Violência ou desobediência? (clóvis veronez)

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Em sentido amplo, o conceito de revolução seria de uma transformação radical das estruturas de um determinado Estado ou sociedade, em vários campos distintos, com a quebra da ordem constituída.
Ocorreria num momento de não retorno ao modelo anterior. Isso, face a impossibilidade de ser realizada com os institutos vigentes numa determinada estrutura político-jurídica.
A revolução seria, portanto, um projeto fora da ordem jurídica.
Vivemos um momento de crise, inédito na história brasileira. O que o torna inédito é a capacidade de fazer circular a informação e a volatilidade da opinião pública sobre os acontecimentos da conjuntura política.
Esse fato remete a uma discussão fundamental sobre a estratégia e tática dos movimentos “revolucionários”. Qual seja, o modelo de ação a ser empregada para a mobilização das massas e a sua continuada acumulação.
Há dois caminhos apenas. A escolha por um deles é uma discussão emergencial que desafia nossa perspectiva de um futuro transformado para melhor.
A primeira opção é a da legitimação da ação de “grupos” sem representatividade social, que aproveitando-se de um latente (re)encantamento com a luta democrática em curso, lançarão chamas sobre o momento, atribuindo ao gesto violento a receita, o remédio, para a doença que aflige a democracia.
Tomaria-se como válidos, princípios como: a revolução seria movimento de massa (com grande participação popular), em que pretendem subverter fundamentalmente as esferas política, social e econômica, com a duração da luta sendo prolongada e a incidência de violência interna tornando-se elevada. Mesmo que para isso, seja necessário ir alem da vontade das massas, usando-as como escudo para uma aventura autônoma e, pela autonomia lhe justificando.
Em suma: uma transposição mecânica de um “marxismo” determinista, pautado em eventos históricos que não correspondem, em nível objetivo, à realidade dos dias atuais. Mais, como se o marxismo fosse não dialético, sim, pasmem, determinista.
A segunda, em via alternativa, é negar a violência do Estado pela desobediência civil.
“Todos os homens conhecem o direito de revolução, isto é, o direito de recusar obediência ao governo, e resistir-lhe, quando ele lhe revele despótico ou sua ineficiência seja grande e intolerável” (Thoreau, 1968: 21).
Defendo essa via. Estou pautado pela percepção que tenho da realidade e do estágio de consciência das “massas”, resultante do estudo e da pesquisa de campo, sobre comportamento político e dos aspectos que o motivam. Também, em experimentos sociais recentes (2013), onde a prática de uma parcela cega, jogou por terra aquela vasta mobilização, esvaziando-a e contribuindo para o crescimento orgânico da direita e para o próprio golpe de 2016.
A respeito de críticas de que a não violência seria passiva ou inerte, rebato citando Ghandhi (Para ilustrar a importância do ato de desobedecer na história do homem):
“Não-violência não quer dizer renúncia a toda forma de luta contra o mal. Pelo contrário. A não-violência, pelo menos como eu a concebo, é uma luta ainda mais ativa e real que a própria lei do talião — mas em plano moral. A não-violência não pode ser definida como um método passivo ou inativo. É um movimento bem mais ativo que outros e exige o uso das armas. A verdade e a não-violência são, talvez, as forças mais ativas de que o mundo dispõe”. (Gandhi, 2004)
Ainda, sobre afirmações de que nenhum outro meio além da violência seria eficaz para revolucionar uma sociedade, Martin Luther King, fortemente influenciado por Gandhi, afirma:
“A desobediência civil em massa como um novo estágio de luta pode transformar a raiva profunda do gueto numa força construtiva e criativa. Desordenar o funcionamento de uma cidade sem a destruir pode ser mais eficaz que o tumulto, porque pode ser mais duradouro e mais dispendioso para a sociedade como um todo, sem ser imoderadamente destrutivo. Por fim, é um instrumento de ação social que o governo tem mais dificuldade de sufocar pelo uso da força” (King, 2009: 82)

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