PIAUÍ: O HOMEM QUE FALAVA LAVAJATÊS

O ministro Romualdo Neto reinventou a sintaxe
ROBERTO KAZ
ILUSTRAÇÃO: REINALDO FIGUEIREDO_2016

Romualdo. Neto? Meu neto? Ou seu? Ah, o sobrenome! É isso, quê? O meu sobrenome? É Neto. Verdade. Ou não? Depende, porra. Tá gravando? É que o partido… Posso checar a sua [inaudível]? Vai que.

Mas sim, cá entre nós, sou Romualdo Neto, conhecido vereador, conhecido deputado, conhecido senador, conhecido presidente de estatal, conhecido tesoureiro do partido e, agora, conhecido ministro do novo e já conhecido Ministério do Conhecimento.

Você, claro, conhece minha história. Ou, pelo menos, meu bigode. Nasci em Maricá, fui criado na Suíça e me elegi nos últimos 27 anos por Roraima. Sou amado naquele estado, onde nunca estive (o que só me faz pensar quão idolatrado eu seria se aparecesse por lá). Mas a liturgia do cargo é maior do que a distância geográfica. Por isso lutei, em todos os meus mandatos, para que o povo brasileiro não mais confundisse Roraima com Rondônia. E assim tem sido desde que assumi o ministério, há onze horas.

Minha vida é boa. Tenho mulher, filhos e tenho Deus no comando. O único problema é essa questão fonética que tem me atormentado de dois meses pra cá. Surgiu durante o pôquer na casa do Carvalhinho da Primeira Infância. A disputa era por uma sub-regional de abastecimento da Petrobras. Eu acabei levando com um Royal Straight Flush. Sem treta. Podem colocar o Moro para investigar minhas cartas. Foi coisa de Jesus. Enfim, tava numa alegria só. Já sabia até quem ia nomear. Mas aí do nada o Chagas, da sub-relatoria do Comitê de Ética, colocou o iPhone na mesa. E começou. As frases. Só verbo. Entende? O predicado. Às vezes nem. Dificuldade. Não saía, porra.

Fiquei aflito. Como pode? Outro dia mesmo, o presidente tinha me ensinado minha primeira mesóclise. Entendi-lo-ei e passei-lo-a a usá-lo-o em tudo que era frase. Tava tranquilo, tava favorável. Os filhos batiam palma, a mulher elogiava. A Kendrya, então, meu amigo. Poooooorra. A Kendrya. Quem não conhece o esquema da Kendrya? Mas a Kendrya é outra história.

O fato é que chegando à Esplanada, quando eu fui negociar o primeiro cargo do dia. Voltou. Foi só o [inaudível]. Aquele. O da Transpetro. Sabe quem? O Zé Colmeia entrou na minha sala. Já veio falando de fazer o [inaudível] com o Aécio. Reclamou que eu não. Falou assim pra mim: “Olha, Romualdo, eu acho que.” E eu, como? E se o telefone? Outro dia mesmo. O Eduardo. Objetivamente falando. Com ele aconteceu uma. Concorda comigo? Sem meter advogado. Tem que ter um pacto, porra. Não tem nada a ver com.

Saí de lá desesperado. Liguei pra minha mulher para tentar conversar. Mas lembrei, no meio da ligação, que nunca na vida falei de política com ela. Então resolvi passar na Kendrya. A Kendrya, meu amigo, tinha que ser ministra da Articulação. Conhece todo o Congresso dessa porra dessa cidade. Ela me contou então que tá todo mundo assim. Que depois do. Até o reizinho. Daquele caso. A história do. A gravação. O filho do Brahma. Quando falou que não ia ter. Que podia ficar tranquilo com. Tecnicamente o ideal seria. Depois daquilo. Até por uma questão de caráter, porra. Ninguém mais.

A pica é que teve mais atividade prejudicada por essa porra dessa epidemia sintática. Fui pego no contrapé no púlpito da Igreja Ungida de Boa-Fé, onde prego todas as quintas. Parceiro, foi só anunciar que os obreiros começariam a recolher as doações. Meus irmãos, irmãs, é hora da. Tá na Bíblia. O versículo, porra. Ressuscitou, no capítulo do. Quando notei, já tinham iniciado uma sessão emergencial de descarrego em mim.

Além disso, esse problema anda dificultando muito a celeridade do Executivo. Outro dia mesmo liguei para o pastor Gomes, o das nomeações, para pedir um carguinho amigo. Era coisa pequena, honesta, um filezinho de alcatra – ou até de patinho – ali no Ministério da Cultura. Falei assim pra ele: “Ô, Gomes, tá lembrado daquele meu primo? Rapaz sério, que mexia com essas coisas de artista. Ser humano 100% ilibado.” O Gomes só respondeu: “Aquele que uma vez?” Eu continuei: “Esse mesmo, que conhecia o. Então. Andei pensando. O Ministério. O da Cultura. Não seria o caso de?” E ele: “Aquela história que a gente? Que um dia você? Genial. Vou levar ao [inaudível].”

Pois bem, liguei para o meu primo dizendo que o cargo era dele. Foi aquela alegria na casa. Aí abro o jornal no dia seguinte e descubro que o tal do Ministério foi extinto. Liguei pro Gomes. “Ô Gomes, cadê a porra do meu cargo?” Ele só respondeu: “Que cargo? A ideia foi sua! Não era disso que você falou no telefone?”

É por isso que por telefone eu não falo mais. E digo outra: conversa sobre política só no campo de golfe, usando no máximo uma sunga branca. Quero nem saber se vou ter que encarar a barriga do Sarney, do Jader ou do Heráclito. E se alguém me vem com papinho de Lava Jato, amigo. Se alguém bate na minha porta querendo falar de acordo, de Supremo, de porra de impixmá. Aí, companheiro, o bicho pega. Se a conversa vai pra esse lado, tu sabe o que eu faço? Eu.

ROBERTO KAZ

Roberto Kaz, repórter de piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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