A quem interessa incêndio e quebra quebra em manifestações populares? (por clóvis veronez)

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A questão é delicada, afinal:

A “Violência” distingue-se por seu caráter instrumental. Seus instrumentos são concebidos e usados para o propósito da multiplicação do vigor (independência) natural até que, no último estágio de desenvolvimento, possam substituí-lo.

Para Hanna Arendt a violência é, por sua própria natureza, instrumental.

Como todos os meios, está sempre à procura de orientação e de justificativas pelo fim que busca. E aquilo que necessita de justificar-se, através de algo mais, não pode ser a essência de coisa alguma (p. 28).

O poder é “um fim em si mesmo”, longe de ser o meio para a consecução de um fim é a própria condição que possibilita a um grupo de pessoas pensar e agir em termos de meios e fins (apesar de poder ser usado como meio para se atingir determinados fins).

O poder não precisa de justificativas, mas de legitimidade.

Arendt buscará soluções para definição do poder em oposição à violência na polis grega.

O poder emana do povo, não é propriedade de um único indivíduo, pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido.

É, desse modo, um potencial, em que palavras e atos não se separam, na dependência de um acordo, as vezes frágil e temporário, mas correspondente à condição humana da pluralidade de vontades reunidas.

Viver em comum, então, para Arendt, deve dar-se através do discurso e da persuasão, e não da violência e do comando.

Para a autora nada é mais comum do que a combinação da violência com o poder. No entanto, não se pode daí concluir que a autoridade, o poder e a violência sejam uma mesma coisa.

Quando as ordens já não são obedecidas, os instrumentos da violência não são de utilidade alguma.

Tudo depende do poder por detrás da violência, governo algum existiu baseado só na violência.

Onde quer que se combinem, o poder é o fator fundamental e predominante.

( fichamento da obra Da Violência , de Hannah Arendt -lá do tempo de universidade)

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Revisitei esse trabalho, com objetivo de esclarecer a
opinião que expresso agora, como provocação ao diálogo, 
valendo-me do texto de Mauro Santayana
(publicado no site Tijolaço)

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A falta de controle, por parte dos comitês de organização da manifestação de ontem, 24, em Brasília, acabou sabotando a pauta que levou a maioria dos manifestantes à Praça dos Três Poderes, que era a de pedido de realização de eleições diretas e de repúdio às reformas trabalhista e previdenciária.

Manifestação da oposição, qualquer que seja ela, não pode ser feita sem a organização de comitês de segurança formados por gente de confiança escolhida entre os próprios manifestantes.

Se até nos blocos dos trios elétricos de Salvador dá para separar o público, bastando para isso um cordão humano e uma simples corda, porque não tentar fazer o mesmo em uma manifestação dessa importância?

Não é a polícia que tem que revistar os “participantes”.

Como ocorre em muitos países estrangeiros, quem tem que fazer isso, primeiro, são os próprios manifestantes, para possibilitar a rápida identificação de fascistas e infiltrados pagos que ali estão recebendo justamente para garantir que a imprensa e a opinião pública tenham razões suficientes para ficar contra e desancar quem está protestando.

Em política, qualquer cena de destruição e violência é passível de ser aproveitada pelo adversário.

Ao final da tarde de ontem em Brasília, a TV já reforçava, a todo instante, a ocorrência de atos de “vandalismo”.

Justificava, com isso, a truculência da polícia, e lembrava, a cada cinco minutos, que se tratava de manifestações organizadas e “pagas” por centrais sindicais.

Reforçando, indireta e gostosamente, a bandeira do enfraquecimento dos sindicatos e do fim do imposto sindical obrigatório.

E a convocação de tropas das forças armadas pelo presidente da República, em absurda “ação de garantia de lei e da ordem”.

Sem esclarecer, com a mesma ênfase, que o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já havia desmentido ter pedido – em gesto por si só já absolutamente desnecessário e inadequado – tropas do exército, e, sim, da Força Nacional, para “colaborar” com a polícia do Distrito Federal na “defesa” dos prédios da Esplanada dos Ministérios.

Um pouco de estratégia e de informações históricas não fazem mal a ninguém.

O Movimento das Diretas Já só deu certo, do ponto de vista da ampla e bem-sucedida mobilização da sociedade brasileira – embora tenha perdido no Congresso depois – porque era suprapartidário, reunia as mais importantes organizações da sociedade civil, como a Igreja, a UNE e a OAB, tinha sido “costurado” politicamente antes de sair para a rua, era ordeiro, organizado e pacífico e primava pela organização.

Vou falar o que penso, porque não sou vaquinha de presépio.

Compreende-se a necessidade da oposição ir à luta nessa hora, em defesa, principalmente, da democracia.

Mas se for para sair no improviso, de qualquer jeito, e acabar servindo de plataforma para a ação de provocadores fascistas, dando tiro pela culatra, ajudando a parte mais canalha da mídia a justificar a truculência da polícia, o enfraquecimento dos sindicatos e o golpismo, insuflando as vivandeiras dos quartéis e alimentando um novo golpe dentro do golpe, quem saiu para as ruas que me desculpe, mas é melhor ficar em casa assistindo, indignado, pela televisão, à ação dos infiltrados e à deprimente repetição de velhos e costumeiros descuidos do passado.

PS. Quem quiser ver um flagrante deste tipo de infiltração, em 2013, pode assistir aqui.

Um comentário

  • Custódio Josefino da Silva

    Concordo com a sua opinião sr.editor pois estas pessoas que fazem baderna estão desvirtuando a imagem dos protestos que pedem eleições diretas e são contra as reformas do vampiro, que por sua vez, tem o apoio da grande mídia, que deseja a perpetuação deste governo ilegítimo que está aí. Infelizmente os atos da última quinta-feira só serviram para fortalecer Temer com reflexos nas candidaturas Bolsonaro e Dória.

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