‘Estou com vergonha do meu rosto’, diz sem-teto de 14 anos ferida por PM

CAROLINA LINHARES
DE BELO HORIZONTE

Aos 10 anos, ela fundou a União das Crianças Revolucionárias. Aos 14, ao participar de sua quinta ocupação de sem-teto, Nathaly Gabriela da Silva levou um tiro na boca de bala de borracha da PM.

“Estou com muita vergonha do meu rosto, mas com um pouco de alívio. Mais pra cima, eu ficaria cega. Mais pra baixo, eu poderia ter morrido”, diz a adolescente. O rosto inchado de Gabriela tem seis dentes a menos e oito pontos a mais. Essas marcas permanecerão do lado esquerdo da boca dela.

A lesão causou a ruptura da artéria facial e foi necessária uma transfusão de sangue. Após cirurgia, a menina recebeu alta na quarta (3). Gabriela foi atingida pela Polícia Militar durante uma ação de despejo na última segunda (1º), no município de Mário Campos, região metropolitana de Belo Horizonte.

Quatro dias antes, algumas famílias entraram no terreno. O MLB (Movimento de Luta nos Bairros), do qual Gabriela faz parte, articulou a ampliação da ocupação e, na madrugada de segunda, 150 famílias foram para o local.

A polícia chegou horas depois. Houve tentativa de negociação, mas a ação terminou em tiros de bala de borracha e bombas de gás. Um militante foi preso. “Eu achei que ia morrer, falei pra eles me deixarem lá que eu estava morrendo”, diz Gabriela. “Logo depois, eles jogaram uma bomba, e aí o machucado começou a arder muito.”

Em nota, a PM diz que, na ação, a adolescente “arremessa pedras contra os policiais e, em ato contínuo, é ferida”.

“As famílias resistiram a sair, porém foi uma resistência pacífica, com as mãos para o alto. Elas iam sair uma hora ou outra”, afirma Thales Viote, 29, advogado da Comissão de Direitos Humanos da seção mineira da OAB.

Segundo a PM, “a maioria dos invasores aparentava ter a intenção de se retirar, mas foram instigados pela liderança a resistir e, pior, a enfrentar os policiais militares, lançando mão de paus, pedras e outros objetos.”

Movimento de Luta nos Bairros
Momentos após o disparo, em que a adolescente é socorrida por outros manifestantes
Momentos após o disparo, em que a adolescente é socorrida por outros manifestantes

Não houve mandado judicial de reintegração de posse. A polícia afirma que dois policiais também foram feridos e que instaurou uma apuração sobre os fatos. O Ministério Público investiga o caso e uma audiência pública deve ocorrer na próxima semana.

“A gente tem uma preocupação gigante de tentar garantir a segurança das crianças e retirá-las do conflito”, diz Poliana Souza, 30, irmã de Gabriela. “Mesmo a gente falando pra ela não ir, ela vai”, diz a mãe, Rosemairy Souza, 50. As duas fazem parte do movimento sem-teto.

“Eu estava saindo, mas vi que os policiais estavam batendo nos companheiros e voltei. Nunca imaginei que um policial fosse mirar na minha cara e me dar um tiro”, afirma a menina. Segundo os militantes, também houve munição letal na ação. Eles dizem ter guardado a cápsula da bala. A PM afirmou ter disparado duas balas de borracha.

Antes de ser transferida para um hospital em BH, Gabriela foi levada para uma unidade de emergência em um carro particular. A família acusa a PM de não prestar socorro e de atribuir a eles a culpa do ocorrido.

A família de Gabriela vive na Ocupação Eliana Silva, em BH, iniciada em 2012 e com 286 casas. Desde então, a menina se envolveu nas ações do MLB e também na União Juventude Rebelião. “Não vai ser esse tiro que vai me calar”, diz.

O terreno pertence hoje a particulares. A área era do governo de Minas, que repartiu entre empresas para construção de um distrito industrial. Algumas firmas, porém, revenderam suas partes, que ficaram vazias.

Na ocupação, Gabriela faz cursos de inglês, teatro, rádio e comunicação. Por enquanto, se alimenta de mingau, purê e açaí, e diz não querer ir à escola. “Vai ficar todo mundo em cima de mim.” Ela tem recebido constantes visitas de amigos.

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