A plástica jurídica do Sr procurador Deltan Dalagnol (clóvis veronez)

logo observatório

Escrever, para alguns, é tarefa árdua. Incluo-me entre esses alguns. Sou pouco técnico e um tanto apressado quanto à forma e muitas vezes relapso na revisão.  “Amador”, acabo elegendo o “conteúdo” como prioridade, embora deseje, lá no íntimo,muito mais.

Minhas influências (re)querem o espanto.

Uma dica que me deram quando comecei (comecei “tarde”) é não me prender muito à forma. Não ceder, especialmente aqui no site, à tendência de cinzelar em excesso o texto. Essencial é a mensagem, o que você quer passar, disseram-me vários amigos.

Agora pela manhã, como sempre faço, vasculho alguns temas na busca de assuntos sobre os quais possa exercitar uma palavra, sentimento, esboçar opinião, simplesmente estranhar.

Fiquei “pateta”, quando li sobre a palestra do Sr Deltan Dalagnol para cirurgiões plásticos iniciantes.

Em seguida, uma vontade de vomitar, sucumbir à náusea e desistir.

Não desejo, para ninguém, essa sensação. Mesmo assim, compartilho o seu motivo, nesse texto de Anna Balloussier para A Folha de SP.

Anna descreve, como eu não conseguiria, um ambiente que embrulha meu estômago e inibe minhas palavras, espanta-me.

ele

Em congresso de cirurgia plástica, Dallagnol
questiona: ‘somos golpistas dos golpistas?’

O procurador Deltan Dallagnol, 36, entra no Grand Hyatt Hotel. O primeiro estande à vista exibe amostras de próteses de silicone.

Coordenador da força-tarefa da Lava Jato, o paranaense de Pato Branco está em São Paulo a convite da ala paulista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). É o palestrante mais esperado desta quarta-feira (14), primeiro dia de uma jornada que discute o mercado das operações estéticas.

Está lá para defender o legado da operação que toca há três anos e já pôs na cadeia figurões como Eduardo Cunha e Marcelo Odebrecht.

O procurador dividiu o rol de palestrantes com especialistas em áreas como gluteoplastia e mamoplastia (intervenções no glúteo e nas mamas). A SBCP não quis informar se Dallagnol foi remunerado pela atividade. Ele disse que falaria com a Folha “depois” (terminada sua fala, centenas de médicos se enfileiraram para pedir autógrafos e selfies).

Lá pelo meio de sua exposição, combate a ideia de uma Lava Jato seletiva, que teria sobretudo o PT na mira.

“Nós antes éramos os golpistas. Agora nós somos os golpistas dos golpistas? Eu fico confuso”, afirma, lembrando que a operação supostamente algoz do petismo atingiu outros partidos –como o presidente Michel Temer (PMDB) e o senador Aécio Neves (PSDB).

Seu discurso na noite seria sobre ética no trabalho, dizia a assessoria de imprensa do evento. Na hora, Dallagnol faz um apanhado de seu recém-lançado “A Luta contra a Corrupção”.

O livro, que entremeia sua trajetória pessoal na Lava Jato com uma discussão sobre a corrupção no Brasil, foi posto à venda na baia de uma livraria, um ponto fora da curva entre tantas outras que promoviam acessórios para lipoaspiração e novas tecnologias do silicone.

Naquela que foi chamada de “conferência especial”, o procurador adota a linguagem dos “nativos”.

“O país está desfigurado. Precisamos de uma cirurgia reconstrutiva. Acho que vim no lugar certo para pedir ajuda”, diz a certa altura de sua apresentação.

Outra metáfora à moda da casa: “Você já teve um paciente que se olhava no espelho e se achava mais bonito do que era?”.

Pois bem, “o Brasil se olhava no espelho e se achava mais bonito do que era. A corrupção vende ilusões”.

O cirurgião plástico Rolf Gemperli o apresentou como “uma daquelas pessoas que estão preocupadas com o futuro do nosso país”.

Avisou à audiência que o convidado daria “uma explicação sobre o que é Lava Jato”.

Dallagnol começou aquecendo os cerca de 1.100 ouvintes com um afago. “Gosto dos médicos porque médicos gostam da Lava Jato.”

Num debate que se estendeu por 1h30, o procurador comparou sua história à do Brasil, com sucessivos “fracassos no combate à corrupção”, analogia que já traçara em seu livro.

Lembrou de sua atuação no caso do Banestado, na primeira metade dos anos 2000. Eis o desânimo: a investigação implicou 680 pessoas e puniu apenas um punhado de colaboradores.

Conta que a escassez de resultados o levou a pensar que, das duas, uma: “Ou trabalho mal ou sou azarado”. Mas logo percebeu que a situação se repetia com vários colegas.

Desafia o público: alguém conseguiria lembrar de réus condenados por corrupção na última instância (descartados pontos de inflexão como Mensalão e Lava Jato)?

Um médico na plateia sugere o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, conhecido como Lalau, preso em 2000 pela participação em desvios de recursos da construção do fórum trabalhista de São Paulo.

Mas Lalau, minimiza Dallagnol, ficou detido “em prisão domiciliar, que é uma prisão tipo ‘nhé’”.

A animosidade a Lula que emana da plateia é nítida. Um doutor lamenta: a classe médica pode até ser politizada, mas é duro ouvir pacientes dizendo que na época do ex-presidente era melhor. “O povo não sabe eleger.”

Outro espectador pergunta se Dallagnol tem uma “previsão real” para a prisão do petista. “Vou exercer meu direito constitucional de ficar em silêncio.” A resposta extrai risos do público.

“Não importa se você é esquerda, direita, centro, cima, baixo, lado… Tem coisa boa para fazer com R$ 200 bilhões”, diz. É essa a quantia que, segundo ele, a corrupção drena do Brasil.

Para “enfrentar grandes corruptos”, a força-tarefa montou uma “estratégia de fases” cujo “objetivo é superar o jogo Candy Crush”, brinca. Assim, com investigações em parcelas, “a sociedade pode acompanhar este caso quase como se fosse uma série”.

A operação apostou ainda numa estratégia de comunicação inédita, afirma. Foram ao Jô Soares, à Globo News. Criaram um site. Deram coletivas de imprensa.

Numa delas, Dallagnol se valeu de um polêmico Power Point que colocava Lula no epicentro de um megaesquema de corrupção –ele contemporiza aquele dia no livro, mas não o cita na palestra.

PS: Depois de editar esse post, deparei-me com o comentário de Fernando Brito sobre o mesmo tema. Vou acrescentar aqui, constatando que não estamos, mesmo, sozinhos:

O “pin-up boy” do silicone jurídico (por Fernando Brito)

A arte de escrever – e descrever – é uma maravilha. Ela leva você não só aos fatos, mas aos ambientes em que eles ocorrem e a atmosfera tem um odor que nos leva a compreender aquilo que, no texto frio e industrializado que nos sapeca em geral a mídia, passaria “batido”.

Anna Virgínia Balloussier, esta noite, na Folha faz isso, desenhando o ambiente em que o  sr. Deltan Dallagnol deita falação para uma platéia que acha que pode moldar um pais como molda narizes, queixos, seios e cinturas.

E compara o combate a corrupção, deus meus, a um g=jogo de “Candy Crush”.

O pioer é que a indigência mental arranca aplausos da platéia.

Gente que queria um Brasil lipoaspirado dos pobres que o engorduram.

Nada contra, claro, à cirurgia plástica, por que sou dos que acham que saúde é um estado de bem-estar. Mas tudo contra aquilo que é seguir, insanamente, os padrões que nos são ditados como os únicos em que podemos viver.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *