Litera Terra: “As coisas são como são” (Pedro Moacyr Pérez da Silveira)

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“As coisas são como são”, se dita para esclarecer o mundo humano, é uma frase que implica a recusa, habitualmente inconsciente, à ideia de regras e de formação de todas as estruturas culturais. É, em verdade, o principal pensamento de negação da dialética. Com ela, tudo se justifica, mesmo o monstruoso, o iníquo e o vilipendioso, e são inviabilizadas, por serem entendidas como inúteis, as tentativas de transformação de condições vivenciais contra as quais nos opomos. Perde-se a noção de processo e invalidamos a crítica e o julgamento – em seu lugar colocamos apenas o que nos resta, ou seja, o lamento e a adaptação. Essa frase opõe-se ao futuro, que é o porvir construído desde o hoje, e se irmana com o destino, que é o inevitável amanhã, e contra o qual nada podemos fazer. A meu ver, esse modelo de fundamentalismo laico é o elemento mental mais perigoso e nocivo que vem, com seus velocíssimos cavalos de fogo e seu exército habilíssimo na arte de não argumentar, invadindo a contemporaneidade. Baionetas estúpidas cravam na carne dos resistentes, chispas florejam em carabinas imbecis, tanques paquidérmicos vêm encantados com a sua virilidade estulta, e assistimos mísseis impetuosos chegarem com a inocuidade de seus estrondos.

O floreio dessas qualificações finais é, claro, proposital. Destina-se a brincar com palavras. Mas, se pictórica fosse minha intenção, na tela que eu imagino estaria a direita política montada nesses cavalos de fogo, espalhando incompreensão, lanceando almas, apontando armas contra minorias e esmagando, com seus quelônios motorizados e indevassáveis, especialmente os desvalidos e os argumentadores, para finalmente vibrar com a violência de seus mísseis réprobos, quando eles destruíssem as indigentes e minguadas forças de quem não teve a sorte de uma chance para aquecer-se ao sol nessa vida danada.

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