É preciso estar atento e forte (por Ricardo Almeida)

é preciso

“É preciso estar atento e forte,
Não temos tempo de temer a morte…”
Caetano Veloso

Os nossos direitos seguem ameaçados. No entanto, com as mobilizações de rua e os novos acontecimentos, como a delação da JBS e a pressão sobre Temer, o povo está aprendendo sobre o funcionamento dos lobbies das grandes empresas nacionais e internacionais no Congresso Nacional e também nos tribunais. Por isso, precisamos permanecer atentos e fortes, pois as horas e horas de notícias negativas nos principais meios de comunicação estão revelando a trama, mas também podem deixar uma parte da população ainda mais descrente e perplexa.

O fato é que, com o fim do pacto político, representado pelo processo de impeachment da presidenta Dilma, deu início a uma guerra contra os movimentos sociais e, principalmente, contra o PT e o ex-presidente Lula. O país entrou numa fase de intensas batalhas econômicas, políticas, jurídicas, psíquicas e culturais, de abrangência nacional e internacional. Milhares de empregos foram perdidos, o Congresso ficou nu aos olhos do povo, os juízes e procuradores se destacaram na cena política, aumentou a venda de Rivotril e as baixarias invadiram as redes sociais etc., etc., etc. As redes de televisão, rádios, jornais e algumas revistas semanais, a mando dos seus patrocinadores, não pouparam esforços para atacar quem denunciava o golpe, pois queriam defender e ampliar ainda mais os seus privilégios.

A grande mídia foi cooptada pelo bloco golpista à base de muito dinheiro público. E, mesmo assim, na adversidade, surgiram diversos movimentos sociais que ocuparam escolas, praças, esquinas e, depois, as ruas, com ou sem o apoio dos partidos, para defender os interesses dos trabalhadores e das camadas exploradas e excluídas da sociedade.

Esse período de resistências jamais pode ser esquecido por quem ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Vejam que em 2017 os ventos favoráveis à resistência popular sopraram muito mais fortes do que no ano passado: no dia 8 de março, por exemplo, as mulheres e os homens do mundo inteiro fizeram grandes manifestações contra o preconceito e a exploração das mulheres. No dia 15 de março, ocorreram atos no interior do país e nas capitais contra a perda de direitos. E no dia 28 de abril, os movimentos sociais, as centrais sindicais e indivíduos de vários matizes ideológicos e partidários realizaram a maior Greve Geral da história do país, dando uma clara demonstração de unidade em torno das pautas contra o desmonte da previdência pública e em defesa da CLT. Depois ainda houve o dia 10 de maio em que o Partido dos Trabalhadores, o MST, o MTST e a CUT demonstraram uma imensa capacidade de unidade e mobilização, quando militantes vindos das mais distantes regiões do país ocuparam a cidade de Curitiba para dar apoio à maior liderança popular que o Brasil já teve: o Lula.

Ainda em maio, tivemos aquela grande manifestação em Brasília, e no dia 28 um grande ato-show por Eleições Diretas Já!, com a participação de Caetano Veloso, Wagner Moura, Criolo, Martinália, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mano Brown, BNegão, Daniel de Oliveira, Sophie Charlotte e Serjão Loroza e Milton Nascimento.

O filósofo Antonio Gramsci diria que nós estamos entrando numa nova fase da guerra de movimento e da guerra de posição. E o poeta Paulo Leminski completaria dizendo que: “En la lucha de clases todas las armas son buenas, piedras, noches, poemas…” Por isso, e também por isso, não podemos cair na tentação de uma guerra puramente ofensiva, sem recuos, reflexões e celebrações nas cidades brasileiras.

Vejam que as forças conservadoras recuaram e só se ouve falar nelas no Governo (que tem 95% de desaprovação), no Congresso (que está totalmente desacreditado), nas redes sociais (ninguém duvida que sejam robôs e/ou pessoas contratadas) e em alguns meios de comunicação, como a Rede Globo, a Band, o SBT, a Veja e as rádios regionais. Fora isso, parece que os(as) patos(as) dispersaram ou “amarelaram” de vez!

Já se ouve falar até em divisões entre o Ministério Público, o STF e a Lava-Jato, e também entre o Senado e a Câmara dos Deputados. O fantasma do Teori Zavaski paira sobre Brasília, enquanto aumenta a força nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas e nas famílias brasileiras.

Por seu lado, Temer e Aécio, pegos recentemente – com provas – no mega esquema da JBS, estão em situação muito complicada. No entanto, mesmo com toda essa divisão do bloco golpista, Temer bate na mesa e afirma que não irá renunciar. Vejam que, diferentemente da Dilma, ele enfrentou os protestos em Brasília com a cavalaria, baionetas, gás lacrimogênio, balas de borracha e até com balas letais. A Rede Globo, junto com os lobbies, segue forçando as negociações “pelo alto” até tirá-lo do cargo e providenciar um sucessor que seja capaz de aprovar as reformas anti-povo e estancar a Operação Lava-Jato. Dizem que Aécio bebe, articula e chora desesperadamente, pois ele sabe que pode “ser comido”, como foi o Eduardo Cunha.

Mas se engana quem pensa que esta guerra será apenas “uma marolinha”! Recém estamos entrando na fase mais delicada e extrema da nova luta de classes, em defesa dos direitos do povo. É hora de escolher as melhores armas! As redes sociais, os blogs, o diálogo franco e o amplo esclarecimento sobre o que está em jogo fazem parte das nossas principais tarefas de mobilização e organização para os próximos atos-shows e manifestações.

Precisamos aprender a respeitar o tempo das pessoas e das organizações. A sabedoria está em adaptar os nossos desejos às atividades que existem no mundo real, e permanecermos dispostos(as) a acumular mais forças para prosseguir em frente. Se o futuro ainda é incerto, a paciência e a perseverança revelarão quem está junto conosco nos momentos decisivos.

Ainda não sabemos se Temer renunciará antes do julgamento da ação movida contra a chapa Dilma-Temer pelo STF. Cada semana será uma batalha diferente, e qualquer das alternativas também pode significar uma jogada do PSDB, do PMDB e do DEM e seus lobistas para evitar eleições diretas e aprovar as medidas impopulares. Neste momento da disputa, a grande maioria dos deputados e senadores dos partidos de esquerda está atenta e forte, mas ainda existem alguns vacilantes, principalmente os do chamado “Centrão”, pois eles sabem que jamais serão perdoados se votarem por eleições indiretas.

A hora é de união e não de divisão! Não podemos alimentar criticas às cores da bandeira que uma agremiação resolveu levar para as ruas. Uma, porque a luta atual não passa exclusivamente pelos partidos políticos. Outra, porque a Greve Geral do dia 28 de abril nos apontou o melhor caminho: as pautas defendidas mobilizaram e unificaram diversos setores da população. Além disso, ela tocou na parte mais sensível dos golpistas – o capital – e apontou para a possibilidade de formação de uma ampla frente política no Brasil, para além dos partidos.

– Ah, mas o Lula devia ter combatido a Globo quando ele teve a oportunidade e não o fez – reclama um. O outro desabafa: – As políticas do governo Dilma estavam equivocadas! E ainda tem aquela outra que defende: – A Lava-Jato é a solução para acabar com a corrupção no Brasil! Essas pessoas preferem morrer com a razão a escutar as ruas e a somar mais e mais esforços… Digam para elas que se perdermos as ruas, não há dúvidas de que virá uma nova ofensiva da Rede Globo e dos seus conhecidos aliados.

É hora das esquerdas apresentarem um projeto para o país, que inclua as pautas da previdência pública e da CLT, além da reforma política, dos juros e do Pré-Sal, entre outras. Mas também já está mais do que na hora de elas preservarem as lideranças que não cometeram crimes e de defender um julgamento justo para todos os suspeitos. As novas e antigas lideranças precisam mostrar maturidade política e contribuir nessas complexas tarefas.

Nesta nova fase da guerra de movimento e de posição, é preciso construir juntos e também celebrar os avanços obtidos. Percebam que os gritos de #ForaTemer”, #DiretasJá e #EmDefesaDosNossosDireitos já não estão restritos aos tradicionais grupos da esquerda brasileira. E isso é muito bom para o campo democrático e popular avançar ainda mais!

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Ricardo Almeida é Consultor em Gestão de Projetos e uso de tecnologias da Informação e da Comunicação.

(originalmente no sul 21)

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