VIVER NA RESISTÊNCIA É MORRER COM INVENTÁRIO ( Pedro Moacyr Pérez da Silveira)

presente

 

Eram tantas as coisas que, vindas de fora, chacinavam as que dentro dele pareciam viver, Deus meu! Havia sido suprimida uma alegria que o acompanhava, pareciam já extintas as prosas amenas com os amigos, uns planos de que se nutria lhe pareceram minguar tanto que talvez não estivessem mais nele. Vivera por muitos anos com sua identidade simples, e a todos se mostrava com sua humilde e agradável pequenez humana. Essa miudeza deveríamos ter todos nós em meio aos préstimos da fraternidade geral, porque implica um tipo de bondade que se antagoniza com a moralidade inflada dos pretensiosos, imodestos e arrogantes. Ignorava, por pura lhaneza, que ser pequeno nessa vida é meio ser como o ar: tem a essência de uma entidade, é potente e inteiro, mas essa existência é invisível como são invisíveis as coisas que, buscando o calor mínimo duma percepção qualquer, vivem diáfanas. Os sentidos são insuficientes para notá-las. Acabam sendo criaturas conceituadas ou por uma secura científica, que lhes atesta e afirma a presença, ou são fecundadas numa imaginação sem amor, que as reconhece no núcleo de um engenho que as deserda. De uma forma ou de outra, pela ciência ou pela imaginação, são tidas como existentes, ainda que transitem como fantasmas por aí. Ele era então um serzinho quase imaterial, mas por conta desses milagres dumas poucas almas, não perdera as suas potências humanas, e desejava desafetadamente (talvez até sem entender seu desejo) alguma mão carnal a tocá-lo, no prazer tátil, alguns olhos a olhá-lo, na exultação de ser visto, certos ouvidos alertas, para ser um pouco escutado, e até mesmo algum olfato apurado que lhe notasse o cheiro da vida que tivera. Ao paladar, numa superior e inesperada pretensão, apreciava a ideia de que poderia ser digerido numa autofagia metafórica, para representar uma aceitação mais integral do que era. Ria dessa noção dos sentidos, no que conseguia sobre ela entender, pois tivera pouca apuração educacional e quase nenhum estudo ritualístico e formal suficiente para os discernimentos que aqui seriam necessários. De qualquer forma – e era só isso que pretendia fazer notar – escondia um segredo muito particular, mesmo que nas minudências existenciais em que se aconchegava. E onde ele se aninhava? Ninguém sabia, nem ele. Ou, pelo menos, não sabia bem. Tinha alguns sonhos indistintamente forjados, parecia. Idealizava, enevoadamente, a ilusão de um dia falar à humanidade inteira. Talvez dissesse uma só frase, para que tudo deixasse de ser como era. Sonho grande, sonho louco, mas isso lhe era muito, mesmo que soubesse vagamente que a humanidade não ouve nada de uma vez só, e na quase totalidade dos casos não ouve nada jamais.
Num dia semimorto, onde nada acontecia em meio àquela tarde em que se sobressaía um sol parcial, ele, tomado por um mandamento vindo das obscuridades do seu coração, saiu à janela da casa descolorida pelo tempo e se encorajou a falar sem testemunhas, invadido por aquela demência terminal dos que, nunca havendo tido voz, acabam por falar desatinados com o vento. Mas, estivessem por ali alguns passantes, falaria da mesma forma, pois há vezes em que um delírio crescente nos assoma de tal forma que nada nos impede de atendermos a nós mesmos, e transbordamos o líquido profuso de que somos feitos. Sem pejo, sem pudor, sem brida.
– Viver na resistência é morrer com inventário.
Disse isso e voltou para uma cadeira da sala, assento de napa, velho. Encostou-se no espaldar de molas expostas, como são os encostos dalgumas poltronas desvalidas. Ninguém lhe ouvira, já podemos supor. Sua translucidez continuaria, mas ele havia dito aquela frase.
Talvez, como todas as coisas que são ditas com o coração e com uma vontade irrefreável, ele sentiu terminar uma certa missão menor, a missão de sua pequenez. Um ser estabelecido em meio a uma insignificância transparente só existe quando produz alguma explosão de si mesmo. Acomodou-se melhor naquele respaldo que lhe machucava, com as molas rompendo o tecido, o dorso. Olhou bem a janela. Olhou bem para o que de si via – fora o rosto, que ninguém vê a própria cara sem o auxílio artificial e incerto dos espelhos. Não acendeu o cigarro, irrecusável noutras solidões, e se preparou para morrer, mesmo já estando gratamente morto. E morreu mesmo, mas ninguém sabe se houve o óbito tradicional ou se foi aquela outra morte, a do espírito. De qualquer forma, diante de seu pequeno feito de falar como quem algo comunica ao mundo todo, fez com que o desatino e o discernimento, irmanados, nunca soubessem dizer que tipo de falecimento ocorrera.
No outro dia, o sol como sempre nasceu irremediável, com sua majestade e indiferença, e ninguém sabe se os olhos dele o viram ou se estavam já longe desse mundo.
Ele, transparente como sempre, estava feliz. Na verdade, morrera de felicidade. Saiu à rua em meio ao seu sepultamento imperceptível. Também ninguém testemunhou sua ressurreição. Afinal, quem não é visto não é lembrado, diz uma afirmação popular. Não se lhe viu a tristeza, não se lhe viu a alegria.
Quando o sol já estava alto, nada mais, nem a ele e nem a ninguém, importava. Como para tantos nesse mundo, nada é de serventia e nada prejudica quando a translucidez desce como uma massa lívida e sem perdão do céu. Mas muitos daqueles a quem ninguém vê mantêm seus braços levantados. Eles conhecem algumas das razões das invisibilidades. E então escrevem, com forças sumidas, um SOS nas areias aprisionadoras, onde esses sofridos náufragos ainda movem alguns músculos que não foram e nunca serão notados por quem está em terra firme. Não se adaptam. Resistem. Não querem morrer sem inventário. Num último e fatigado gesto, ele seguiu a essas pessoas resolutas e valentes. Ouviu sua voz, ouviu sua fala, ouviu sua frase. Deu-se conta de si, de sua vida. Já não precisava de espelhos para notar-se.

Escrevi isso para, numa vã e pretensiosa intenção, lembrar o feriado de Tiradentes para trazer à atualidade um velho substantivo escolar que nunca ultrapassou os limites dos estudos para provas acadêmicas, mas que está na ordem do dia do Brasil: inconfidência, mas uma inconfidência diversa da que exalta o heroísmo do velho alferes. A inconfidência de agora vem na forma de uma traição revestida de normalidade. Seja como for, essa conjuração mostra-nos suas terríveis decorrências e nos chama à luta, mesmo que não saibamos lutar. Mais dois ou três meses e o Brasil estará irremediavelmente entregue ao capital estrangeiro, e nossa escravização começará sem prazo para terminar. Esse senhor, o invisível, numa de suas ressurreições obscuras, gritou novamente na sua janela, agora já lhe vendo correr nas veias o plasma que põe ânimo no corpo e brasa nos olhos:
– Viver na resistência é morrer com inventário.
Sejamos a favor do inventário, mesmo que – ah, pobre de nós – só tenhamos poucas palavras de denúncia, de revelação e de convencimento.
Eu, pelo menos eu, já cá estou, ao lado do invisível serzinho que se tomou de todas as forças para tentar falar a todos. Mesmo na presença de órgãos dos sentidos de muitos que não querem auxiliar a formação dos raciocínios e nem se associar à formação de uma razão discursiva defensável, cá estou, partido em alteregos com que me divirto, mas sem agora me divertir.
– Dr. Petrus?
– Presente.
– Pedro Moacyr?
– Presente.
– Professor Pedromo?
– Presente.
– Algo a dizer?
– Dia 28 de abril, todos vamos paralisar!
– Por que dizes isso, Dr. Petrus, Pedro Moacyr, Professor Pedromo, ou sejas mais lá quem fores?
– Viver na resistência é morrer com inventário.

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