VIDA, NOSSA VIDA, OLHA O QUE DE TI FIZERAM!

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Não consigo mais falar sobre quase nada. Não me dirijo mais ao mundo que me era habitual. Não converso mais com várias pessoas como supus que elas eram. Não vejo as mesmas ruas, os mesmos passeios públicos, as mesmas animações humanas que existiam sobre essa terra em que vivo. O que por muito foi tempo igual, faz pouco está agora enormemente diverso. Não, não são só os novos tempos da política mundial. Não são apenas os novos cursos da vida, com sua desalmada economia monopolista, suas adoecidas padronizações planetárias, suas tristes maltas migrantes, a diafaneidade crescente de gente pobre que desaparece viva, e nem são todas as violências cotidianas, passadas diante de olhos pávidos e bocas silentes.
Não, não é isso.
Há algo à volta que observa e assombra, e que não é a mesma advertência monitória que aqueles dois alemães denunciaram estar há cento e sessenta anos rondando a Europa. O espectro de hoje sobrevoa uma humanidade que, havendo deixado de ser a humanidade que era, tenta ser uma humanidade que daquela se vai esquecendo, perdendo os rastros, deixando de olfateá-la, e mesmo assim precisa ser uma humanidade. De si pouco mais do que o nome recordando, contudo tem ainda desejos de identidade, e não aprendeu a ser essencialmente outra coisa, ainda que ganhe inéditas formas, outras aparências, nupérrimos arranjos.
E então eu não consigo dizer nada sobre isso, sobre essa geleia que a nós agrega sem peculiaridades e nem especificidades. Não estamos mais em estado individual, mas não pela alegria das forças coletivas que um dia julgamos poder conjugar para um melhor sol nos luzir. Em verdade, somos todos, não somos mais apenas um, mas não sabemos ser todos porque ainda somos exatamente apenas um. Oh, tristes almas essas que nos sopram o viver, que não podendo nos tornar arcanjos também não conseguiram nos decair de lá onde está o que o mistério suspende. Subimos e descemos nessa tirolesa lúdica, que nos apresenta vitrines de felicidade onde as lojas estão raramente abertas, e então morremos em estado de sede e de fome por vidas de sonho, as vidas que estão nessas vitrines de encanto.
Cá estou eu, cá estamos nós, diante de um mostruário onde estão o leite, o mel e as outras coisas do alto, mas onde uma criatura subterrânea nos mantém retidos em uma firme corda. Essa corda está enroscada em nossos desacostumados pescoços de bípedes, a criatura nos faz seus animais domésticos. Nesses tempos últimos, a tirolesa desceu. Ela subirá novamente, noutro momento. Mas enquanto ele não chega, eu fico aqui, frente à vitrine, com esse sisal na garganta, e não consigo mais falar sobre quase nada.

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