Entretenimento, consumo e valores na periferia

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Por Pedro Simon Camarão

A pesquisa produzida pela Fundação Perseu Abramo sobre a percepção e os valores políticos de moradores da periferia de São Paulo mostra que uma população vítima de inúmeras injustiças sociais e historicamente excluída assume discurso semelhante ao das classes médias e da elite. Defende a meritocracia, acredita no empreendedorismo e enxerga o Estado como grande inimigo do cidadão.

Do ponto de vista da Comunicação como ciência, todos os resultados que a pesquisa demonstra são construções de sentido, significados que se constroem a partir de determinados referenciais, e interessa muito conhecer quais são essas referências.

Os pontos referenciais é que permitem compreender o caminho pelo qual opiniões e valores se construíram e é a partir deles que novos valores podem ser formados. Já as opiniões, sempre podem ser vistas como passageiras. Outras vêm e substituem as anteriores num ciclo que nunca acaba. Então, separar o que é opinião e o que são os valores se faz fundamental para compreender a visão dessas parcelas da periferia que foram analisadas.

De acordo com o levantamento, é através da grande mídia, principalmente pela televisão, que essas pessoas procuram se informar. Os telejornais, na sua maioria, trazem informações superficiais e, como aponta o estudo, os entrevistados têm uma rotina agitada e sufocante. Depois de uma dia cansativo, e diante da velocidade das notícias do telejornal, provavelmente, pouca informação seja apreendida.

A isso, se soma o fato de o telespectador não ser um receptor de informações passivo e inerte. Ou seja, o espectador interage com a informação e dá um novo significado para ela, valorizando mais um detalhe do que outro, deixando passar alguma coisa e captando somente outra parte da informação. Vendo assim, o poder do jornalismo fica fragilizado, permitindo acreditar que ele não é capaz de influenciar a formação de valores.

Já o entretenimento, presente na televisão, no cinema e na internet, pode ser considerado um difusor de mensagens muito mais forte, maior e, consequentemente, mais importante para a formação de valores. É o entretenimento quem mais toca na sensibilidade dos espectadores para apresentar mensagens e gerar desejos. Quem nunca sentiu vontade de comer alguma coisa por ver uma comida gostosa na televisão, ou quis estar num lugar e numa situação como a que se assistia na telinha? O que demonstra que a imagem e o som nos atingem com profundidade e dificilmente conseguimos estabelecer barreiras que nos protejam dessas sensações.

O estudo fornece um bom exemplo para reflexão, ele aponta que gerações distintas apresentaram entendimentos diferentes sobre a relação com o consumo. Os mais velhos acreditam que o consumo deve ser básico, já os mais novos são apegados a consumos supérfluos, ligados a determinadas marcas. Ou seja, são valores diferentes.

Quais eram os discursos que os programas de entretenimento na televisão transmitiam nas décadas de 80 e 90? Certamente, bem diferentes dos que se vê hoje, inclusive pelo avanço da tecnologia. As gerações mais novas que ainda estão estabelecendo seus referenciais consomem um entretenimento muito mais ligado às sensações e que vende estilos de vida conectados às marcas que são expostas.

O significado que os entrevistados dão ao dinheiro e ao status de “ser patrão” pode ser comparado à imagem que personagens de programas de televisão ou de filmes americanos conferem a esses dois objetos da sociedade. É como se a partir dessas imagens se criasse o desejo de ser daquela forma, de assumir aquele papel. O entretenimento é um instrumento que pode ser entendido como a comunicação que não comunica nada, ele é apenas uma ferramenta de convencimento.

É possível deduzir que o entretenimento tem forte influência sobre as pessoas que foram entrevistadas. O que fica evidente quando elas dizem acreditar que a política seria melhor se houvesse apenas um partido e que ele fosse constituído somente por pessoas idôneas, como se tudo pudesse se resolver num passe de mágica, igual ao que se vê nos filmes onde um herói salva a todos.

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