aqueles em que Piacentini se debruça sobre a interação com os criadores do Arena e do Oficina, grupos de fortes traços ideológicos. É exemplar a passagem relativa aos ensaios de Eles não usam black-tie (1958), de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006). Kusnet interpreta Otávio, militante político que discorda da ação do filho Tião, vivido pelo próprio Guarnieri, durante a grave na fábrica em que são operários. Num exercício, ele sugere ao diretor José Renato (1926-2011) que os atores se postem de costas, um para o outro, evidenciando física e espacialmente (a disposição circular do Teatro de Arena) os pontos de vista em choque.

É no Oficina pré-tropicalista de José Celso Martinez Corrêa que Eugênio Kusnet experimenta de forma mais radical e profícua a simbiose ator-pedagogo. Piacentini mergulha em depoimentos e situações do período criativo de Pequenos Burgueses (1963), em que ele sistematiza a formação dos atores em curso paralelo aos ensaios. Noções como “memória emotiva” (o intérprete relembra emoções pelas quais passou ao longo da vida e as transfere para a experiência fictícia) e “subtexto” (o que se estabelece como pensamentos do personagem antes, depois e durante as falas do texto) incide com veemência na consciência e na qualidade das atuações.

Para Kusnet, a escuta precede a fala. É seminal saber ouvir a si e ao outro em cena. Em sua análise proativa, Ney Piacentini faz uma apreciação consistente da trajetória do artífice e do pedagogo, clareando a memória e friccionando os posicionamentos estéticos e éticos à luz dos modos de criar e pensar o teatro nos dias de hoje.

Em tempo: uma segunda edição pede revisão de deslizes de digitação e em grafias como no nome recorrente do ator Walmor Chagas (1930-2013). (originalmente no outras palavras)

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