Teatro do oprimido: um teatro das emergências sociais e do conhecimento coletivo

Boal

 

 

 

 

 

 

O Teatro do Oprimido (TO) é um método teatral em que a construção do drama é realizada por pessoas que sofrem opressões, conceitualmente consideradas entraves para a realização de desejos e para a experiência de uma vida livre, democrática, humana. O drama é real e estético, teatral e cotidiano, com características próprias que visam facilitar o diálogo com a plateia. No TO, os espectadores passam a ser espect-atores, pois, em vez de afastados da cena e alienados na identificação catártica acrítica, são convidados a participar debatendo e apresentando suas saídas para as situações-limite encenadas.

O TO foi criado por Augusto Boal (1931-2009) como reação à alienação do teatro tradicional, cujo desenho mantém em oposição os técnicos, possuidores da arte e da ideologia que deve ser aprendida e assimilada, e o público, que as recebe passivamente através da percepção adormecida e acrítica. Essa forma de teatro surgiu como método de intervenção num momento de democratização do conhecimento e das decisões públicas, de descolonização dos saberes, da política e da cultura, num movimento contra-hegemônico de globalização. Cada vez mais aceito em áreas acadêmicas e profissionais como a educação, a psicologia, a economia e a comunicação, o TO apresenta-se como ferramenta importante para a participação popular e a criação coletiva de novas subjetivações desalienadas, mostrando-se uma ferramenta também proveitosa na construção de saberes e de políticas, especialmente nos debates sobre a cidadania, a democracia e a resolução de problemas em países do Global Sul (J. A. Nunes, 2003).

Teixeira (2004) sintetiza os objetivos do TO na mudança do espectador do lugar alienado para o de sujeito, ativo em sua história, visando não à contemplação do presente, mas à preparação para o momento seguinte. A Associação Internacional do Teatro do Oprimido (AITO, 2012), por sua vez, salienta, entre as finalidades do TO, uma das mais imprescindíveis: restabelecer o diálogo entre os seres humanos, evitando a construção de relações opressoras e oprimidas. Assim, deve-se promover o intercâmbio livre entre sujeitos, de forma individual ou coletiva, e sua livre participação como cidadãos iguais. Trata-se do ideal de simetria da democracia participativa, tão difícil de ser alcançado, já que todas as relações são atravessadas pelos mecanismos de poder.

Estudos a respeito das experiências com o TO consideram que o debate operado por meio de cenas, falas e emoções diminui a possibilidade de opressão pela forma hegemônica da racionalidade comunicativa (Cecheti, 2004; Leal, 2010). Na perspectiva do TO, solicita-se que os atores construam espetáculos sobre suas próprias opressões e ofertem o palco para que o público participe em cena e desenvolva o diálogo para a produção de transformações em seus lugares discursivos, sendo todo o processo mediado pela figura especializada em TO: o curinga (Boal, 2005b). O TO formula-se como promessa de efetiva validação dessa participação, por sua capacidade de democratizar os debates em espaços públicos de decisão política (Cecheti, 2004; Baiochi, 2006, citado por Leal, 2010). Contudo, alguns autores problematizam a concretização dessa proposta. Leal (2010), por exemplo, em estudo acerca da utilização do TO no orçamento participativo em Santo André, reconhece contribuições da ferramenta TO para a participação política dos cidadãos, ao mesmo tempo que aponta para distorções que reduzem o TO a uma função de animação cultural ou de mantenedor do discurso vigente, pretensamente participativo. O autor chama a atenção para as relações de poder existentes dentro do teatro, sua poética e suas funções. Na mesma linha, Castro-Pozo (2006) problematiza o poder conferido ao curinga que, como sabedor e orador, detém o discurso de controle, concentrando um poder que pode levá-lo a conduções nem sempre democráticas.

Diante desse tipo de problematização, é importante considerar que a participação pode ser hegemônica ou contra-hegemônica. Esta última implica democracia e emancipação a partir do momento em que não confirma discursos hegemônicos, abrindo-se a para novas racionalidades, experiências e sentimentos (J. A. Nunes, 2003). Autores que têm discutido a participação popular na construção do conhecimento científico propõem que os cidadãos realizem todas as etapas da participação –agendamento, debate, deliberação e execução –, podendo, em alguns casos, demonstrar suas questões e saberes antes mesmo do debate dos pontos agendados. Isso resulta no que Santos e Avritzer conceituam como demodiversidade: o reconhecimento da diversidade de concepções e de formas de exercício da democracia, que implica em considerar como base da democracia e da justiça cognitiva as distintas concepções e exercícios das mesmas (J. A. Nunes, 2003; Santos & Avritzer, 2002; Santos, Meneses, & Nunes, 2004). Nessa perspectiva, J. A. Nunes (2003) refere a pedagogia de Paulo Freire, o Teatro do Oprimido de Augusto Boal e as narrativas de testemunho (testimonio) como recursos para projetos de participação pública, “capazes de problematizar as hierarquias cognitivas e de ampliar os repertórios de competências e de conhecimentos que podem ser apropriados pelos cidadãos” (p. 8).

Como é possível perceber, o modelo proposto pelo TO investe numa participação que se pretende conjunta e efetiva. Ele tem embasado leis, ações e conhecimentos, permitindo uma circulação cada vez maior de saberes em diferentes grupos. Schmidt (2006) revê a história da pesquisa participante e a origem do movimento pela “pesquisa-ação-participativa” incluindo suas características normatizadoras, adequadoras de populações marginalizadas numa determinada ordem, mas que em seu desenvolvimento crítico culminam em pesquisas interventivas cuja produção de conhecimento não está separada da transformação social. Sabe-se que uma produção coletiva modifica necessariamente a comunidade que constrói o conhecimento sobre si mesma e sobre suas próprias questões. Maraschin (2004) entende que esse pesquisar proposto pela psicologia social, especialmente nas pesquisas interventivas, deve ser pensado como um conhecimento em ação que produz territórios de subjetivação, instituintes, criativos e produtores de possibilidades e de fenômenos.

A construção teórica que se articula neste ensaio pretende investir no desenvolvimento do TO como ferramenta metodológica ao propor um formato que fortaleça a “pesquisa-ação-participativa” relativa ao entendimento e ao empoderamento do núcleo sujeito-pesquisador, de modo a construir um conhecimento que re-signifique a participação de pessoas de diversas regionalidades e classes. Tal modalidade de pesquisa advém do compromisso da psicologia social latino-americana com a transformação social, atenta ao contexto de exclusão e desapropriação de identidades e experiências, e reflete o movimento anticolonialismo (Spink, 2007). Nas palavras de Boaventura de Sousa Santos (2006), uma globalização contra-hegemônica pode não objetivar a transformação, mas é capaz de gerar transparência e compreensão dos fenômenos.

O Teatro do Oprimido no mundo: a multiplicação do método e suas conquistas

O método do TO foi criado na década de 1970 pelo teatrólogo Augusto Boal, e atualmente é praticado em mais de setenta países por pessoas em total diversidade de gênero, faixa etária, etnia, cultura e profissão, mas que possuem em comum os objetivos de transformação social e desenvolvimento humano por meio da arte.

Em sua obra An Esthetics of the Oppressed, lançada em Londres no início de 2006, Boal propõe que a Estética do Oprimido seja compreendida como ética-raiz de uma árvore de frutos diversificados: teatro, dança, artes plásticas, design, vídeo e música. A Estética do Oprimido baseia-se na possibilidade de expansão do ser humano e em sua expressão pela arte, partindo do pressuposto de que todas as pessoas podem criar e dialogar, re-criando assim a realidade, para si mesmas e para aqueles com os quais interagem (Boal, 2009). Para Teixeira (2004), a base do método é a “forma dialogal” do teatro, integrada aos princípios da pedagogia de Paulo Freire, que concebe o ensino como “transitividade, democracia, diálogo” (p. 120). Segundo Boal, seu método é uma forma de intervenção social e política, visto que “todo mundo pode ensinar e todo mundo pode aprender” (Teixeira, 2004, p. 120).

Diferentes objetivos têm motivado a escolha do TO como ferramenta de pesquisa e intervenção. Vierk (1997) usou o TO para possibilitar o desenvolvimento do raciocínio crítico e da escrita criativa com estudantes do Metropolitan Community College, em Nebraska, Estados Unidos. Fernandes e Joca (2011), no campo da psicologia social, lançaram mão de técnicas do Arco-íris do Desejo para construir dados não verbais sobre a temática da loucura; no mesmo campo, S. B. Nunes (2004) usou o TO como ferramenta de ensino, além de capacitar estudantes como multiplicadores em trabalhos de integração universidade-comunidade. Recursos do TO foram utilizados para promover o debate entre cidadãos sobre a exposição a riscos tóxicos (Sullivan & Parras, 2008). Em sua pesquisa de mestrado, Leal (2010) coloca o TO tanto no lugar de objeto de estudo como no de método de construção de dados, debatendo com o pensamento de Michel Foucault a experiência do TO no Orçamento Participativo de Santo André.

Jester (2003), por outro lado, aborda o TO como método de coleta de dados. O autor relata que suas expectativas foram superadas, pois, além de fornecer-lhe um imenso material para a pesquisa, o TO foi meio de fortalecimento e expressão de desejos das mulheres, sujeitos de sua pesquisa. Campos (2005), em abordagem de intervenção e pesquisa com usuários de um Centro de Atenção Psicossocial, lança mão do TO aliado à psicologia (o Arco-íris do Desejo) e aos conceitos do Teatro Espontâneo (Moreno) e da Psicanálise Contemporânea (Herrmann), concluindo que a expressão cênica das opressões permitiu a sua transformação.

A partir de seus estudos, Campos (2005, 2008) discute as possibilidades de deslocamento do discurso que a ferramenta pode proporcionar ao usuário e profissional de saúde mental – o qual muitas vezes é ventríloquo de discursos opressores manicomiais. Sobre isso, Boal (1996) nos lembra que, ao contar a história, ou revivê-la, o sujeito tem a possibilidade de reescrevê-la.

Outros esforços teórico-metodológicos podem fortalecer e dar sentido ao TO como multiferramenta (participação, transformação, pesquisa-ação, intervenção). Destacamos aqui a contribuição da Sociopoética de Jaques Gauthier, que integra as técnicas e o pensamento do TO a outros pensamentos teóricos para possibilitar a produção de conhecimento intercultural nas áreas de saúde e ciências humanas. A Sociopoética apresenta-se como resistência ao massacre cultural, ampliando e valorizando culturas locais, crenças, religiosidades e ciências marginalizadas, além de permitir a prática de uma ciência mais sensível. Gauthier integra o TO à pedagogia de Paulo Freire, aliando as ideias de Deleuze e Bakthin, num movimento próximo ao iniciado pela psicologia social brasileira na década de 1980 com a organização do livro sobre pesquisa participante de Carlos Brandão (1981), como bem lembra Spink (2007).

A valorização de saberes populares e coletivos tem se constituído o maior desafio da psicologia social em sua busca para manter-se eticamente disponível para a escuta e para o olhar, reconhecendo-se parte do objeto. Os sujeitos são participantes da interpretação e do resultado final, em oposição à neutralidade e à exatidão positivistas, necessárias ao reconhecimento científico tradicionalmente praticado. Acerca desse caminho que Spink (2007) nomeia de anticolonialismo epistemológico, as fendas abissais entre os saberes e culturas devem ser minoradas “colocando as ferramentas de produção de conhecimento à disposição da produção coletiva” (Spink, 2007, p. 9). Nessa perspectiva, toda a obra de Boaventura de Sousa Santos critica a universidade atual ao propor uma “universidade de ideias” e contribuir ao debate da psicologia no que se refere à ética e ao compromisso social e de emancipação da ciência dos investigadores da área. Schmidt (2006) faz um apelo a se repensar as dimensões éticas da pesquisa participante e em seu potencial para aglutinar possibilidades de ruptura com a lógica positivista, que separa sujeitos de objetos, sujeitos de suas próprias experiências e suas possibilidades em interpretar suas vivências juntamente com os considerados experts.

A comunicação por meio da linguagem dramática ainda não tem seu caráter científico reconhecido. Para que isso ocorra, tem sido submetida a traduções da estética em racionalidades hegemônicas (J. A. Nunes, 2003). Essa racionalização da arte faz com que a estética pareça única, tornando sua leitura possível apenas aos poucos que a dominam e compreendem, sabidamente as classes mais valorizadas socialmente. Há ainda a supressão ou achatamento dos opositores da razão que valorizam a emoção, a espiritualidade, a arte e a cultura nas pesquisas consideradas científicas. Desse modo, o teatro não poderia ser ciência, assim como para alguns a psicologia só seria ciência se tocasse a alma como coisa, chamando-a, por exemplo, de comportamento observável ou de pensamento descritível.

A expressão possibilitada pelo TO emerge como expressão do desejo de sujeitos que se chocam com alguma realidade voltada para a não realização desse desejo. Tal ponto, especificamente, requer a efetiva participação dos cidadãos. A participação não pode limitar-se à elaboração de temas, ou à sua demonstração e debate: mesmo tendo etapas imprescindíveis, a cidadania se efetiva na ação sobre o espaço – que então poderá ser habitado pela diversidade dos desejos. As soluções encenadas ou debatidas, se compreendidas como prontas ou literalmente utilizáveis, podem acabar inertes no chão, desperdiçadas. Apenas a prática política da discussão já seria válida, mas certamente seria desejável que resultados práticos fossem possíveis. Para isso, o TO possui uma ferramenta inigualável: o Teatro Legislativo, que possibilita que cidadãos comuns possam legislar e garantir, de forma normatizada, seus direitos. Neste ponto, podemos relacionar a prática educativa do TO com sua prática legislativa. Para uma sociedade de fato democrática, é imprescindível a participação popular na consolidação de políticas públicas, e isso requer um trabalho que auxilie os sujeitos a pensar as relações de poder envolvidas em suas questões, permitindo a ampla discussão de suas necessidades, bem como sua expressão.

No Teatro Legislativo, a comunidade pode participar da elaboração democrática de leis – que são discutidas não apenas verbalmente, mas com base nas encenações de espect-atores que entram em cena para apontar alternativas e soluções a questões conflituosas dramatizadas pelo grupo. Sendo assim, a participação popular pode se dar de duas maneiras: como ator-construtor ou como ator-plateia (Boal, 1996). Exemplificando concretamente o poder democratizante do TO, pode-se citar o fato de que, no estado e na cidade do Rio de Janeiro, o Teatro Legislativo gestou e produziu leis municipais e outros documentos legais com a participação da população. O Teatro Legislativo é fruto do mandato de vereador, na cidade do Rio de Janeiro, de Boal. Durante quatro anos, os companheiros de Teatro do Oprimido que o acompanharam durante a campanha o assessoravam em seu gabinete. Esta assessoria agregava grupos de interesse que tinham participação direta nas ações do vereador. Já no estado de São Paulo, o Teatro Legislativo foi integrado às sessões de Orçamento Participativo no período de 1998-2002.

Certamente, esta brevíssima incursão pelo TO não abrange a totalidade de seu alcance: centenas de projetos se desenvolvem mundo afora. Interessa-nos, contudo, tornar claras a conexão ética e a potência democrática que circulam em tais meios, ao mesmo tempo que não nos negamos a mostrar que, como práxis, o TO se submete às instituições e pessoas, poderes que se impõem de maneira evidente ou sutil, mas que sempre estão presentes nas relações, mesmo as mais criativas e libertárias.

Fernanda Nogueira CamposI; Maria Paula Panúncio-PintoII; Toyoko SaekiII

IFaculdades Metropolitanas Unidas, São Paulo/SP, Brasil
IIUniversidade de São Paulo, Ribeirão Preto/SP, Brasil

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