Brasil de Fato – 4 anos das Jornadas de Junho: como a militância política se transformou?

Pesquisadores de cinco universidades investigam as mudanças após o mais recente movimento de massa da história do país

Pedro Rafael Vilela

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Milhares de pessoas tomaram a rampa do Congresso Nacional, em Brasília, no dia 17 de junho de 2013 - Créditos: Mídia Ninja
Milhares de pessoas tomaram a rampa do Congresso Nacional, em Brasília, no dia 17 de junho de 2013 / Mídia Ninja

Há quatro anos, o Brasil vivia uma jornada de mobilizações de rua sem precedentes. Indivíduos, grupos políticos e coletivos de distintas conotações ideológicas, à esquerda e à direita, explodiram contra o establishment político.

O estopim para o início da tomada das ruas por milhares de pessoas em centenas de cidades se deu a partir do dia 13, quando ocorreu uma forte repressão policial contra militantes do Movimento Passe Livre (MPL), em São Paulo (SP). Eles protestavam contra o aumento de 20 centavos na tarifa do transporte, e a violência causou a revolta e instou a mobilização das pessoas a partir da convocação virtual de protestos por meios das redes sociais.

Em uma das cenas mais icônicas daquelas jornadas, milhares de pessoas tomaram a rampa do Congresso Nacional, em Brasília, no dia 17 de junho de 2013. As imagens circularam o mundo e manifestações de brasileiros foram realizadas até em outros países,.

Entre os alvos preferenciais dos manifestantes, estavam os caríssimos estádios da Copa do Mundo, que o país sediaria no ano seguinte. Inicialmente contrários às mobilizações, os grandes meios privados de comunicação logo perceberam que poderiam se aproveitar da revolta para estimular protestos direcionados ao governo federal, comandado pela ex-presidenta Dilma Rousseff.

De lá pra cá, o Brasil não foi mais o mesmo. A rotina de protestos de rua se tornou comum nas principais capitais do país, com pautas diversas, desde as lutas por direitos sociais até mesmo pedidos absurdos de intervenção militar, propagados por grupos neofascistas. A emergência de grupos de direita na sociedade polarizou ainda mais o ambiente político e acabou precipitando o golpe parlamentar de 2016, que afastou Dilma da Presidência da República.

Analisar as transformações da militância política no país a partir de junho de 2013 é o objetivo de pesquisadores de cinco universidades brasileiras (UERJ, UFMG, UFES, UFG e UFPel). Liderados pelo professor e pesquisador Breno Bringel, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da UERJ, eles farão uma análise comparada dos protestos em cinco capitais, tentando fugir das avaliações mais comuns, que já se tornaram até um estereótipo no imaginário político geral, como a de que as jornadas de junho foram um movimento “capturado” pela direita ou que teria sido a miríade de novas expressões políticas quase revolucionárias.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Bringel problematiza essa polarização empobrecedora do debate sobre as jornadas de junho e propõe uma reflexão que considere as contradições desse processo e os efeitos dele para uma nova configuração dos campos políticos no país.

Confira a seguir os principais trechos dessa entrevista:

Brasil de Fato: Existem duas interpretações mais correntes sobre as jornadas de junho de 2013. Uma mais otimista, que atribui a esse momento uma grande potência democrática, de expressão de novos sujeitos políticos. A outra interpretação é bem mais pessimista, ao considerar que junho foi capturado por uma direita neofascista, antidemocrática, que abriu caminho para o golpe, etc. Quais as limitações dessas avaliações tão polarizadas?

Breno Bringel: Entender junho para além dessa polaridade significa pensar esse processo histórico em suas contradições também. Junho de 2013 ainda é um grande enigma, tanto para a esquerda, quanto para a sociedade brasileira em geral, que, em parte, enxerga as jornadas de junho como o grande fantasma de todos os nossos males de hoje, como se tudo nascesse nesse momento, ou que percebem esse momento como uma grande esperança de uma revitalização da esquerda e das lutas sociais, o que não foi bem assim.

Essas duas interpretações são insuficientes porque junho de 2013 foi tudo isso e muito mais. Representou uma coexistência física, nos mesmos espaços, de sujeitos heterogêneos, mas que estavam ali por motivos muito diferentes. Havia um antipetismo à direita do PT, protagonizado por setores conservadores, liberais, inclusive fascistas, e um antipetismo à esquerda, profundamente radical. Essa coexistência densa do momento inicial de junho foi um momento de catarse geral, de descarga emocional de indignação mesmo, uma tendência de maior individualização do ativismo, no qual muitas pessoas saíram às ruas sem partido, sem uma organização por trás, como se o protesto em si fosse mais importante que a lógica do movimento.

Não é que junho de 2013 começou como uma coisa de esquerda e foi sendo capturado pela direita. Desde o começo, conviviam diferentes setores da esquerda, como os autonomistas, os mais radicais e o campo popular-democrático, formado pelos movimentos e partidos mais tradicionais, e também por uma direita de diferentes características, com segmentos conservadores, liberais e nacionalistas. O que nós tivemos após esse momento foi uma decantação desses grupos e dessas práticas políticas heterogêneas, que passaram, aí sim, a disputar os espaços políticos, convocar manifestações em espaços separados, disputar pautas distintas. E isso vai levando a um posicionamento desses atores emergentes.

Grupos de direita, como o MBL e o Vem pra Rua, só surgem nesse momento posterior, em 2014, como resultado das forças sociais de direita que foram às ruas em junho, e também vai levando à necessidade de realinhamento dos atores políticos tradicionais do campo da esquerda democrático-popular.

Mas é inegável que, de junho de 2013 pra cá, houve uma afirmação de um campo político de direita que se expressa também nas ruas, na forma-protesto e até na tentativa de se constituir na forma-movimento. Isso não seria um resultado direto desse processo? 

Os campos políticos à direita, sobretudo setores liberais e conservadores, já existiam antes disso. O que talvez seja uma novidade de junho e 2013 é a expressividade pública, o uso de protestos nas ruas, as formas de mobilização de alguns grupos e coletivos que, em alguma medida, tentam imitar certas lógicas de protestos da esquerda, uma estética parecida, na forma-movimento, para se colocarem como atores públicos legítimos na sociedade (é o caso do MBL e o Vem pra Rua, por exemplo), muito embora esses mesmos grupos de direita também tenham uma circulação muito próxima com partidos políticos e think thanks.

O que eu acho importante é a gente não homogeneizar esses campos políticos. Da mesma forma que a gente sabe que existe uma pluralidade na esquerda ou nas esquerdas, como se diz, também existe uma heterogeneidade enorme nas direitas no Brasil. A esquerda comete o erro de pensar que a direita é uma coisa só, um monolítico. Há uma diversidade grande de conservadores, liberais-conservadores, liberais, libertários, anarco-capitalistas. Existe uma direita monarquista, uma direita que se conecta em rede como nova forma de ativismo, outra que está mais presente no parlamento do que nas ruas, etc. E analisar essa heterogeneidade de campos políticos em disputa é importante porque podemos identificar, a partir daí, as fraturas e as divisões dentro da direita, mesmo que se diga que a direita costuma ser mais pragmática na unidade.

E a questão mais central é entender que essas direitas não têm só uma expressividade nas ruas e nos parlamentos. Elas começaram a disputar projetos culturais de sociedade, disputam territórios, leituras, socialização política, sociabilidade. Essas direitas têm um projeto mais amplo do que apenas ganhar as eleições ou utilizar as ruas conjunturalmente. Isso é algo importante de ser compreendido para qualquer iniciativa de rearticulação da esquerda no Brasil e de entendimento mais complexo sobre junho de 2013.

Algumas explicações sobre junho de 2013 partiam da avaliação de que a população, embora tivesse melhorado as condições de vida com as políticas sociais dos governos petistas, ainda se revoltavam com as condições do transporte público, da saúde e da educação, por exemplo. Com o golpe, a piora na crise econômica e os projetos de retirada de direitos sociais, esse cenário só piorou no país, mas não vemos a perspectiva de uma nova onda de protestos com a mesma carga que aquela. Por quê?

Eu não concordo com essa interpretação de que diz que as pessoas saíram às ruas em 2013 porque o país, apesar de ter melhorado muito, ainda era insuficiente e o povo queria mais. Essa é mais uma dessas explicações normativas que não faz muita autocrítica das contradições políticas que o Brasil viveu em termos de aliança de classe, de modelo neodesenvolvimentista e extrativista extremamente devastador.

É preciso pensar isso a partir de outros planos. O porquê de as pessoas terem saído às ruas [em 2013] não teve a ver simplesmente com reivindicação de direitos. O ponto é entender o que havia de subjetividades, o que houve de deslocamento cognitivo na sociedade brasileira.

Além de eventuais mudanças estruturais nas condições de vida, é preciso entender o que houve de mudança também na concepção de vida da própria sociedade. E para entender isso, a gente precisa compreender o papel da religião nos territórios, o papel de uma lógica de empreendedorismo individual, a emergência de uma nova cultura militante. Entender também como as novas tecnologias impactam tanto na socialização dos jovens como em novas formas de convocar os protestos.

Enfim, existem várias outras chaves que me parecem bem importantes para explicar o porquê [da eclosão dos protestos de rua].

As novas tecnologias da informação e da comunicação se integraram completamente à cultura militante dos novos tempos no Brasil e no mundo, mas até que ponto o controle das redes sociais por grandes corporações privadas não pode também degradar as lutas políticas e a própria democracia, ao estimular e influenciar comportamentos na internet que acabam repercutindo nas ruas? 

Essas redes sociais que estão sendo usadas para impulsionar os protestos são controladas por plataformas comerciais e mercantis e, de fato, isso implica em assimetrias e lógicas de poder. Tem um elemento aí que me parece delicado, especialmente para a militância de esquerda, que é a própria exposição de ativistas e a indução de determinadas dinâmicas para os protestos.

No caso do Brasil, isso é algo extremamente preocupante, porque a militância daqui quer entender como usar melhor o Facebook, em vez de entender como sair do Facebook para criar outros instrumentos de comunicação política e redes sociais não comerciais –apesar da existência de midiativistas e grupos importantes de software livre que fazem essa discussão, mas não é a tendência geral.

Na pesquisa que você está coordenando, há uma tentativa de se afastar de uma visão “paulistocêntrica” sobre junho de 2013, e o diagnóstico de que o impacto do ciclo de protestos se deu de forma muito particular nas diferentes cidades e regiões. Quais são as evidências disso?    

Existem elementos que diferenciam o junho e o pós-junho em diferentes lugares do Brasil. Se a gente olhar para Belo Horizonte, por exemplo, teve uma dinâmica muito vinculada à cultura política local, que tinha a ver com a retroalimentação de espaços culturais, de ocupações, uma militância artística, criativa, e que, em alguma medida, foi se fundindo com esse ativismo mais emergente de 2013, gerando instrumentos e plataformas políticas que permitiram canalizar essa energia de junho para a construção de candidaturas populares nas últimas eleições, com forte experimentalismo político, semelhante às experiências do Podemos ou das Convergências Municipalistas na Espanha. Nenhuma outra cidade do Brasil teve essa mesma capacidade organizativa de canalizar a energia de junho em novas experiências políticas.

Por outro lado, em outros lugares do país a repressão policial durante as jornadas de junho foi tão forte que quase acabou com coletivos e grupos, que sofrem as consequências da perseguição até hoje. Em alguns casos, a direita cresceu mais, mas em outros, menos. O campo democrático-popular, embora em crise, manteve-se forte em algumas regiões, como no Nordeste, mas se enfraqueceu bastante em outras.

Os militantes que participaram de junho de 2013 confluem no que chamamos de um impacto biográfico, que afetou toda uma geração, que a partir de então pensa a política a partir de outros olhares, outras bases. Esse impacto mais subjetivo é importante.

Uma das hipóteses que temos discutido é se a emergência dos protestos de junho de 2013 coincide, de fato, com o fim de um ciclo político mais amplo, que é o período da redemocratização.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

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