Sete de Abril – Restaurar: para quem e para o quê? (Clóvis Veronez)

reage

Acontece hoje (18:30 H na câmara dos vereadores), uma audiência pública para discutir os sete anos de fechamento do teatro Sete de Abril.

O chamamento para o evento convoca os artistas a reagirem diante do fato.

Tal mobilização não é inédita na história do Sete. Lá pelo começo dos anos 80, com o teatro em ruínas, dois grupos teatrais (cuidado a casa tá caindo e o 20 prás 8 lá no mauá) ocuparam aquele espaço de forma consequente para o momento, apresentando com cadeiras dispostas no palco, transformado em arena, as suas produções cênicas, numa atmosfera de intenso movimento cultural, tanto em Pelotas quanto no resto do país.

A atitude transgressora/artística, levou a uma imediata atitude do poder publico. O teatro ganhou cara nova, com investimento público local e nacional, via o extinto INACEN (Instituto Nacional de Artes Cênicas). A Pelotas, daquele tempo, experimentou um fantástico impulso na sua produção cultural. Vieram os festivais de Teatro, Dança e o inesquecível Latino Música. Importante lembrar que tudo isso com recursos públicos.

De lá para cá, tudo mudou.

Outra reforma foi feita no início dos anos 2000, muito mais cara e sem que produzisse sequer sombra do efeito da que lhe precedeu. Troca tapete, recupera lustre, forra as cadeiras e o Sete, finalmente, tornou-se palco de produções que primavam por “qualidade reconhecida”, voltada ao público “culto” e seleto, mas cada vez mais distante da produção local que havia impulsionado no período anterior.

Outra reforma ainda foi feita, para troca dos equipamento de áudio e iluminação.

No conjunto todo, uma soma de recursos fabulosa, para que o teatro se afastasse cada vez mais da produção local e do seu fomento.

Restaurar o Sete é importante. Mais importante ainda, questionar o verdadeiro motivo do seu fechamento (inicialmente goteiras). Esse trâmite, acabou por demandar uma soma de recursos enorme, já aportados nas três reformas anteriores.

O Sete, em que pese sua importância, convenhamos, é um edifício cênico arcaico que não serve, por exemplo, a produção contemporânea do teatro brasileiro. Somados os investimento anteriores e o que hoje se anuncia, teríamos a chance de ter na cidade um espaço cênico moderno.

A quem interessou e ainda interessa essa maratona de reformas, que no final servem ao deleite de gosto duvidoso e ao distanciamento do fazer artístico local? Resposta: aos que lucram com o custo elevado das reformas.

É muito provável que o teatro, depois de reparado o seu telhado, estivesse em condições de ser “remontado”. Por que não foi? Em que condições foram armazenados seus equipamentos? Suas poltronas, cadeiras, equipamentos técnicos etc. Estariam, agora, condenados? Passar a borracha sobre isso é romântico e irresponsável.

Penso que é oportuno lembrar, aos interessados, que existe um outro teatro fechado (entregue aos cupins) e gritando por socorro em Pelotas. É o teatro do COP, um equipamento importantíssimo para o desenvolvimento das artes cênicas no município, até pouco tempo. O custo do seus restauro (por enquanto) é insignificante.  Sobre o auditório do colégio pelotense, nem vou falar, embora seu potencial para abrigar varias manifestações no campo das artes cênicas.

Que os movimentos na área da cultura façam essa discussão.  É importante que aconteça sem romantismo aristocrático e espelhe a miserável e dura realidade da produção cênica local.

Mais, ainda, que discuta as politicas para sua utilização futura, visto que acaba sempre, posterior às “reformas”, voltando-se a uma produção “culta”, seletiva, externa e cara.

Quando muito, salvo exceções, ao deleite “estético” de uma “casta” midiotizada ou/e encantada pela estética da Globo.

Se for para servir ao lixo da televisão, que fique fechado!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *