Maquiavel e o imponderável (clóvis veronez)

imponderavel

Maquiavel tem sido muitas vezes criticado por sua percepção dos fatos políticos. Isso, pelo modo de expor os meios pelos quais os humanos se valem para atingirem e se manterem no poder. Também pelas maneiras que conquistam súditos (hoje, a opinião pública). Mas ele foi realista ao tratar da ambição e do egoísmo humano no tocante ao poder.

A obra O príncipe, nos deixa claro que o desejo do filósofo não é o de fazer especulações sobre política, mas constatar que o governante, mesmo que alegue, deve transgredir a moral para se manter no poder.

Ao cabo, ele esboça um “estranho” quadro, que retrata aquilo que escapa ao olhar não iniciado na política.

Para Maquiavel importou, o que deu certo e os modelos que não deram certo.

Grande conhecedor de como funciona a psicologia humana no âmbito da política, egoísta e ambiciosa, fez uma leitura realista do homem. Evidenciando que os fins justificam os meios surgindo assim o conceito “maquiavélico”.

Maquiavel disse que se o povo está rebelde, cabe ao governante fazer alguns atos de crueldade para que o povo veja quem é o governante, mas também não pode ser cruel demais. “O príncipe deve saber servir-se da natureza do animal, deve entre eles tirar as qualidades da raposa (estratégia e esperteza) e do leão (força, domínio, coragem)”. (MAQUIAVEL, 1983, p.73).

Transpondo para o atual momento brasileiro, traço um paralelo valendo-me dos princípios da surpresa e da brevidade expostos pelo autor na sua “Arte da Guerra”:

Passada a “surpresa” da tática golpista e a vitória breve no tempo, características do movimento das oligarquias em 2016, seus movimentos seguintes não obtiveram o mesmo sucesso. Esbarraram no imponderável “egoismo” das frações que haviam unificado forças no momento anterior; numa sub avaliação da capacidade de resistência do campo popular. Numa inevitável comparação, com o que, quero dizer: a relação de custo/beneficio, que justifica de forma hegemônica, no campo da ciência politica a atitude dos “comuns” ou/e “não iniciados”- quanto ganho, quanto perco?

O momento que atravessamos é resultado desse imponderado.

Vou tentar expor, aqui, dois de seus aspectos.

O primeiro é a ruína do simbolo moral que avalizou o golpe. Qual seja, o combate a corrupção tão bem desenhada na figura do pato plagiado pela Fiesp naquelas manhãs de domingo. O segundo aspecto diz respeito a incapacidade de prever o processo de reagrupamento do campo democrático popular (na sua base) em curso na atual conjuntura.

Em recente artigo, para o site outras palavras, o cientista politico Pedro Otoni, escreve:

“A lógica de Moro, ao eleger Lula como seu antagonista ao preço de colocar em questão a própria operação Lava-Jato, desagradou parcelas do consórcio golpista, mais fundamentadas pelos resultados de suas ações do que pelas preferências políticas e rancores.

Moro não é mais útil, ou não na mesma proporção que antes, porque já está passando a arrombar portas abertas, e suas ações não correspondem mais aos objetivos já indicados. A condução de Curitiba protegia Temer e o PSDB, mas o que vale isso se os interesses materiais que estes agentes deveriam viabilizar não estão sendo encaminhados?

O elemento chave da atual crise do governo Temer não é a delação dos donos da J&B, mas a incapacidade da presidência e seus aliados tucanos em dirigir a aprovação das reformas. Isso se deve especialmente à resistência do povo nas ruas, que tem tido impacto no cenário parlamentar. Como não consegue aprovar as reformas, a Casa Grande deseja descartar o presidente e conduzir ao Palácio do Planalto alguém que tenha condições de continuar o trabalho”.

Se a traição é um modus operandi dos capitalistas, que se intensifica em períodos de crise, o espaço para o imponderável se amplia, as consequências de cada ação não são conhecidas completamente por quem a executa. Este é um retrato do Brasil atual, no qual ninguém do espectro político tradicional, com algum nível de bom-senso, pode afirmar com certeza que estará livre nas próximas 24 horas”.

Assim dito, cumpre ao campo popular uma atuação que amplifique continuadamente as contradições da falsa moral golpista, a fragmentação do seu campo político e, por outro lado, recomponha conjunturalmente o bloco de esquerda.

Um pouco de Maquiavel, não fará mal nem a esquerda, nem aos interesses do povo, muito menos à sua vitória!

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