ELOGIO DA DIALÉCTICA (por clóvis veronez)

dialética

 

A injustiça avança hoje a passo firme.

Quem pensa natural que nestes dias dantescos

Descendentes de escravos sejam amarrados

Nos postes de comunidades quilombolas

Como antepassados, agredidos, humilhados

Que um jovem ao asseverar sinta o crânio esfacelado

Ou que índios tenham membros decepados?

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Foi no lombo chicoteado e sanguinolento

Golpes de porrete, estalar dos chicotes, tortura

A forma que esta nação foi construída

Ainda o que haverá de brotar da estupidez pátria

Quanta vida abandonada, será preciso

Para que direitos à mínima dignidade

Na dor precisem ser lembrados?

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Expressões do autoritarismo, presentes ainda

Truculência policial sobrevoando o céu nas capitais

Em prisões que fazem lembrar os navios negreiros

Sofrimento dos povos originários em distritos rurais

Matéria mal apreendida nos livros de história

Nas arremetidas homicidas nega ver-se superada

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

O helicóptero da polícia sobrevoava baixo

Ostentando o barulho de suas hélices

E a metralhadora de seus soldados

Mateus, desmaiado, o que se passa na cabeça?

Minhas mãos, o que houve com elas?

Pergunta-se o índio Gamela desesperado

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes.

Falarão os dominados.

Do fluido escarlate

Tingimos bandeiras

Da lágrimas indignada

Alimentamos o grito

Do sangue que foi lavado

Não esquecemos!

 

 

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

(Em negrito nesse post, texto homônimo de Brecht)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *