RAIZ CIDADANISTA: Nhanderú no comando: a retomada Mbya-Guarani de Maquiné – RS

Raiz

  • 06 de Abril de 2017

Por Marcelo Soares*

 

Não é difícil imaginar a alegria das famílias Mbya-Guarani ao retomar a área da extinta FEPAGRO, no último dia 27 de janeiro.

 Se um jurua (1) como eu já sente um contentamento indescritível ao percorrer a trilha que leva à nova tekoá (2) de Maquiné, pela beleza da mata e a certeza de partilhar desta conquista histórica do povo guarani, as famílias que a estão protagonizando não deixam de salientar em suas falas a alegria de poderem exercitar o seu modo de vida, o bem viver, em uma terra que Nhanderú (3) escolheu para eles.

Tanto o cacique Cirilo da Lomba do Pinheiro, que está apoiando a retomada, como o cacique da nova tekoá, Andre Benites, sempre destacaram nas diversas reuniões com apoiadores, na audiência de conciliação com o Governo do Estado ou na audiência pública da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, justamente a oportunidade de reencontro da sua ancestralidade e a certeza de que esta terra lhes permite vivenciar em plenitude a sua cultura e espiritualidade.

Eles sempre enfatizam que é Nhanderú quem está no comando da retomada, demonstrando que a força desta não se encontra neles ou nas diversas entidades e movimentos que a apoiam, mas em uma força maior que gera toda esta energia e unidade na resistência. Esse aliás é um ponto que deve ser destacado no sucesso desta retomada, ou seja, o protagonismo dos Mbya-Guarani, que permitiu aglutinar apoios importantes como os do CIMI (Conselho indigenista Missionário), AEPIM (Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários), a ANAMA (Ação Nascente Maquiné), a RAiZ – Movimento Cidadanista e diversos professores e estudantes de antropologia e moradores da região.

Apoios que foram fundamentais, principalmente em termos técnicos, para demonstrar a presença histórica dos Guaranis nessa área, como demonstra o “Relatório antropológico preliminar sobre retomada Mbya-Guarani de parte da área da FEPAGRO em processo de extinção no município de Maquiné – RS” elaborado pelo Departamento de Antropologia e Laboratório de Arqueologia e Etnologia da UFRGS.

Ao analisar as caraterísticas de mobilidade, itinerância e sazonalidade dos guaranis, bem como a sua espiritualidade, este relatório aponta a clara identificação desta terra como um espaço sagrado pelas famílias que a ocuparam: “Os Mbya-Guarani reconhecem áreas habitadas por seus ancestrais (nos termos poéticos dos mitos Mbya, “florestas plantadas pelos deuses”) conforme presença, concentração e distribuição das espécies vegetais e animais em cada lugar por eles frequentado. As matas existentes dentro da área apropriada pela FEPAGRO possuem muitas evidências míticas e ecológicas do manejo ancestral Guarani. Não se está referindo aqui o elogiável resultado do importante trabalho realizado pelos projetos e ações da antiga FEPAGRO, que produziu um grande pomar de árvores frutíferas nativas em torno ao qual a aldeia Mbya-Garani se criou hoje e é objeto de respeito principalmente entre as crianças Mbya. Trata-se de concentrações de certas espécies vegetais nativas e animais silvestres que se encaixam em seus padrões tradicionais de ocupação no território das encostas do planalto onde se instalou a FEPAGRO.” (4)

Essa concepção da terra como um espaço sagrado choca-se com a visão da terra como mercadoria que o Governo Sartori está implementando, pois antes mesmo do projeto de extinção das fundações públicas, entre as quais se encontra a FEPAGRO, havia aprovado na Assembleia Legislativa outro projeto que permitia ao Governo do Estado negociar terras públicas sem a aprovação da própria Assembleia. E terras como essa de Maquiné  despertam a cobiça das grandes construtoras para empreendimentos imobiliários.

O argumento da Procuradoria Geral do Estado para obter a reintegração de posse da área, de que as pesquisas da FEPAGRO estariam sendo prejudicadas, é desmentido pelo próprio administrador da estação experimental, que reconhece ser possível dividir a área de 367 hectares com os Mbya-Guarani, até porque as pesquisas estão paralisadas com o processo de extinção da Fundação.

Na audiência pública realizada na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa houve unanimidade no reconhecimento do direito dos Mbya-Guarani à essa área e à busca de uma solução negociada que parece estar avançando, pois o Governo do Estado solicitou o adiamento da reintegração de posse por 30 dias, justamente para buscar um acordo.

Como o cacique Andre Benites sempre diz, esse é um problema nosso, dos juruas, pois Nhanderú já lhes sinalizou que essa terra é e sempre foi deles. Já construíram uma opy (5), casas para todas as famílias e estão negociando a implantação de uma escola na nova tekoá. E fazem questão de sempre demonstrar sua alegria em poderem usufruir desta mata, das árvores frutíferas, do rio de águas limpas e, principalmente, por caminharem nestas trilhas que seus antepassados percorreram antes de serem expulsos pelos juruas.

* Marcelo Soares é sociólogo e integrante da RAiZ – Movimento Cidadanista no Rio Grande do Sul

** Foto: Ana Z Santana

Notas:

  1. – Homem branco
  2. – Aldeia
  3. – Em guarani significa “Deus Verdadeiro. É o Deus de forma humana cujos olhos refletem a infinidade das cores. Onde aparece, reflete luz.
  4. Departamento de Antropologia e Laboratório de Arqueologia e Etnologia da UFRGS. Relatório antropológico preliminar sobre retomada Mbya-Guarani de parte da área da FEPAGRO em processo de extinção no município de Maquiné – RS.
  5. Casa de cerimônias

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