OS DENUNCIANTES (Ricardo – de Cascais – em Portugal)

transparencia

(De um comentário de Coca Oliveira no Face)

A transparência anda a atrapalhar a corrupção.
Aos poucos eu, distraído por vocação, descubro que há um vocábulo vigoroso que se opõe veementemente à corrupção. Há organizações nacionais e internacionais em prol da transparência.
Existe até uma escala internacional dos países transparentes.
A corrupção só campeia em países do terceiro mundo!
Qual é a dúvida? Só me vem à memória o post do New York Times sobre a corrupção em Angola.
É uma espécie de troféu que já foi partilhado e repartilhado milhares de vezes por papagaios treinados em Langley, sede da CIA nos Estados Unidos.
E vivem felizes, os que lutam assim ferozmente contra a corrupção. Em nome da transparência, claro.
Partilhei há poucos dias um post sobre os fluxos financeiros entre o continente africano e o resto do mundo que demonstrava sucintamente que esses fluxos de África para o resto do mundo são cinco vezes superiores aos fluxos inversos.
É óbvio que só há uma explicação: são os corruptos africanos a resguardar noutros continentes os frutos da sua corrupção.
No caso concreto de Moçambique, há meia de dúzia de anos atrás e acompanhado de um bom cálice de vinho tinto, dizia-me um amigo meu de infância: sabes, Ricardo, o nosso problema é que não temos pretos ricos de nascença como em tantos outros países. Daí a ganância desenfreada!
Estou a ver, a culpa é dos corrompidos, não é dos corruptores.
De outro modo a pergunta mais evidente seria: quem é que anda a corromper quem?
E vai daí, inventaram a transparência. Para justificar a continuação das agressões, agora por meios mais sofisticados.
Não contem comigo para participar nessa peça de teatro trágico-cómica.
A corrupção é e sempre foi apanágio dos senhores que querem controlar o mundo a seu bel-prazer. Não foi por acaso que a indústria norte-americana foi um dos maiores fornecedores do regime nazi durante a segunda guerra mundial, não foi por acaso que a primeira visita do Trump ao estrangeiro foi feita à Arábia Saudita.
E a todos os que se masturbam com essa sacrossanta transparência (pantominice de teatro de vão de escada) quero apenas dizer que o que sempre me preocupou, preocupa e vai continuar a preocupar são os transparentes. Não é a transparência.
São os que não têm nome, são os que vivem afastados dos grandes centros urbanos, são os que não têm escola nem hospital e que convivem com a indiferença objectiva dos denunciantes.
Os denunciantes da falta de transparência ignoram os transparentes.

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